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Condomínios reúnem velhos (e novos) problemas; conheça histórias


“De perto ninguém é normal”, cantou Caetano Veloso (´Vaca Profana`, 1984). Décadas antes, o filósofo francês Jean Paul Sartre alertava: “O inferno são os outros” (´Entre quatro paredes`, 1944). Porém, talvez não haja poesia ou filosofia para definir a convivência em prédios, seja uma edificação antiga, de três andares, ou nesses arranha-céus de alto padrão. Tudo pode soar desafinado e sair do tom harmonioso. E até mesmo a música pode infernizar.

“Pessoas seguem sem saber morar em comunidade. O individualismo continua firme e forte, precisa de um trabalho forte do síndico para cultivar a cultura de coletividade”, afirma a jornalista Catarina Anderáos, editora-chefe do portal SíndicoNet.

Catarina atua há 17 anos nesse segmento, é síndica moradora e idealizadora do canal ´Vou Chamar a Síndica`, no YouTube, reunindo causos de condomínios: “Costumava-se falar sobre os cinco C’s dos problemas: cachorro, carro (vaga na garagem), cano (vazamento), calote (inadimplência) e criança. Os relatos sobre barulho são os que têm mais audiência (25 mil visualizações, por exemplo). Barulho de diversas fontes: dos latidos, das crianças, de obras, de música alta, de bate-boca em família. Agora, há os assuntos: carro elétrico, aumento expressivo no volume de entregas e a confusão na gestão de encomendas, aumento no número de pets, adoção de novas tecnologias (portaria remota, lockers). É um processo de convencimento e período de adaptação”, relata.

“Tem B.O. o dia inteiro”, diz Alfeu da Costa Pereira, corretor de imóveis e síndico profissional, em sete prédios – desde um de três andares, em Praia Grande, a edifícios de alto padrão em Santos, locais onde o valor do condomínio varia de R$ 450,00 a R$ 6 mil mensais. “Não importa o padrão, sempre há confusão. Já houve caso em que um idoso provocava tanto o morador do apartamento do andar de baixo que acabou tomando um soco. Tive que acompanhar todo o processo, inclusive na delegacia”, conta.

Para cada prédio, Alfeu mantém dois grupos de WhatsApp (condôminos em geral e conselheiros). Enquanto conversava com a reportagem, ele recebeu foto enviada por condômino, revelando que o morador do apartamento ´X` não havia tirado os calçados do lado externo da porta. De outro prédio, lhe enviaram vídeo para “provar” que o funcionário não estava limpando corretamente. “Eu tenho que explicar às pessoas que elas não podem sair fotografando ou filmando as outras, porque podem ser processadas. Mas para qualquer coisa, enviam mensagens. Deixo bem claro que a resposta não é na hora e, às vezes, nem no mesmo dia. Se é urgente, é para ligar”, diz.

Alfeu chegou a ser síndico em 15 edifícios. Contava, inclusive, com colaboradores, mas decidiu reduzir o trabalho e seguir sozinho, justamente após o telefonema de condômino. “Estava em Las Vegas (EUA), em férias com minha esposa. O morador telefonou para reclamar da pessoa que eu havia deixado para me substituir. Eu me vi discutindo ao telefone no meio da rua em Las Vegas. Decidi ficar com sete prédios e atender sozinho”.

PORTARIA REMOTA

Para José Maria Félix, presidente do Sindicato dos Empregados em Edifícios e Condomínios de Santos e Cubatão, o porteiro virtual (portaria remota) é o maior problema que a categoria enfrenta, porque causa desemprego. “Onde há quatro funcionários, demitem dois ou três e a pessoa que fica está sobrecarregada. Isso, para ter uma economia de 10 a 15%”, diz. A categoria – diz ele – conta com cerca de 6,5 mil pessoas, mas chegou a ter 11 mil.

Na defesa dos funcionários, José Félix ressalta a importância do contato direto com os condôminos, a prestação de serviço, principalmente para pessoas idosas, e a confiança no serviço. “A pessoa fica refém do porteiro virtual, até para receber uma entrega de comida ou mercadorias, compradas pela internet”.

Zelador há 25 anos, Aderaldo Lins, 48 anos, concorda que “a portaria virtual mexeu com a rotina”, com demissão e sobrecargas de trabalho. Houve demissão de funcionário. “É o profissional que vivencia o problema, dá apoio, aguenta os aborrecimentos e ajuda a solucionar as encrencas, inclusive quando a pessoa é idosa, ou está doente ou ocupada e não pode descer para receber uma entrega. Os condôminos não têm isso com o porteiro virtual”.

A portaria remota também incomoda entregadores. Josias Goes da Mota, 39 anos, por exemplo, trabalhou entre 2017 e 2025 com entregas por aplicativo. Ele narra situações nas quais a falta de um profissional na portaria atrapalhou o serviço. “Fui fazer a entrega e não tinha ninguém para receber. A moça da faxina foi quem pegou. E uma outra situação, não consegui entregar a refeição, porque já era noite e ninguém entrava nem saía do prédio. Não tinha como falar com ninguém. Voltei para o restaurante e devolvi”, conta.

Catarina Anderáos discorda das críticas e ressalta que é uma questão de planejamento. Ela diz que, antes de instalar no prédio onde mora e é síndica, realizou estudos para saber a viabilidade da portaria remota, considerando, inclusive, a definição de espaço com armário inteligente para entregas, além de muita conversa com os moradores, que precisam ser colaborativos.

“Tenho um funcionário durante todo o dia. À noite, temos porteiro, porque foi uma das condições impostas pelos condôminos, por questão de medo e insegurança. Então, a portaria virtual é uma excelente solução tecnológica, quando bem planejada de acordo com o perfil do condomínio. Tivemos uma redução na conta ordinária e, com isso, estamos investindo em benfeitorias. Por exemplo, na reforma elétrica total do centro de distribuição para viabilizar a instalação de ar-condicionado em todos os apartamentos”, afirma.

CARRO ELÉTRICO

O síndico profissional Alfeu da Costa Pereira afirma que o assunto ainda é novidade, mas começa a dar problema. “As pessoas compram o carro, mas o prédio não tem estrutura. Quando é garagem privativa, desde que siga as regras do prédio e as normas de segurança, o proprietário instala o carregar e paga pela instalação e toda adaptação. Quando é garagem coletiva, o prédio precisa aprovar a instalação e o local. É preciso definir a rotatividade para uso da vaga. Os condôminos têm que conversar, negociar”, afirma.

Alfeu cita um dos prédios que atende, em São Vicente, com mais de 100 apartamentos e apenas um carro elétrico. “Por sorte, há um local onde ninguém gosta de estacionar e que é próximo do relógio de energia do apartamento do proprietário do carro elétrico. Isso facilitou chegar a uma solução, mas após quase um mês de negociação entre os moradores. Porém, a vaga é coletiva. Outro dia, estacionaram uma moto no local. Teve que haver nova conversa”.

Catarina concorda que o assunto é muito novo. Mas é uma realidade e o condomínios precisam estar atentas a leis e normas, inclusive às do Corpo de Bombeiros. O síndico precisa estar a par e ver o que é possível e necessário fazer”.



Fonte: Jornal Da Orla

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