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Lula muda tom sobre facções após decisão dos EUA e mira Flávio


O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou em andamento um plano de comunicação para tentar distorcer os aspectos positivos e o potencial dos Estados Unidos para colaborar com o combate ao Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A estratégia inclui uma mudança de discurso – Lula agora diz que as facções brasileiras são terroristas – e também retratar Flávio Bolsonaro como traidor da pátria.

O Departamento de Estado dos EUA declarou na noite de quinta-feira (28) que passará a classificar o CV e o PCC como organizações terroristas. Isso tem como consequências práticas, segundo o órgão, que empresas e instituições que ofereçam apoio ou façam negócios com o PCC e o CV sofrerão sanções. Além disso, membros de facções terão bens bloqueados nos EUA e vistos cancelados.

O Palácio do Planalto levou quase 18 horas em discussões internas para definir a reação oficial ao anúncio de Washington. Nos bastidores, aliados de Lula avaliavam que uma reação centrada apenas em críticas aos Estados Unidos poderia transmitir a imagem de complacência com o crime organizado, justamente em um momento em que o presidente brasileiro pré-candidato à reeleição tenta fortalecer sua agenda de segurança pública.

“Esse tal de Comando Vermelho, esse tal de PCC, eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país”, afirmou Lula durante evento em Sergipe. Isso foi uma mudança de discurso, pois anteriormente o governo afirmava que as facções não podiam ser classificadas como terroristas porque visavam o lucro e não objetivos ideológicos.

Lula também retratou a decisão dos EUA como uma ação contra a soberania do Brasil, em uma interpretação do comunicado americano destinada a posicioná-lo como suposto defensor dos interesses brasileiros frente a um inimigo externo.

Seus aliados participaram da campanha de distorção. O vice-presidente Geraldo Alckimin levantou temores de que empresas de bem serão sancionadas e a economia prejudicada. Fernando Haddad, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, disse que a medida vai acabar com troca de informações que acontece entre as polícias dos dois países e, como consequência, o combate ao crime será enfraquecido.

Uma nota da Secretaria de Comunicação disse que o sistema de pagamentos PIX seria alvo de retaliação americana. Parlamentares, aliados e influenciadores inflaram o discurso, dizendo que Washington passaria a comandar a segurança no Brasil e favelas seriam bombardeadas e inocentes seriam mortos.

A reportagem apurou que plano governista é levantar esse tipo de especulações negativas, que em nenhum momento foram anunciadas pelos americanos.

Como os EUA podem ajudar o Brasil a combater facções

Em sentido oposto ao discurso adotado pelo governo, a oposição e especialistas em segurança pública e Direito Internacional avaliam que a classificação das facções como organizações terroristas pode ampliar os instrumentos de cooperação internacional no combate ao crime organizado.

Segundo eles, experiências semelhantes conduzidas pelos Estados Unidos em outros países permitiram fortalecer investigações, ampliar o rastreamento financeiro de organizações criminosas e aumentar a pressão sobre estruturas ligadas ao narcotráfico.

Segundo o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, um dos principais efeitos positivos será que os EUA passarão a punir internacionalmente instituições financeiras, como fintechs e pequenos bancos de investimento, envolvidas com o crime organizado e a lavagem de dinheiro das facções.

Ele apontou ainda que os EUA podem ajudar a identificar e prender criminosos do CV e do PCC que atuam em países vizinhos negociando a compra de cocaína de cartéis responsáveis pela sua produção. Entre eles estão Paraguai, Colômbia, Bolivia e Peru.

O PCC e o CV controlam rotas de tráfico de cocaína que partem de países produtores andinos e passam pelo Brasil antes de seguir de navio para a Europa e a África.

Outros 17 cartéis que operam na produção e tráfico de cocaína e fentanil na América Latina foram classificados como terroristas pelo governo de Donald Trump.

Mas a atuação americana para conter o narcotráfico na região não é um fenômeno novo. Analistas ouvidos pela reportagem apontam que experiências anteriores de cooperação dos EUA com países latino-americanos podem servir de exemplo de como o Brasil pode ser beneficiado se a cooperação para combate às facções evoluir.

