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Serendipidade – Jornal da Orla


Pela segunda vez em pouco tempo sou defrontada com esta palavra que nunca tinha ouvido antes nestes meus 64 anos de vida bem vivida. Quando se chega nessa idade, tendemos a ser tomados por alguns medos. Um deles, o de desenvolver algum tipo de demência como Alzheimer. Aí, alguns nós somos levados a usar técnicas que teoricamente nos afastam dessa possibilidade assustadora.

Uma das técnicas que uso: procuro sempre aprender e usar novas palavras. Algumas das palavras desta semana: abstruso e serendipidade.

Abstruso significa algo de difícil compreensão para o cérebro humano. Talvez o acometido por Alzheimer enxergue as coisas comuns como abstrusas. Abstruso se assemelha a algo obscuro, que não está às claras. Eu, pessoalmente, prefiro tudo bem às claras, por favor senhor destino, me ajuda nessa aí? Nada de abstrusos no meu futuro.

Primeiro, a recebi em um texto da gloriosa autora do livro Um Defeito de Cor, Ana Maria Gonçalves, e depois a encontrei no livro O que Podemos Saber, do também renomado autor Ian McEwan. Pensei: será que a palavra está na moda? Quando a recebi através do texto de Ana Maria Gonçalves, imediatamente fui buscar no santo Google — que nos poupa daqueles dicionários pesados e enormes que usávamos quando estudantes — e descobri que serendipidade significa algo como encontrar algo bom e inesperado quando se está fazendo ou buscando outra coisa.

Refletindo sobre o quanto de serendipidade tenho em minha própria existência, e correndo o risco de simplificar em demasia, o significado de uma palavra tão difícil de se falar e de se escutar por aí, penso sobre o quanto somos agraciados assim na vida.

Saímos em busca de pão na padaria e voltamos com um doce. Deitamos em busca de descanso e levantamos com a memória de um sonho lindo. Levantamos para mais um dia comum e logo recebemos a notícia de um bebê que está chegando à família.

Quanta coisa boa e inesperada nos acontece sem sequer nos darmos conta do tanto de serendipidade que há nelas?

Acreditar que a serendipidade seja intrínseca ao próprio existir pode trazer leveza e riqueza à nossa vida. Afinal, raramente encontramos exatamente o que buscamos ou planejamos. Muitas vezes, somos surpreendidos por algo ainda melhor. Basta estar atento para dar-se conta dessa bênção cotidiana. Salve a nossa serendipidade até que os abstrusos nos dominem a mente, amém!



Fonte: Jornal Da Orla

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