

Desde que Braz Cubas chegou ao povoado do Enguaguaçu, onde fundou a Vila de Santos (1545/46), africanos e africanas estão em solo santista, sequestrados em suas terras, principalmente, para o trabalho forçado nos poucos engenhos de açúcar, entre outros afazeres. Havia aqui, por exemplo, o Engenho dos Erasmos, cujas ruínas, na Caneleira (Zona Noroeste), contam muitas histórias.
A Vila nasceu ali na região do Outeiro de Santa Catarina e cresceu em direção à região do Valongo – a proximidade com a subida para o planalto desenhou o espaço urbano. Entre Outeiro e Valongo, praias lamacentas (porto de trapiches) e morros, Santos se fez cidade (1839).
Na segunda metade do século XIX, mudanças econômicas, políticas e sociais são impulsionadas pela chegada da ferrovia Santos-Jundiaí (1867) e o aumento das exportações de café. Transformações urbanas, embates pelo fim da escravidão e pela conquista do mercado de trabalho aumentam as tensões sociais. Em todas as etapas da formação da cidade, negros e negras atuaram como agentes transformadores, com força, saberes e capacidade de reinvenção do viver. Santos abrigou dois quilombos, a partir de 1882: o do Pai Felipe, na Vila Mathias, e o Quilombo do Jabaquara, um dos maiores do país, liderado por Quintino de Lacerda.
AFROTURISMO
Contar a história da população negra em Santos é um objetivo de Augusta França, que desde 2022 promove roteiros de afroturismo. Aos 67 anos, ela é a criadora da Mochilando Afroculturas. “A gente mostra que existe por parte dessa população um pertencimento na historiografia da cidade que acaba sempre invisibilizado, negado. É importante contar os fatos e trazer o protagonismo da população”.
A Mochilando (@mochilandoafroculturas) desenvolve cinco roteiros, dos quais já participaram mais de duas mil pessoas. Em março, por exemplo, 46 turistas norte-americanos estiveram na “Caminhada o Negro e o Café”. Outra opção é a “Caminhada do Engenho”. A “Caminhada das Mulheres Negras” destaca pessoas como a parteira Maria Patrícia Fogaça, que trouxe à luz muitos santistas, inclusive da elite branca, na segunda metade do século XIX, e dá nome a uma escola municipal no Saboó e a uma rua no Santa Maria.
A “Caminhada dos Quilombos” percorre ruas da Vila Mathias e Jabaquara. Há, ainda, o roteiro “Caminhos de Luiz Gama”, sobre o advogado negro com grande atuação abolicionistas. Na justiça de Santos, em 1870-71, Gama defendeu a maior ação de emancipação das Américas, envolvendo mais de 200 escravizados e escravizadas do comerciante português Manoel Joaquim Ferreira Netto, o mesmo da Casa de Frontaria Azulejada, caso conhecido como ´Questão Netto`.


Odair em roteiro na área onde se instalou o Quilombo do Pai Felipe.


O historiador Odair José Pereira.
REPARAÇÃO
“Apesar de homenagear pessoas do passado, a denominação das ruas são uma referência ao presente”, afirma Odair José Pereira, 42 anos, pesquisador e professor de História. “Nomear é sempre um campo de disputa, porque a gente nomeia quem a gente quer lembrar ou continuar lembrando no presente. Relembrar o nome de pessoas negras que viveram na cidade, ou têm memória sobre a questão negra, é uma forma de fazer essas pessoas presentes”.
Odair também organiza roteiros pela cidade, esporadicamente. Ele conta que houve um esquadrinhamento de ruas na cidade, no início do século XX. “Foi naquele momento que deram o nome à rua Luiz Gama, no Macuco. Isso indica que ele era lembrado 30 anos depois da morte (em 1882)”.
O professor conta que no final de 1910, início de 1920, a municipalidade nomeiou várias vias que relembram pessoas vinculadas à luta abolicionista. Ele cita a Rua Euzébio de Queiroz, referência ao autor da lei que decreta o fim do tráfico negreiro transatlântico em 1850, e a Rua Liberdade, entre outras.
Em 2025, uma das conquistas da Mochilando foi a substituição do nome Travessa Comendador Netto (o escravocrata) pelo de Anísio José da Costa, no Centro. O angolano Anísio foi escravizado, fugiu para o Quilombo do Jabaquara, trabalhou no Porto de Santos. Aos 90 anos, formou família e teve sete filhos. Morreu aos 110 anos, em 1940. A filha dele, Helena Monteiro da Costa, faleceu em 2025, aos 100 anos. Morava na Rua da Liberdade.
Fonte: Jornal Da Orla