O Plano Colômbia, que vigorou de 2000 a 2015, é uma das ações mais conhecidas. O programa reuniu apoio militar, inteligência, tecnologia, monitoramento aéreo, combate financeiro e treinamento das forças de segurança colombianas contra narcotraficantes e grupos armados ligados ao tráfico.

“O plano contou com bilhões de dólares em cooperação americana e ajudou a reduzir a capacidade operacional de cartéis e organizações armadas em áreas antes dominadas pelo crime, o mesmo pode ocorrer com o Brasil em todos os pontos dominados pelo narcotráfico”, destaca o sociólogo, especialista em segurança pública Marcelo Almeida.

O especialista reforça que essa possibilidade deveria ser vista com bons olhos pelo governo e autoridades. “Eles [os EUA] possuem tecnologias que nós não temos, como satélites, drones de longo alcance, sistemas de interceptação financeira e poderíamos ainda contar com apoio de agências como CIA [agência de inteligência] e DEA [agência de combate às drogas] para fortalecer a capacidade investigativa brasileira sem substituir muito menos interferir nas instituições nacionais”, reforça.

Outro caso citado por especialistas como exemplo vem do México, especialmente após fevereiro de 2025, quando cartéis mexicanos passaram a ser oficialmente classificados pelos EUA como organizações terroristas estrangeiras. A partir disso, autoridades americanas ampliaram processos judiciais de “apoio material ao terrorismo”, passaram a bloquear empresas, rastrear operadores financeiros, investigar bancos suspeitos de lavagem de dinheiro e aplicar sanções internacionais contra redes ligadas ao narcotráfico.

Em alguns casos, instituições financeiras mexicanas chegaram a ser praticamente isoladas do sistema financeiro internacional em dólar. Na América Central, iniciativas apoiadas pelos EUA desde 2010 passaram a focar também na prevenção ao recrutamento de jovens por gangues criminosas caracterizadas como terroristas.

Países como El Salvador, Honduras, Guatemala, Costa Rica e Panamá receberam programas como o Great (Educação e Treinamento de Resistência às Gangues, na tradução literal), desenvolvido para atuar em escolas e comunidades vulneráveis, reduzindo violência juvenil e dificultando o ingresso de adolescentes em organizações criminosas.

No caso brasileiro, a classificação de PCC e CV como organizações terroristas pode ampliar a cooperação internacional em áreas nas quais o Brasil enfrenta dificuldades históricas de fiscalização e controle.

“Há a possibilidade de monitoramento de rotas internacionais do narcotráfico com uso de drones e satélites que o Brasil não tem, rastreamento de lavagem de dinheiro, combate ao garimpo ilegal, exploração clandestina de madeira e atuação de facções em regiões de fronteira e áreas remotas da Amazônia”, destaca o especialista em Segurança Pública, Sérgio Leonardo Gomes.

Ele explica que isso não significa qualquer tipo de ocupação americana ou controle da segurança pública brasileira. Mas sim apoio técnico, compartilhamento de inteligência e ampliação do cerco financeiro internacional contra organizações transnacionais. “Deu certo com outros países e pode dar certo conosco também, basta querer”, destaca.

O advogado e especialista em segurança pública Alex Erno Breunig, membro da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, avalia que esse tipo de apoio pode auxiliar o Brasil.

“Os EUA possuem liberdade para qualificar organizações criminosas como terroristas conforme sua própria legislação, especialmente quando entendem que há reflexos internacionais ou ameaças à segurança nacional americana”, disse.

Narrativa de “ameaça à soberania” é falsa

Especialistas consideram improvável qualquer cenário de ocupação militar, controle da Amazônia, ou de áreas dominadas pelo crime ou até intervenção direta dos Estados Unidos em operações policiais brasileiras.

