A nova fase da Operação Compliance Zero colocou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, no centro das investigações sobre o Banco Master. A operação desencadeou também uma corrida no Palácio do Planalto para tentar conter os danos políticos do caso.
De acordo com os investigadores, as vantagens incluiriam um apartamento de aproximadamente R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves privadas, ingressos para shows nos Estados Unidos e repasses a empresas ligadas ao entorno familiar do parlamentar.
Pegos de surpresa pela operação, auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e integrantes da bancada petista passaram a discutir nos bastidores a conveniência de Jaques Wagner deixar a liderança do governo no Senado para se dedicar à própria defesa. Assessores do Planalto afirmaram à Gazeta do Povo que a prioridade é evitar que o escândalo contamine o governo e a campanha presidencial deste ano. Wagner, porém, afirmou que não irá se afastar da liderança nem desistir de sua pré-candidatura à reeleição ao Senado.
As suspeitas detalhadas pela PF envolvem não apenas benefícios patrimoniais e financeiros atribuídos ao entorno do senador, mas também a suposta atuação de Wagner em temas de interesse do Banco Master no Congresso. Entre eles estão mudanças nas regras do crédito consignado, discussões sobre os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e iniciativas relacionadas à tentativa de aquisição da instituição pelo Banco de Brasília (BRB).
As investigações alcançaram ainda pessoas próximas ao líder governista. Um dos alvos da operação foi Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado de Jaques Wagner e atual secretário de Meio Ambiente da Bahia no governo Jerônimo Rodrigues (PT). A Polícia Federal atribui a ele participação em cobranças de pagamentos por parte do empresário Augusto Ferreira Lima e aponta repasses milionários para empresas ligadas ao núcleo familiar do senador.
Augusto Lima, ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, é apontado como um dos principais operadores do ecossistema financeiro associado ao Banco Master. A aproximação entre Jaques Wagner e o empresário remonta ao processo de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), em 2017, quando surgiu o CredCesta, produto que mais tarde se tornaria uma das bases da expansão nacional do grupo financeiro hoje investigado.
Investigação aponta apartamento, jatinhos e repasses ligados a Jaques Wagner
Os indícios reunidos pela PF e acolhidos pelo ministro André Mendonça indicam que Jaques Wagner seria o “suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas” nessa fase da Operação Compliance Zero. Segundo os investigadores, os benefícios patrimoniais e financeiros atribuídos ao entorno do líder do governo Lula no Senado estariam relacionados à atuação do grupo ligado ao Banco Master.
Um dos principais eixos da apuração envolve a aquisição de um apartamento de alto padrão em Salvador. De acordo com a PF, Wagner encaminhou ao empresário Augusto Lima informações sobre a unidade e sobre o corretor responsável pela negociação.
O imóvel, avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões, acabou sendo adquirido por uma empresa, em uma operação que, segundo os investigadores, apresenta indícios de ocultação do verdadeiro beneficiário. A decisão de André Mendonça também reproduz diálogos que, na avaliação da PF, demonstrariam tentativas de conferir aparência de normalidade à transação.
Em uma das conversas interceptadas, integrantes do grupo teriam utilizado a expressão “a altura do vão é 2,45m” para se referir ao valor do imóvel. Outro conjunto de elementos apontados pela investigação envolve benefícios pessoais atribuídos ao senador do PT.
A PF afirma que Wagner e familiares utilizaram aeronaves ligadas a Augusto Lima e ao Banco Master em diferentes ocasiões. Os investigadores mencionam encontros na chamada “Ilha da Paixão”, propriedade associada ao empresário, além de mensagens em que o parlamentar solicita contatos de pilotos para deslocamentos particulares.
As investigações também fazem referência ao pagamento de ingressos para shows nos Estados Unidos. Segundo a PF, o grupo ligado a Augusto Lima desembolsou R$ 63,3 mil para a compra de entradas para apresentações de uma cantora internacional em Los Angeles. Mensagens obtidas pelos investigadores indicariam que o senador pediu a ampliação do número de convidados, solicitação que teria sido atendida pelo empresário.
