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Santos perde mais uma chance de reparar sua história


A cidade de Santos volta a protagonizar mais um capítulo vergonhoso da sua história, 205 anos após o assassinato de Chaguinhas. Terça-feira, 26 de maio, durante a 30ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Santos, os vereadores rejeitaram o Projeto de Lei nº 115/2025, de autoria do vereador Chico Nogueira (PT), que propunha alterar a denominação da Rua Tiro Onze para Rua Chaguinhas.

Sob argumentos frágeis, a Câmara barrou uma homenagem histórica que já contava com pareceres favoráveis da Procuradoria da Casa, da Comissão de Obras e Serviços Públicos e da Comissão de Finanças e Orçamento.

Infelizmente, o racismo estrutural ainda impede que um homem negro ocupe o lugar de protagonismo que merece na memória oficial da cidade. Os mesmos argumentos utilizados para rejeitar o projeto foram ignorados em inúmeras outras ocasiões, principalmente quando as homenagens beneficiavam figuras ligadas à elite e à burguesia santista.

Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, foi um cabo negro do 1º Batalhão de Caçadores de Santos, assassinado em 1821 após liderar um movimento que reivindicava o pagamento dos salários atrasados e igualdade de tratamento entre soldados brasileiros —
em sua maioria negros e pobres — e soldados portugueses.

O motim teve início em 28 de junho de 1821, com a queima de embarcações portuguesas e a prisão de oficiais, estendendo-se até o início de julho. O movimento foi liderado pelo cabo Francisco José das Chagas e pelo soldado Joaquim José Cotindiba, contando também com a participação do sargento José Corrêa, do furriel Joaquim Roriz e dos soldados José Maria Ramos, José Joaquim Lontra e do cabo Floriano Peres.

Chaguinhas foi levado à forca em São Paulo, juntamente com seu companheiro Cotindiba, para serem executados na Praça da Liberdade. Cotindiba foi assassinado na primeira tentativa de enforcamento.

Quando chegou a vez de Chaguinhas, a corda arrebentou três vezes. Pela legislação da época, quando um prisioneiro não morria nas primeiras tentativas, era necessário encaminhar um ofício ao rei de Portugal — naquele período, Dom João VI — relatando o ocorrido e solicitando autorização para a continuidade da execução.

Porém, a burguesia escravocrata da época tinha interesse direto na morte de Chaguinhas, pois não aceitava que um cabo negro se tornasse protagonista da luta popular e da resistência que antecedeu a Independência do Brasil, ocorrida apenas um ano depois de sua execução.

É importante destacar que Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irmão de José Bonifácio e integrante da Junta Provisória de Governo de São Paulo, teve papel decisivo e inflexível na condenação e na execução de Chaguinhas. O algoz de Chaguinhas dá nome a uma rua em Santos, no bairro Encruzilhada, e é um dos patronos da Academia Santista de Letras.

Chaguinhas representa a luta dos oprimidos. Sua causa era sindical, por condições dignas de trabalho, igualdade e respeito aos soldados brasileiros — reivindicações que, infelizmente, continuam atuais até os dias de hoje.

Apagar ou negar essa memória é perpetuar séculos de silenciamento da população negra na construção da história santista. A luta por reparação histórica é longa, mas não desistiremos.



Fonte: Jornal Da Orla

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