Especialista em geopolítica, o escritor, economista e palestrante Eduardo Giannetti acredita que o planeta enfrenta o fim da hiperglobalização, um processo de trocas entre os países que não se sustenta mais, por conta de fragilidades reveladas com a crise econômica em 2008, a pandemia e as recentes guerras. Porém, ele acredita que o Brasil pode se beneficiar com este cenário, ampliando suas parcerias com Estados Unidos, China e União Europeia. Ele esteve em Santos para palestrar no Seminário Internacional do Café e conversou com o Jornal da Orla:
Por que o senhor fala em hiperglobalização em vez de globalização?
Para diferenciar da primeira onda de globalização, que foi de meados do século XIX a início do século XX. Essa foi uma onda de globalização que começou na década de 1980, foi muito mais longe do que aquela onda. Por isso, hiperglobalização.
E por que está acabando?
Está acabando pelos seus excessos. Houve uma financiarização excessiva. A Covid mostrou as enormes fragilidades da interdependência. E o governo Trump, com toda a sua capacidade de bagunçar o coreto, mudou a configuração e o regramento da economia mundial.
O Brasil pode tirar vantagem dessa disputa entre Estados Unidos e China?
Não é só Estados Unidos e China, a União Europeia também. Nós temos que negociar paralelamente, tirando de cada um desses grupos, dessas três potências, o que mais pode nos favorecer.
E como isso interfere na vida do brasileiro comum?
O brasileiro comum quer melhorar de vida. Se a economia crescer, e tem tudo para voltar a crescer forte, vai ter mais emprego, oportunidades, renda para investir em educação, saneamento, transporte público. Essas coisas são todas interligadas. A vida pode melhorar se o Brasil recuperar o dinamismo.
O senhor diria que a supremacia americana acabou ou está com os dias contados?
É uma potência em declínio. Pode até se recuperar, ninguém tem bola de cristal. Mas tudo indica que a potência emergente é a China.
O senhor diria que a dissonância cognitiva é um mal do século, e atinge em especial o Brasil?
Não é um mal do século, porque acompanha a humanidade desde que o homo sapiens apareceu. Mas as novas tecnologias dão a essa dissonância cognitiva uma dimensão que assusta.
E como enfrentá-la?
Com paciência, com pertinência e com debate. Não com cerceamento e censura.
O senhor costuma dizer que o nem sempre aumento de PIB é uma coisa positiva. Por quê?
Porque o PIB pode aumentar e a vida piorar. Se a gente tiver que comprar garrafinha de oxigênio para respirar, o PIB vai aumentar. A vida melhorou? Não melhorou.
O senhor é otimista com relação ao futuro recente do Brasil. Por quê?
Porque o Brasil tem tudo o que o mundo precisa e nós também precisamos do mundo. Temos uma cultura fabulosa, que eu acho que temos que aprender a valorizar e a cultivar.
O senhor mencionou que a vira-latice brasileira não é uma coisa ruim. Por quê?
Eu acho ótima a condição vira-lata. É a condição das raças misturadas, a improvisação, o vigor dos afetos. O verdadeiro complexo do vira-lata é achar que há algo errado em ser vira-lata. Não há. Se for para escolher entre o poodle da madame e o doberman da polícia eu fico com vira-lata. Não há nada de ruim e feio. É belo. É vitalizado. É a nossa condição.
O Brasil tem polarização muito acentuada. Como se sai desta armadilha?
Amadurecendo e vendo que a polarização não leva a nada. A única coisa que ela garante é que a gente afunde em todos os níveis.
Fonte: Jornal Da Orla


