O fracasso da Seleção Brasileira na Copa que acabou ontem deixou de ser surpresa. É o resultado de décadas de decisões equivocadas de dirigentes que transformaram o futebol nacional em uma linha de produção para abastecer o mercado europeu. O Brasil, que antes exportava craques, hoje exporta promessas. E, pior, muitas delas jamais se tornam protagonistas.
Basta olhar os grandes clubes da Europa. Quantos brasileiros são, hoje, o principal jogador de suas equipes? Quantos disputam o posto de melhor do mundo? Pouquíssimos. A maioria compõe elencos milionários como bons coadjuvantes, enquanto o protagonismo pertence a atletas de outros países. No próprio Brasil, a situação não é diferente. Os melhores jovens são vendidos antes de amadurecer, de conquistar títulos e de criar identidade com seus clubes. O torcedor conhece o talento, mas não chega a vê-lo florescer.
Nesse cenário, a chamada Lei Pelé precisa ser debatida sem preconceitos. Embora tenha modernizado aspectos importantes das relações entre clubes e atletas, também consolidou um modelo que incentiva a exportação precoce de jogadores. Formamos atletas e entregamos à Europa justamente quando começam a atingir a maturidade técnica. Ficamos com a conta; eles ficam com o espetáculo.
Há ainda uma mudança silenciosa na formação dos futuros jogadores. O menino que passava horas jogando bola na rua foi substituído pelo garoto que passa horas diante do videogame, do celular ou das redes sociais. Os campinhos desapareceram, as ruas deixaram de ser espaços de convivência e o futebol espontâneo perdeu lugar para o entretenimento digital. Nenhum simulador ensina criatividade, improviso ou personalidade.
O problema, porém, vai além da tecnologia. Falta uma política séria para o esporte de base, para o futebol nas escolas e para a ocupação dos espaços públicos pelas crianças. Sobra marketing, calendário desumano e dirigentes preocupados em fechar negócios, não em formar craques.
A Seleção Brasileira é apenas o reflexo desse modelo fracassado. Não faltam talentos ao país. Falta um ambiente que permita transformá-los em protagonistas. Enquanto comemorarmos vendas milionárias em vez da formação de ídolos, continuaremos vendo o futebol brasileiro produzir coadjuvantes para o mundo, quando sempre foi especialista em criar os personagens principais.
Fonte: Jornal Da Orla


