A nossa amizade, com o passar do tempo, transfigurou-se em um afeto quase filial, desses que se aninham discretamente no coração. Sua casa era, para mim, uma segunda morada. Muitas vezes eu surgia no meio da tarde e logo encontrava o café recém-passado e uma generosa fatia de bolo à espera sobre a mesa. Então nos entregávamos à conversa.
Falávamos do trabalho, da família e das últimas novidades. Quando dávamos por nós, as horas já haviam escoado mansamente. A despedida jamais era simples, mas os deveres da vida me chamavam. Dias depois, lá estava eu novamente. Tudo permanecia em ordem, como se a casa aguardasse, serena, mais uma visita. Quando filhos e netos chegavam, o ambiente ganhava novo rumor. O sorriso dela despontava antes mesmo do primeiro abraço.
Nunca ocultou o apreço pelo bairro do Boqueirão, em Santos, onde viveu boa parte de sua existência. Aprazia-lhe passear, conversar e revisitar lugares capazes de trazer a infância de volta. No Super Centro, havia um itinerário quase sagrado. A parada principal era na casa de massas. Antes mesmo de consultar o cardápio, já sabia o que pedir:
— Um pão goiano para viagem.
Depois passava pela loja da Espanhola para comprar alguma lembrança singela para os netos. E quase nunca resistia à pipoca doce vendida pelo caminho. Saía caminhando sem pressa, trazendo as sacolas junto ao corpo, com a expressão pacificada de quem cumprira, com doçura, o pequeno ritual do dia.
Nas festas juninas, rejubilava-se como menina. Sentávamos lado a lado na quermesse da Gota de Leite e fazíamos, invariavelmente, o mesmo pedido:
— Dois churrascos no pão.
Enquanto esperávamos, acompanhava o movimento das barracas, comentava sobre as famílias conhecidas e sorria ao ouvir a música espalhar-se pelo pátio. Também fazia questão de acompanhar as aulas de basquete do neto. Sentada na arquibancada, seguia a bola de um lado para o outro da quadra. Quando o menino acertava uma boa jogada, seus olhos se enchiam de legítimo orgulho.
Quando havia alguma celebração, os preparativos começavam cedo. Percorria os cômodos observando cada detalhe. Ajustava uma toalha, dispunha os pratos, conferia os talheres e tornava a verificar se tudo permanecia em seu devido lugar. As festas de fim de ano tinham endereço certo. A mesa se cobria de travessas, saladas, assados e sobremesas. Familiares e amigos se espalhavam entre risos e conversas que avançavam noite adentro. Ela contemplava aquela movimentação com um sorriso discreto, quase solene.
Também era comum vê-la interromper o que estivesse fazendo para acudir alguém. Um conselho, um favor, uma palavra amiga ou uma visita inesperada sempre encontravam lugar em sua rotina.
Um dia ela partiu.
Permaneceram as tardes de café, os passeios pelo Boqueirão, os churrascos no pão da quermesse e os dedos de prosa que pareciam não conhecer término. Há pessoas que partem, mas continuam a surgir nos lugares mais inesperados.
Outro dia, vi um pacote de pipoca doce numa vitrine. Detive-me diante dele por alguns instantes. Sorri sozinho. A memória havia chegado antes de mim.
Ah, Dona Clotilde… ainda há fumaça de churrasco e perfume de pipoca doce nas lembranças.
Fonte: Jornal Da Orla


