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O verde de ver(da)de – Jornal da Orla


O dedo do menino, sujo de verde, da tinta da parede que acabara de ser pintada, foi levado à boca. Ele sentiu o gosto amargo da tinta e sabiamente notou: kiwi não tem esse gosto.

E kiwi é verde também, verde da cor da parede que seu pai pintou. Aprendeu que nem tudo que é verde tem gosto de kiwi.

Nem tudo que é verde é bom.

Anos depois, aprendeu a juntar letrinhas e formar palavras e junto com a leitura, aprendeu também a escrever.

E escreveu: o verde da grama, do mato, das folhas não é o mesmo verde das paredes, dos pisos, dos quadros.

Seu dedo era prova disso.

Quando começou a namorar queria uma menina verde, quem sabe de algum planeta distante? Mas nunca a encontrou. Todas tinham cores, sabores e belezas, mas nenhuma era verde.

Talvez se tornasse astronauta e então poderia viajar ao encontro do seu amor.

O menino do dedo verde cresceu em busca dos sabores das cores e dos amores que fossem verdes.

E encontrou muitos, mas nem todos tão bons quanto o verde que ele vira, ainda bebê, pela janela do seu quarto, no sítio do vovô, nas árvores que com ele conversavam.

O menino do dedo verde foi feliz e morreu velhinho segurando um raminho de arruda levado pelo seu primeiro netinho.

Em sua cadeira, na varanda do mesmo sítio onde estivera tantas vezes na infância, ele recebeu aquele raminho, daquele menino verdinho de tanta inocência e sentiu o aroma da arruda que cura. Cura e protege.

Sorriu com a alma e foi feliz mais uma vez. Um menino de asas verdes veio buscá-lo para que ele conhecesse o paraíso verde que o esperava.

E ao deixar seu corpo esquálido na cadeira verde, que ele mesmo pintara, conseguiu enxergar todo o verde que todos os dias de sua vida, ele intuía que o cercava e envolvia. O verde que embalou seus sonhos de astronauta, que o fez inteiro e feliz.

E, tornando-se um só com o menino verde que veio buscá-lo, brotou num chão.

Tinha vários braços longos, cheios de folhas que ofereciam sombra para quem abaixo deles se abrigasse.



Fonte: Jornal Da Orla

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