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Sobre seres humanos, caráter e nossos tempos


Há algum tempo, tenho procurado escrever textos que apontem caminhos, valorizem bons exemplos e mostrem que ainda existem motivos para acreditar nas pessoas. Continuo convencido de que esse é o melhor caminho. Mas há momentos em que a realidade nos obriga a encarar aquilo que preferíamos não ver.

Nos últimos anos, episódios envolvendo trabalhadores que exercem profissões essenciais revelaram uma face profundamente preocupante da sociedade brasileira. Em um telejornal, um jornalista conseguiu transformar uma mensagem de fim de ano em motivo de indignação ao afirmar que os garis seriam “a camada mais baixa da sociedade”. No ano passado, um empresário matou a tiros um coletor de lixo que simplesmente fazia o seu trabalho.

Nesta semana, outra tragédia: um empresário embriagado atropelou e matou um jovem de apenas 19 anos, casado, pai de um filho e com a esposa grávida de sete meses. Também era um trabalhador da coleta de lixo.

São histórias diferentes, mas todas expõem o mesmo problema: a tendência de medir o valor de uma pessoa pela profissão que exerce, como se alguns trabalhos fossem mais dignos do que outros. Não são.

Uma sociedade só existe porque milhões de pessoas desempenham funções diferentes e igualmente indispensáveis.

Médicos, professores, agricultores, motoristas, cozinheiros, pedreiros, faxineiros, policiais, atendentes, entregadores, coletores de lixo, garis e tantos outros mantêm as cidades funcionando diariamente. Basta imaginar poucos dias sem coleta de lixo para perceber o tamanho da importância de um trabalho que muita gente só nota quando deixa de ser realizado.

A raiz desse problema vai muito além da educação formal. Ela passa pela formação de princípios, pela construção do caráter e por uma visão de mundo mais humanista, capaz de ensinar que todo ser humano possui a mesma dignidade. Respeito, empatia, humildade e solidariedade não podem ser apenas palavras bonitas. Precisam fazer parte da educação dentro de casa, da escola e da convivência em sociedade.
O reconhecimento da dignidade humana não pode depender do cargo que alguém ocupa, do salário que recebe, da roupa que veste, do bairro onde mora ou da visão política que defende. Política deveria existir justamente para promover o bem-estar da população, de toda a população, e não para dividir pessoas entre as que merecem respeito e as que podem ser desprezadas.

Infelizmente, o Brasil ainda convive com uma cultura que, muitas vezes, mede o valor das pessoas pelo dinheiro, pelo poder ou pelo status. Quem limpa, serve, constrói, dirige ou recolhe o lixo frequentemente é tratado como invisível. Em situações extremas, passa a ser visto como alguém que vale menos.

Essa talvez seja uma das maiores distorções morais do nosso tempo. O trabalho dignifica. Nunca diminui ninguém.

É verdade que existem milhões de brasileiros honestos, trabalhadores e solidários. São eles que sustentam este país todos os dias. O problema é que quase nunca ocupam as manchetes. O espaço costuma ser tomado por quem humilha, agride, ameaça ou usa a violência para se impor. Os bons acabam silenciados pelo barulho produzido por quem não tem escrúpulos.

Talvez a maior crise brasileira não seja apenas econômica, política ou institucional. Talvez seja, antes de tudo, uma crise de valores. Quando uma profissão passa a definir o valor de um ser humano, alguma coisa muito profunda já se rompeu. E quando a vida de alguém passa a valer menos por causa da função que exerce, perdemos de vista aquilo que deveria ser o fundamento de qualquer sociedade civilizada.

Continuarei preferindo escrever sobre esperança. Mas esperança não significa fechar os olhos para a realidade. Significa acreditar que ainda é possível reconstruir uma cultura de respeito, de humanidade e de reconhecimento de que toda profissão tem sua importância e de que toda vida, sem exceção, merece a mesma dignidade..



Fonte: Jornal Da Orla

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