Investigação identificou repasses para empresas ligadas ao entorno familiar do senador
No eixo financeiro, a Polícia Federal identificou repasses para empresas ligadas ao entorno familiar de Jaques Wagner. A investigação aponta que uma financeira associada a familiares do senador recebeu R$ 3,5 milhões de uma corporação vinculada ao ecossistema do Banco Master e à operação do CredCesta.
Planilhas apreendidas durante a investigação também registrariam pagamentos superiores a R$ 2,3 milhões destinados a uma pessoa identificada como “Dudu”, que os investigadores associam a Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado de Wagner e atual secretário de Meio Ambiente da Bahia no governo Jerônimo Rodrigues (PT). Em mensagens reproduzidas na decisão do STF, Eduardo aparece cobrando pagamentos de Augusto Lima e mencionando boletos e outras obrigações financeiras.
Para a Polícia Federal, os benefícios patrimoniais e financeiros não decorreriam apenas de uma relação de amizade entre os envolvidos. Os investigadores sustentam que as vantagens econômicas estariam inseridas em uma relação mais ampla de interesses entre o senador e o grupo ligado ao Banco Master, hipótese que embasa outro eixo da investigação: a atuação parlamentar de Jaques Wagner em temas considerados estratégicos para a instituição financeira.
A Gazeta do Povo procurou o gabinete do senador Jaques Wagner para solicitar um posicionamento sobre os fatos apontados pela PF, mas não obteve retorno. Em entrevista à BandNews, o parlamentar afirmou que o apartamento investigado pela PF fazia parte de uma negociação para ajudar sua filha na aquisição de um imóvel ainda em construção.
Segundo ele, por essa razão, pediu ao empresário Augusto Lima que realizasse a compra inicialmente, comprometendo-se a recomprá-lo posteriormente. O senador negou qualquer atuação em favor de interesses do Banco Master e disse que os valores em espécie apreendidos têm origem regular, provenientes de diárias de viagens realizadas no exercício do mandato.
Wagner também negou proximidade com Daniel Vorcaro, afirmando ter se encontrado com o banqueiro apenas duas vezes e sustentando que sua relação com ele é “praticamente zero”. Disse ainda ter recebido um telefonema do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em manifestação de solidariedade e confiança. Ele descartou deixar a liderança do governo no Senado ou desistir de sua pré-candidatura à reeleição.
Já a defesa do empresário Augusto Ferreira Lima afirmou que as diligências realizadas pela PF nesta quinta-feira eram “desnecessárias”, alegando que o investigado está “há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração”. Em nota, os advogados sustentaram ainda que as medidas contribuirão para demonstrar “que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos” e afirmaram que o empresário “sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.
A reportagem também buscou manifestação de Eduardo Mendonça Sodré Martins por meio da assessoria da Secretaria de Meio Ambiente da Bahia. Até a publicação desta reportagem, no entanto, a pasta comandada pelo enteado de Jaques Wagner não havia retornado o contato. O espaço segue aberto.
PF investiga atuação de Wagner em pautas de interesse do Master no Congresso
Para a PF, os benefícios patrimoniais e financeiros atribuídos ao entorno de Jaques Wagner não se restringiriam a uma relação de amizade com o empresário Augusto Ferreira Lima. Os investigadores sustentam que o senador também teria atuado em temas considerados estratégicos para a instituição financeira e para empresas associadas ao grupo.
Um dos eixos da apuração envolve propostas relacionadas ao mercado de crédito consignado, área em que o Master se consolidou por meio do CredCesta. Segundo a PF, Wagner e Augusto Lima mantiveram conversas sobre medidas destinadas a ampliar a margem consignável de trabalhadores, aposentados e pensionistas e permitir a concessão de empréstimos para beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de programas de transferência de renda do governo federal.
Outro ponto sob investigação é a PEC 65/2023, que trata da autonomia financeira do Banco Central. A proposta recebeu uma emenda que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor.
O texto da emenda foi protocolado pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) e, segundo a PF, teria sido elaborado pela assessoria do Banco Master. A mudança beneficiaria instituições que utilizavam a garantia do fundo para atrair recursos do mercado, entre elas o banco comandado por Daniel Vorcaro.
De acordo com a decisão do ministro André Mendonça, Augusto Lima encaminhou a Jaques Wagner o link da emenda no mesmo dia em que ela foi incluída na PEC, em agosto de 2024. Dias depois, após um encontro presencial entre os dois, o empresário voltou a compartilhar o texto com o senador.
