A tradição futebolística costuma atravessar gerações como uma herança silenciosa de pai para filho. Na minha infância, porém, essa tradição tomou outro rumo. Meu pai, motorista profissional de volante firme e torcedor “enjoadamente” apaixonado pelo Corinthians, tentou naturalmente me conduzir ao time da capital. Mas, por volta dos meus oito anos, meu coração resolveu escolher outro caminho.
O futebol sempre esteve presente na rotina. Na rua da infância, a molecada se reunia para as intermináveis peladas de fim de tarde. Tinha o Cabeça, o Coringa, o Pirulito, o Gordo, o Perninha, o Galo Cego e até os intrusos das ruas vizinhas. O asfalto quente castigava os pés, surgiam bolhas, tombos e dedões ralados encobertos de sangue. Mas bastavam água oxigenada, mentholatum e alguns minutos para o “perna de pau” voltar correndo atrás da bola.
Foi numa manhã qualquer que acordei decidido. Disse ao meu pai: “vou torcer para o time do Rei do Futebol”.
Ele me olhou em silêncio. Consentiu com a cabeça, embora não escondesse certa decepção. Tentou me convencer a seguir o Corinthians, mas naquele dia eu já havia escolhido: seria santista.
Nasceu então o desejo mais importante de um menino apaixonado por futebol: ganhar a camisa do time. Depois de muita insistência, convenci meu pai a me levar até a lojinha ao lado da Vila Belmiro. Seria meu primeiro contato com o estádio e com o bairro do clube mais famoso do planeta.
Saímos cedo num sábado ensolarado. Na noite anterior, o sono havia me abandonado. Nem fome senti no café da manhã. Antes mesmo de meu pai se arrumar, eu já estava pronto, usando aquelas roupas “de sair” que minha mãe reservava para ocasiões especiais.
De mãos dadas, seguimos pelo Canal 3, desviando dos “João-bolão” espalhados pela calçada. Passamos pela mercearia do senhor Vicente, e ali mesmo anunciei, orgulhoso, que iria comprar minha camisa do Santos.
O caminho parecia interminável. “Pai, falta muito?”. Repeti essa pergunta dezenas de vezes, até perceber a paciência do meu pai diminuindo a cada resposta. Ainda assim, seguimos juntos, em passos largos.
Quando entramos na loja, meus olhos brilharam. O escudo alvinegro, as camisas penduradas e aquele universo santista fizeram meu sorriso crescer no rosto. Toda ansiedade desapareceu. Restou apenas a felicidade pura de um garoto encontrando seu lugar no mundo.
Na volta para casa, a camisa já vinha no corpo. Assim que cheguei à rua, fui direto para a pelada. A molecada logo percebeu a novidade.
Naquele dia, até parecia que eu jogava melhor. Em uma jogada qualquer, a bola sobrou para mim dentro da “área”. Chutei forte e marquei o gol.
Já se passaram trinta e cinco anos. E ainda consigo enxergar aquele menino correndo pelo asfalto quente, acreditando que a felicidade cabia inteira dentro de uma camisa de futebol.
Fonte: Jornal Da Orla


