Você mudaria da sua cidade? Eu sempre achei estranha essa pergunta. Porque ninguém responde pensando apenas na cidade. A gente responde pensando na vida que construiu dentro dela. Meu primeiro impulso seria dizer: não.
Não porque toda cidade, até a mais caótica, cria raízes invisíveis na gente. Há ruas que conhecem nossos silêncios. Padarias onde o atendente já não pergunta o pedido. Caminhos que o corpo percorre sozinho, quase por memória.
O turista percebe a beleza primeiro. Ele fotografa o pôr do sol, a praça cheia num domingo, a arquitetura antiga, o café movimentado na esquina. Caminha devagar. O morador atravessa o mesmo cenário tentando chegar em casa antes do trânsito parar a cidade outra vez.
Talvez essa seja a maior diferença entre visitar e viver: quem passa vê paisagem; quem fica conhece o peso. Há cidades lindas para um feriado e difíceis para uma vida inteira. Mesmo assim, permanecemos. Porque pertencimento não é racional. Certos lugares nos moldam silenciosamente.
Mas existe um momento em que o “não” começa a cansar.
E então surge o sim. Sim, eu mudaria. Mudaria porque algumas cidades começam lentamente a expulsar as pessoas. Não com muros, mas com exaustão. Há cidades onde a vida inteira acontece entre um semáforo e outro.
O tempo diminui. O horizonte diminui. O custo de vida transforma dignidade em privilégio. A violência muda caminhos. Trabalhar ocupa tanto espaço que já não sobra vida ao redor do trabalho.
E talvez seja por isso que tanta gente vá embora sem odiar a cidade. Apenas cansou de lutar contra ela. Mas, no fundo, a resposta mais honesta talvez seja: talvez.
Porque nenhuma cidade resolve aquilo que carregamos dentro de nós. Há quem atravesse oceanos e continue sentindo o mesmo vazio numa segunda-feira de manhã.
Também é verdade que existem cidades que ampliam pessoas. Lugares onde caminhar ainda parece humano. Onde a vida não se resume a resistir.
Toda cidade cobra um preço de quem decide permanecer nela. As mais perigosas cobram em silêncio, fazendo a pessoa esquecer, aos poucos, quem sonhava ser. Talvez o problema nunca seja apenas mudar de cidade.
Talvez seja descobrir se ainda existimos plenamente dentro dela.
Há pessoas morando há anos em lugares que já não habitam emocionalmente. Corpos presentes. Vidas ausentes. Por isso, antes de responder se você mudaria ou não da sua cidade, talvez valha encarar uma pergunta mais desconfortável: a cidade onde você vive ainda ajuda você a se tornar quem nasceu para ser?
Fonte: Jornal Da Orla