Para os investigadores, as mensagens indicam que Wagner “não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado”. As investigações também se debruçam sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Segundo a PF, Augusto Lima mantinha o líder do governo Lula no Senado informado sobre os detalhes da operação e sobre iniciativas em tramitação no Congresso relacionadas ao negócio. A decisão do STF reproduz uma mensagem enviada pelo empresário ao senador em março deste ano: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”.
Ainda de acordo com os investigadores, as mensagens trocadas entre os dois tratariam de temas como o rating da instituição, alterações em sua estrutura acionária, o Will Bank, requerimentos apresentados no Senado e até propostas de criação de uma CPI sobre o caso. Para a PF, a constância desse fluxo de informações sugere uma relação funcionalmente direcionada, e não apenas uma amizade entre os envolvidos.
Operação contra Jaques Wagner abre nova frente de desgaste para Lula
A ofensiva da PF contra Jaques Wagner atingiu um dos aliados mais próximos do presidente Lula e abriu uma nova frente de desgaste para o governo. Agora, integrantes do Planalto tentam preservar a articulação política e evitar novos focos de crise às vésperas da disputa eleitoral.
Além de líder do governo no Senado, Wagner é considerado um dos principais conselheiros políticos do presidente e uma peça central nas negociações com o Congresso. A operação desta quinta-feira pegou integrantes do Executivo e da bancada petista de surpresa.
Interlocutores do governo ouvidos pela Gazeta do Povo afirmaram que a principal preocupação passou a ser impedir que o escândalo do Banco Master se transforme em mais um fator de desgaste para Lula. Nos bastidores, aliados do presidente passaram a defender que Wagner deixe a liderança do governo para se dedicar à própria defesa, reduzindo o embaraço institucional provocado pelo fato de um dos principais articuladores do Executivo estar no centro das investigações.
O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, defendeu as investigações. “Recebemos com tranquilidade [a operação]. A Polícia Federal tem autonomia para investigar, apurar tudo. Queremos que as apurações sejam feitas, doa a quem doer”, disse.
Mas integrantes do governo admitem reservadamente que um eventual afastamento poderia ter ocorrido antes, justamente para evitar que o Palácio do Planalto fosse arrastado para a crise. A avaliação predominante é de que caberá ao próprio presidente e ao senador definir os próximos passos, enquanto cresce a expectativa por explicações públicas sobre os valores apreendidos em endereços ligados ao parlamentar.
Apesar da apreensão nos bastidores, a direção nacional do PT saiu em defesa do líder governista. Em nota, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, afirmou que Jaques Wagner é “depositário de toda a nossa confiança”.
“Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade, os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados”, declarou. Segundo Edinho, o partido confia que o senador “esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência.
Como citado, Wagner descartou deixar a liderança do governo no Senado ou desistir de sua pré-candidatura à reeleição.
Agora, a estratégia do governo é tentar dissociar a imagem de Lula dos desdobramentos da investigação. Interlocutores do presidente afirmam que a orientação é tratar o caso como uma questão de responsabilidade individual, evitando manifestações públicas que possam vincular diretamente o Palácio do Planalto às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
Mendonça determinou sigilo estrito e ciência limitada sobre a operação
O ministro do STF André Mendonça determinou que a data e os detalhes da operação realizada nesta quinta fossem tratados com sigilo estrito e ciência limitada, o que teria sido interpretado por investigadores como cautela para impedir vazamentos políticos da operação.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que retornava de viagem oficial à Suíça onde acompanhava Lula no G7, só teria sido informado formalmente da ação quando os mandados estavam sendo cumpridos. O presidente teria sido avisado por volta das 8h, quando as buscas no hotel onde o senador costuma ficar em Brasília e propriedades dele na Bahia já haviam sido concluídas.
Integrantes do Planalto reconheciam, nos bastidores, que o caso Master poderia respingar com força no PT baiano por conta da privatização da Ebal, da origem do Credcesta e a ligação de Jaques Wagner com Augusto Lima.
