Para nós, moradores de Santos, a questão das pessoas em situação de rua é muito presente. Não sei se por sermos a “terra da caridade”, pelos chuveiros e banheiros disponíveis na praia, ou por ambos, mas a verdade é que, seja na orla, no Centro ou em alguns bairros, esse problema está por toda parte.
Será efeito dos benefícios sociais? Hoje em dia não é tão comum ouvirmos, mas antigamente sempre dizíamos sobre o ser humano: é um animal racional. Ou seja antes de sermos racionais somos animais.
Aprendemos muito sobre nós mesmos olhando os animais. Quem tem um pet já viu nele o ciúmes, a raiva, a alegria, a tristeza. No mundo animal gasta-se energia para 3 situações: buscar alimentos, procriar e proteger a própria vida. Tirando isso o animal costuma ficar aproveitando a vida: dorme, se espreguiça, brinca com algo que acha curioso, observa o meio ambiente.
As autoridades até fazem campanhas para que não se dê esmolas ou dinheiro, mas penso que devemos ir além. A campanha deveria ser para que não se dê absolutamente nada: nem dinheiro e nem comida.
Fui voluntário em pelo menos duas iniciativas de distribuição de alimentos à população em situação de rua, e não estou aqui sendo contra o trabalho dessas entidades. Refiro-me à doação individual, feita na porta de casa, nas saídas do comércio ou nos semáforos, ressalvado aqueles momentos onde nosso coração pulsa dizendo que é o que devemos fazer, aí é seguir a intuição.
Em Santos, há café da manhã sendo oferecido ali no começo da Campos Sales; almoço no Ismênia de Jesus; e, à noite, basta esperar em alguns pontos — como Rodrigues Alves com Manoel Tourinho ou Batista Pereira, ou próximo às catraias do mercado — que logo começam a chegar carros dessas entidades, fornecendo comida e, às vezes, uma oração.
Isso sem falar no Bom Prato, com refeições a R$ 1,00. A maioria dessas pessoas recebe algum tipo de benefício e, se reservasse R$ 30,00, já teria uma refeição garantida por dia durante todo o mês.
Não tenho uma tribuna com grande alcance, mas, por mim, lançaria uma campanha motivando cada um a primeiro, deixar de doar; segundo, olhar apenas para o seu próprio quarteirão — onde reside e trabalha — e verificar se há alguém em situação de rua para, então, fazer uma abordagem.
Essa abordagem deve ser feita com cuidado: de preferência, não sozinho, mas acompanhado, durante o dia, e acionando a assistência social do município. Em Santos, isso pode ser feito pelo 153. Se não houver solução no primeiro dia, ligue novamente, convide outros a ligar também e, em algum momento, algo será feito.
Doe uma palavra. Pergunte sobre os motivos, ouça com atenção.
Na grande maioria dos casos, trata-se de situações ligadas ao uso abusivo de álcool e drogas. Aliás, entendo que pessoas com algum tipo de afastamento pelo INSS ou benefício vinculado a um CID (Código Internacional de Doenças) relacionado à dependência química ou ao alcoolismo deveriam ter um tutor que recebesse por elas, garantindo que o recurso não seja utilizado para sustentar o vício.
Hoje, grande parte desses benefícios acaba sendo direcionada ao consumo — seja de álcool, drogas ou até mesmo apostas, as bets.
Fonte: Jornal Da Orla