O analista de segurança Sérgio Leonardo Gomes afirma que a decisão sobre PCC e CV não representa “intervenção” no Brasil, mas aumento da pressão internacional sobre redes ligadas ao crime organizado. “Empresas, bancos, sobretudo as fintechs, pessoas infiltradas no serviço público, no governo e até no sistema de Justiça passariam a sofrer o alcance de investigações e sanções internacionais”, destaca.

“Na prática, os EUA conseguem rastrear movimentações suspeitas em dólar, identificar empresas de fachada, bloquear contas, impedir transações internacionais e aplicar sanções financeiras que dificultam a circulação do dinheiro do crime organizado no sistema global”, esclarece o economista Rui São Pedro.

Isso acontece porque boa parte das operações financeiras internacionais passa pelo sistema bancário americano ou utiliza o dólar, o que amplia o alcance das investigações e permite atingir recursos que muitas vezes escapam do controle das autoridades brasileiras.

Ação militar para a captura de autoridades é improvável

Alex Erno Breunig lembra que integrantes de facções brasileiras podem a partir de agora, em determinadas circunstâncias, responder à Justiça americana por terrorismo, desde que existam crimes com reflexos diretos nos Estados Unidos ou ligados à segurança nacional daquele país.

“Casos envolvendo tráfico internacional, lavagem de dinheiro, terrorismo ou financiamento de organizações criminosas podem gerar competência da Justiça dos EUA”, afirma.

Mas o especialista ressalta que brasileiros natos não podem ser extraditados pelo Brasil. “A Constituição Federal impede a extradição de cidadãos brasileiros natos. Portanto, líderes do PCC ou do Comando Vermelho não seriam transferidos do Brasil para cumprir pena nos Estados Unidos”, explica.

Sobre a possibilidade de autoridades brasileiras serem alvo de ações americanas, caso haja indicativos de ligação com grupos criminosos, Breunig considera improvável qualquer operação em território nacional. Segundo ele, eventuais medidas ocorreriam por meio de sanções econômicas, restrições diplomáticas, bloqueios financeiros e ações em território estrangeiro.

Sérgio Leonardo Gomes também considera improvável qualquer captura em solo brasileiro, a exemplo do que aconteceu na Venezuela com a captura do ditador Nicolás Maduro por forças americanas. “Uma ação desse tipo exigiria escalada gravíssima, muitas provas e respaldo político muito amplo”, diz.

A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Amanda Roberson, afirmou em entrevista do SBT News nesta sexta-feira (29) que a Venezuela é um “caso específico”, dando a entender que ação militar semelhante não ser aplicaria ao Brasil.

Governo tenta associar Flávio à interferência externa

A reação do governo brasileiro à decisão americana foi definida após uma reunião realizada no Palácio do Planalto que reuniu representantes da Fazenda, do Ministério da Justiça, da Polícia Federal, do Itamaraty e da Assessoria Especial da Presidência.

A reportagem apurou com fontes governistas que a preocupação era evitar que o Palácio do Planalto transmitisse a imagem de complacência com o crime organizado, ao mesmo tempo em que buscava impedir que a medida fortalecesse politicamente o senador Flávio Bolsonaro.

A estratégia adotada foi deslocar o centro do debate da classificação das facções para a defesa da soberania nacional. A inclusão da expressão “família Bolsonaro” em uma nota divulgada pelo governo foi deliberada e faz parte da tentativa de associar a articulação de Flávio junto ao governo Donald Trump a uma suposta interferência externa em assuntos internos do Brasil.

No comunicado oficial, o Planalto afirmou ser “deplorável” que integrantes da família Bolsonaro tenham viajado aos Estados Unidos para defender uma intervenção estrangeira no país.

A expectativa dentro do Planalto é de que o tema possa ser explorado politicamente da mesma forma que ocorreu durante a crise provocada pelo tarifaço imposto por Donald Trump aos produtos brasileiros. A aposta do governo é que o discurso de defesa da soberania nacional ajude a desgastar Flávio Bolsonaro junto a parte do eleitorado.

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Fonte: Revista Oeste

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