O que ninguém esperava, segundo interlocutores do governo, era uma ação direta contra o senador que é líder do governo no Senado, um dos aliados mais próximos de Lula e peça central na articulação política do terceiro mandato e da pré-campanha à reeleição do petista.
A apreensão de milhares de dólares em espécie em um endereço do senador em Brasília, de valores em endereços na Bahia, somada às evidências reunidas pela PF sobre o suposto recebimento de imóvel de luxo, viagens em jatinho e ingressos de shows no exterior, tornou o cenário ainda mais difícil para o governo administrar.
Oposição diz que suspeitas já eram levantadas desde a CPMI do INSS
Integrantes da oposição viram a operação contra o líder do governo Lula como uma confirmação de suspeitas que vinham sendo levantadas desde os trabalhos da CPMI do INSS. Parlamentares que participaram da comissão afirmam que os documentos obtidos por meio da quebra de sigilos do banqueiro Daniel Vorcaro e de pessoas ligadas ao Banco Master já indicavam uma conexão entre o grupo financeiro e personagens do PT da Bahia, especialmente em torno da operação do CredCesta.
Um dos principais críticos do governo durante a comissão, o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) afirmou que a nova fase da Operação Compliance Zero reforça denúncias feitas pela oposição ao longo das investigações parlamentares. “O PT da Bahia está envolvido até o pescoço com o caso do Banco Master”, declarou.
Segundo o deputado, os elementos reunidos pela CPMI já apontavam para a importância da Bahia na expansão do modelo de negócios que impulsionou o crescimento do banco. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), também associou a operação à origem do CredCesta durante os governos petistas na Bahia. “A casa caiu no quintal do PT”, afirmou.
Já o líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), utilizou o episódio para questionar o discurso histórico do partido sobre corrupção. O senador Sergio Moro (PL-PR) defendeu o aprofundamento das investigações relacionadas ao Banco Master e às conexões políticas reveladas pela operação.
Em nota, o Partido Liberal afirmou que a nova fase da Operação Compliance Zero reforça as suspeitas sobre a relação entre integrantes do PT e o grupo financeiro investigado. “A cada nova fase da operação, novos nomes ligados ao PT voltam ao centro das investigações. O caso ‘PTMaster’ é a prova de que, mesmo mudando os personagens, a corrupção sempre carrega um nome do partido”, afirmou a legenda.
Para o cientista político Elias Tavares, a entrada de Jaques Wagner no centro das investigações dificulta a estratégia adotada pelo governo de tratar o caso Master como um problema restrito a personagens ligados à oposição.
Segundo ele, até então o PT buscava enfatizar as relações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e figuras do campo da direita. “Com Wagner entrando no centro da investigação, essa narrativa perde força”, afirma.
Na avaliação do analista, a percepção que tende a se consolidar é a de que o escândalo ultrapassa divisões ideológicas e atinge diferentes campos políticos. O impacto, segundo ele, é potencializado pelo peso de Jaques Wagner dentro do governo.
“Ele não é um quadro secundário do PT. É uma liderança histórica, muito próxima do presidente Lula, e peça central da articulação do governo no Senado”, diz.
Para Tavares, o caso tem potencial para provocar efeitos mais profundos na imagem do governo do que em sua capacidade de articulação no Congresso.
O cientista político Alexandre Bandeira avalia que a investigação representa uma “fratura” relevante para o Planalto justamente por atingir um dos principais aliados do presidente. Segundo ele, diferentemente de episódios marcados apenas por especulações políticas, o caso reúne elementos que a própria PF considera concretos.
“Jaques Wagner não é um parlamentar qualquer. Ele é o líder do governo no Senado e um dos principais articuladores políticos do presidente. Isso torna mais difícil separar a crise da imagem do governo”, afirma Bandeira. Para o analista, o episódio dificulta a estratégia do Palácio do Planalto de tratar o escândalo do Banco Master como um problema externo ao núcleo governista.
Já o cientista político Flávio Testa avalia que os reflexos institucionais da operação tendem a ser mais limitados. Segundo ele, o governo mantém amplo controle das pautas legislativas e conta com o apoio das presidências da Câmara e do Senado.
“O impacto no Congresso deve ser mínimo. A tendência é que o caso produza mais repercussão na narrativa política do que na governabilidade”, afirma.
Fonte: Revista Oeste


