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Acerto na previsão do tempo passa por sinais das ondas e marés


Estamos acostumados a procurar informações sobre o clima: vai chover, ou faz sol; esfria, ou não… Não raro, reclamamos, pois o que foi previsto não aconteceu. Bem, previsão não é precisão. E, para nós, habitantes litorâneos, é preciso estar atentos não apenas ao tempo e temperatura. Saber sobre os movimentos das marés e das ondas torna-se cada vez mais importante diante dos impactos das mudanças climáticas, principalmente nas áreas urbanas com altos índices de adensamento.

“Como região costeira, precisamos criar a cultura de olhar para a previsão do oceano também. A gente olha muito para a previsão de chuva, para saber se eu vou lavar roupa, se levo guarda-chuva…mas temos de dar atenção aos eventos que ocorrem no mar”, afirma a engenheira Alexandra Sampaio, coordenadora do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH), vinculado à Universidade Santa Cecília (UniSanta).

Claro, também não há 100% de acerto, mas a confiabilidade é alta, garante ela: “Nosso percentual de assertividade está em 98% para maré e 90% para onda. Temos o índice de erro médio absoluto, o quanto nossos modelos costumam errar em média: é da ordem de 20 cm para ondas e de 6 cm para maré. Tem um grau de incerteza? Tem, mas é melhor você não arriscar e se proteger. É importante para que os agentes públicos tomem decisões para mitigar o impacto dos eventos naturais”.

COMPLEXIDADE

No NPH, diariamente, especialistas e pesquisadores de áreas como oceanografia, geociência, engenharia civil e computação analisam, fazem simulações e validações de dados que chegam, em tempo real, de 143 estações espalhadas pelo litoral, incluindo duas boias medidoras que pertencem à Praticagem do Porto, instaladas na baía de Santos, e sensores usados pelo sistema portuário. Avaliam, ainda, informações que vêm de radares meteorológicos, imagens de satélites e de fontes de previsão nacionais. São dados pluviométricos, fluviométricos, altura de ondas e marés, imagens de satélites, dentre outros – um oceano de números e gráficos coloridos pode ser apreciado no site do NPH (https://nph.unisanta.br/), Criado há 32 anos, o núcleo atualmente abriga também a Sala de Situação de Recursos Hídricos da região, vinculada ao Estado.

“Temos parceria com outros pesquisadores e passamos a processar modelos atmosféricos, para previsão de chuva, principalmente as mais volumosas. Ainda há incerteza em determinados eventos. Mas a gente vem refinando modelos regionais e locais. O núcleo faz previsões para todo o litoral de São Paulo, mas nesse nível de detalhamento, com resolução local mais refinada, é só para a Baixada Santista”, explica Alexandra Sampaio.

A coordenadora ressalta a confiabilidade das simulações e validações feitas pelo NPH. “Isso nos permitiu fornecer informação para os municípios de Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá e Praia Grande. A gente avisa sobre ressacas mais intensas com, no mínimo, três dias de antecedência. Como foi o caso daquela que ocorreu em Santos, no final de julho de 2025, que destruiu parte do calçadão da orla entre os canais 4 e 5, por exemplo. Enviamos um boletim com alerta no dia 25 e outro no dia 27, reforçando que a onda iria atuar numa cota mais elevada e o impacto seria maior porque combinava com maré mais elevada”, diz a coordenadora. A forte ressaca ocorreu entre os dias 29 e 30.

AÇÃO E PREVENÇÃO

Alexandra Sampaio destaca que a preocupação da equipe não é só prever, mas avisar e fornecer informações para os órgãos responsáveis “sobre o que pode acontecer, o que aconteceu e o que é necessário para a gente conseguir, cada vez mais, mitigar os impactos”. O núcleo mantém contato direto com a Defesa Civil nos municípios e emite alertas de eventos climáticos, indicando, inclusive, áreas que podem ser mais afetadas.

A coordenadora explica, no entanto, que, quando o boletim do NPH informa que a altura da onda pode atingir 2 ou 3 metros, não significa que é esse o tamanho da onda que vai quebrar na praia. “É uma previsão que a gente tem no local onde tem o sensor dentro da baía. A onda perde energia quando chega em uma área mais rasa, mas, se chegar com muita energia, tem o poder de remover sedimentos, destruir calçadas, porém, não vai quebrar na altura que se imagina”.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Para a responsável pelo NPH, nos acostumamos a pensar no tempo como algo bem definido: primavera, verão, outono e inverno. Porém, as mudanças no clima têm impactado muito nas nossas certezas. E chama a atenção para o avanço do mar em Santos. “Às vezes, há uma forte ressaca na Ponta da Praia, você passa pelo Canal 5, o mar está obviamente alto, mas não chega a ser tão forte. Porém, no Canal 4, ele está invadindo a pista. Isso tem a ver também com ocupação do solo, são coisas que se interligam”.

Alexandra Sampaio afirma que o que vem sendo constatado é a migração do processo erosivo, da Ponta da Praia para os canais 4 e 5. “Do Canal 3 até o 1, por exemplo, você já tem acúmulo maior de sedimentos. Tem até o jundu, aquela grama que cresce em meio à areia, que se desenvolveu, justamente por essa faixa de areia. A natureza também dá respostas”.

Em razão dessas mudanças, os próprios modelos de previsão precisam ser continuamente aprimorados. “O prognóstico não é muito favorável. E há outros riscos, como a onda de calor que estamos vendo na Europa e já sofremos aqui. Então, a gente reforça nossas ações de monitoramento e pede atenção a esses eventos”, conclui.



Fonte: Jornal Da Orla

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