Os oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra: Pacífico, Atlântico, Índico, Ártico e Austral, além de seus inúmeros mares. Vivemos, na prática, em um mundo cercado por água. Para quem está nas ilhas de São Vicente, que abriga parte de Santos, e de Santo Amaro, no Guarujá, essa percepção deveria ser ainda mais evidente. Ainda assim, o conhecimento sobre esse universo costuma se limitar às caminhadas à beira-mar e aos mergulhos em dias de sol.
“O oceano é a principal fonte de oxigênio do planeta. As florestas produzem muito, mas também consomem. Os oceanos equilibram esse sistema, regulam o clima e são a grande fonte de água do planeta. Toda a chuva que ocorre em outros lugares, de alguma forma, está relacionada ao oceano”, explica o oceanógrafo Wandrey Watanabe, coordenador do curso de Oceanografia do Instituto do Mar, no campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo. Ele lembra que, no Brasil, parte das chuvas depende da umidade da Amazônia, mas também há influência direta do oceano nesse processo.
Watanabe aponta que a oceanografia tem avançado para uma abordagem mais conectada às questões socioambientais. Um exemplo está no Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste de Santos. As condições precárias de moradia, com ausência de saneamento e acúmulo de lixo sob as palafitas, não afetam apenas quem vive ali. O impacto se espalha por todo o sistema costeiro.
“A cada pouco mais de 12 horas, em Santos, ocorre uma maré alta e uma baixa. Esse movimento constante gera correntes. As ondas, ao quebrarem, também produzem circulação. Há ainda o encontro da água doce do estuário com a água salgada do mar, e a diferença de densidade cria novas correntes. É um sistema dinâmico. O lixo pode permanecer um tempo no estuário ou na baía, seguir para o mar aberto e depois retornar às praias”, afirma.
PARTICULARIDADES
Segundo ele, cada região costeira tem características próprias. No canal de São Vicente, as correntes tendem a impactar mais áreas como o Japuí. Já na Zona Noroeste, a influência depende do vento, com fluxo direcionado à baía. “A Ilha das Palmas é um local de bastante encalhe de lixo”, diz. O pesquisador também chama atenção para o papel das microalgas na produção de oxigênio e alerta para o excesso de matéria orgânica no mar, que consome esse recurso e pode gerar desequilíbrios.
Ao tratar do aquecimento global, Watanabe explica que a atmosfera não é aquecida diretamente pela luz solar. “A luz atravessa o ar e aquece o solo e a água do mar. No oceano, a evaporação aquece o ar. Isso gera vento, que movimenta a água, promovendo trocas de calor. É uma interação constante: o oceano influencia o ar, e o ar influencia o oceano. Com mais energia nesse sistema, aumentam também as perturbações, tornando eventos extremos mais intensos, como ressacas e tempestades.”
Para quem vive na Baixada Santista, o mar ainda é visto principalmente como espaço de lazer. Mas, segundo Watanabe, é preciso ampliar essa percepção. “É necessário entender o mar como parte da casa, da cidade, e cuidar melhor dele. O ser humano está inserido nos processos do oceano, assim como o oceano está nos processos do mundo. Isso contribui para pressionar por políticas públicas, inclusive no planejamento urbano.” Ele cita a Ponta da Praia como exemplo de ocupação crescente em direção ao mar. “O fato de o mar não chegar ali todos os dias não significa que não chegará em determinados momentos. A ressaca é o mar ocupando seu espaço.”
CONEXÃO
O biólogo Ronaldo Christofoletti, também professor do Instituto do Mar da Unifesp, reforça a ideia de conexão total entre sociedade e oceano. “As pessoas têm dificuldade de perceber essa relação em todos os sentidos. O oceano regula o ciclo de chuvas, controla os ventos, influencia os microclimas e fornece alimento. Ele está presente na pesca, no porto, na economia e na vida cotidiana.”
Christofoletti destaca ainda a importância do estuário como área de transição que amplia a biodiversidade, especialmente nos manguezais, e das restingas como barreiras naturais contra desastres. “Do esporte ao lazer, passando pelo turismo, economia, saúde e alimentação, o oceano está em tudo.”
Ele alerta para o que chama de oceano com febre. “No último mês, a temperatura da água voltou a subir. Isso indica um oceano sob estresse, sobrecarregado por poluição, aquecimento e gases de efeito estufa. Essa pressão acumula energia e eleva a temperatura.” Para o pesquisador, o impacto é amplo. “Estamos falando de um planeta com 70% de oceano. Se ele não está bem, o planeta também não estará. Alterações no ciclo de chuvas afetam o agronegócio e isso chega ao preço dos alimentos no supermercado”.
Fonte: Jornal Da Orla


