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“A menopausa começa no cérebro”


A menopausa não é apenas o fim da menstruação — é uma fase de transição complexa, que começa antes dos 50 e pode impactar todo o organismo. Informação, acompanhamento médico e mudanças no estilo de vida são fundamentais para atravessar esse período com saúde. Em entrevista ao Jornal da Orla, o ginecologista José Bento de Souza explica o que muda no corpo da mulher, quando procurar ajuda e por que a reposição hormonal ainda enfrenta preconceito.

O que é a menopausa e a partir de que idade ela acontece?
A menopausa é o conceito de última menstruação. Para ter certeza de que ela aconteceu, é preciso aguardar um ano sem menstruar. Depois desse período, considera-se que aquela foi a última menstruação. No entorno desse momento existe o climatério, que engloba cerca de 5 a 10 anos antes e até 5 a 10 anos depois da menopausa. Já o período imediatamente anterior é chamado de perimenopausa. No Brasil, a menopausa costuma ocorrer por volta dos 48, 49 anos, mas os sintomas podem aparecer antes e se estender por até 10 ou 15 anos.

Quais são as principais mudanças no corpo da mulher?
O mais importante não são apenas os sintomas, mas a perda de uma proteção fundamental proporcionada pelos hormônios femininos, especialmente o estradiol. Essa proteção atua contra doenças como Alzheimer, problemas cardiovasculares, perda óssea e muscular, além de ajudar na manutenção do peso. Quando a mulher entra na menopausa, ela perde essa proteção, o que impacta diretamente sua saúde global.

Quais são os primeiros sinais da menopausa?
Os primeiros sintomas surgem ainda com a mulher menstruando. Entre eles estão insônia, dificuldade para dormir, névoa mental, lapsos de memória, ansiedade e irritabilidade — muitas relatam não se reconhecer mais. Por isso se diz que a menopausa começa no cérebro. Depois surgem outros sintomas, como alterações hormonais, ressecamento vaginal, queda da libido, desânimo e falta de energia. Ao todo, existem mais de 100 possíveis sintomas, incluindo sinais menos óbvios, como ressecamento nos olhos e na boca, queda de cabelo e até coceiras.

Toda mulher deve procurar acompanhamento médico? Quando começar?
Sim. O ideal é procurar acompanhamento já nos primeiros sintomas, o que pode acontecer por volta dos 40 anos — ou até antes. Há casos de mulheres com 38 ou 39 anos já apresentando sinais de queda hormonal. O acompanhamento é importante para identificar quais hormônios estão diminuindo e iniciar o tratamento adequado.

Quando a reposição hormonal é indicada? Há contraindicações?
A reposição hormonal é indicada a partir dos primeiros sintomas, como irritabilidade, insônia e ansiedade. As contraindicações são poucas e específicas: câncer de mama ativo, doença hepática grave, trombose ou embolia em tratamento e sangramento vaginal sem diagnóstico. Fora esses casos, a reposição pode ser considerada — inclusive para mulheres com histórico familiar de câncer de mama ou que já tiveram a doença e estão curadas há mais de cinco anos.

A reposição vai além do alívio dos sintomas?
Sim. Ela tem impacto direto na longevidade. As principais causas de morte — doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e Alzheimer —
têm seus riscos reduzidos com a reposição hormonal. Além disso, melhora significativamente a qualidade de vida: a mulher volta a dormir melhor, recupera a libido, melhora o humor, a energia e o bem-estar geral.

Reposição hormonal é para sempre?
Sim. O ovário deixa de funcionar definitivamente, pois a mulher nasce com uma quantidade limitada de óvulos, que se esgotam ao longo da vida. Como não há retomada da produção hormonal natural, a reposição funciona como uma suplementação contínua.

E a suplementação é necessária?
De modo geral, sim. A suplementação contribui tanto para a qualidade de vida quanto para a longevidade. Sem ela, a tendência é viver menos e com mais limitações ao longo do tempo.

Por que muitas mulheres ganham peso nessa fase?
Com a queda hormonal, especialmente do estrogênio, ocorre uma mudança no metabolismo e na distribuição de gordura. O corpo deixa de ter o padrão ginoide (formato de “pera”) e passa a acumular mais gordura abdominal (formato de “maçã”). Além disso, há redução da massa muscular e da taxa metabólica basal, o que facilita o ganho de peso.

Como minimizar esses impactos no corpo?
A partir dos 40 anos, é fundamental mudar o estilo de vida. Isso inclui alimentação adequada, com foco em proteínas e fibras, hidratação constante, prática regular de atividade física — especialmente musculação — e sono de qualidade. Essas medidas não evitam a menopausa, mas reduzem significativamente seus efeitos.

A musculação é realmente tão importante assim?
Sim, é essencial. O músculo atua como um órgão metabólico e produz substâncias que beneficiam o cérebro, como a irisina, que estimula a produção de BDNF, um fator que melhora a função cerebral. Além disso, a musculação ajuda a manter a taxa metabólica, controlar o peso, melhorar a distribuição de gordura e reduzir a resistência à insulina.

A menopausa aumenta o risco de doenças?
Sim. Com a perda da proteção hormonal, aumentam os riscos de doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e Alzheimer. Esses problemas tendem a aparecer com mais frequência a partir dos 50 anos, justamente quando os níveis hormonais caem.

Existe um checklist de cuidados para essa fase?
É importante fazer avaliação da composição corporal (como a bioimpedância), acompanhamento com nutricionista ou nutróloga, cuidar da qualidade do sono, manter atividade física regular e procurar um ginecologista ao menor sinal de mudança no corpo ou no comportamento.

Quais alimentos e suplementos são essenciais?
A proteína é fundamental — cerca de 100 gramas por dia. Também é importante consumir fibras, manter a hidratação e considerar suplementos como ômega 3, magnésio, vitamina D e creatina, que também contribui para a função cognitiva. A orientação deve sempre ser individualizada, com acompanhamento médico.

Existe algum sinal de alerta que a mulher não deve ignorar?
A sensação de “não estar igual”, de estar diferente sem motivo aparente. Esse é um dos principais sinais de que algo mudou no organismo e de que é hora de procurar ajuda médica.



Fonte: Jornal Da Orla

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