Os Correios admitiram que a chamada “taxa das blusinhas” criada com o programa Remessa Conforme impactou diretamente o caixa e expôs falhas estruturais na atuação da estatal, agravando uma sequência de prejuízos e perda de receitas nos últimos trimestres.
Um documento interno revelado pela GloboNews e pelo G1 nesta quinta (19) aponta que a mudança no modelo de importações reduziu a participação da empresa no mercado e expôs a falta de adaptação diante das transformações do setor. À Gazeta do Povo, os Correios não negaram a existência do documento e afirmaram tratar informações de gestão com transparência, como parte do plano de restruturação baseado em três pilares: estabilização, consolidação e crescimento.
“Que tem como objetivo superar o atual quadro de resultados operacionais e financeiros desfavoráveis, garantindo sustentabilidade, competitividade e continuidade dos serviços postais em todo o território nacional”, disse em resposta à reportagem (veja na íntegra mais abaixo).
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No documento revelado pela reportagem, a diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo, da diretoria econômico-financeira, aponta que a estatal perdeu protagonismo no segmento de encomendas internacionais que, até agosto de 2024, funcionava praticamente como um monopólio no país.
“A redução da participação de mercado no segmento de encomendas internacionais […] evidenciou a ausência de reposicionamento negocial da Empresa, diante das transformações do comportamento da sociedade”, afirmou.
Criado em 2023 pelo Ministério da Fazenda, o programa Remessa Conforme passou a taxar em 20% as compras internacionais de até US$ 50, medida que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”. A mudança também abriu espaço para transportadoras privadas operarem no Brasil, retirando dos Correios a exclusividade na entrega dessas encomendas.
O impacto financeiro foi imediato e expressivo, com frustração de receita estimada em R$ 2,2 bilhões logo após a implementação do programa. No terceiro trimestre de 2025, a estatal registrou receita de R$ 12,3 bilhões, queda de 12,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
As perdas foram ainda mais evidentes no segmento internacional, diretamente afetado pela nova regra, com recuo de R$ 2 bilhões. As receitas caíram de R$ 3,2 bilhões nos nove primeiros meses de 2024 para apenas R$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2025.
“Formou-se, assim, um ciclo vicioso de perda de clientes e receitas, decorrente da baixa qualidade operacional”, destacou a diretora.
O documento aponta, ainda, que a deterioração operacional comprometeu a relação com grandes clientes, responsáveis por mais da metade da receita. Com isso, o fluxo de caixa foi pressionado, dificultando o cumprimento de obrigações financeiras acumuladas – R$ 3,7 bilhões apenas até setembro do ano passado, evidenciando o impacto direto da perda de competitividade. Os dados consolidados de 2025 devem ser divulgados no mês de março.
Em resposta, a estatal afirma que executa um plano estratégico de recuperação que inclui a a captação de R$ 12 bilhões para garantir liquidez, revisão de custos, modernização operacional e diversificação das fontes de receita.
“O Plano de Reestruturação foi aprovado com base em diagnósticos técnicos robustos e contempla ações alinhadas às melhores práticas de governança, monitoramento permanente e gestão estratégica de riscos, com foco na preservação da missão pública da empresa e na manutenção da universalização dos serviços postais”, pontuou em nota.
Os Correios também confirmam o aumento da concorrência no setor logístico e que ajustes estruturais são necessários para manter a eficiência e o atendimento à população.
“Cabe destacar que os Correios já vêm prestando contas periodicamente sobre o Plano a todos os órgãos de controle e do governo, e têm tornado públicas todas as informações sobre ele, sem prejudicar as estratégias negociais da empresa”, completou.
Mais recentemente, a estatal iniciou um grande plano de leilão de 21 imóveis considerados ociosos que pode gerar R$ 1,5 bilhão em receita. Os bens estão distribuídos pelos estados da Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo, como prédios administrativos, antigos complexos operacionais, terrenos, galpões, lojas e apartamentos funcionais.
Os valores partem de R$ 19 mil a até R$ 11 milhões. Segundo os Correios, as alienações não terão impacto na prestação dos serviços à população.
Veja abaixo a resposta completa dos Correios sobre o documento interno que trata dos problemas gerados pelo programa “Remessa Conforme” e pela “taxa das blusinhas”:
Em relação à reportagem publicada no portal G1, em 19 de fevereiro de 2026, que menciona um ofício interno dos Correios sobre o programa Remessa Conforme e desafios de reposicionamento negocial da empresa, os Correios reiteram seu compromisso com a transparência, a responsabilidade institucional e a gestão profissional de seu Plano de Reestruturação.
A empresa segue executando um plano estratégico estruturado em fases – estabilização, consolidação e crescimento -, que tem como objetivo superar o atual quadro de resultados operacionais e financeiros desfavoráveis, garantindo sustentabilidade, competitividade e continuidade dos serviços postais em todo o território nacional. Entre as medidas em curso, destacam-se a captação de R$ 12 bilhões para assegurar liquidez imediata, a revisão de custos e despesas, a modernização operacional e iniciativas para diversificar receitas.
O Plano de Reestruturação foi aprovado com base em diagnósticos técnicos robustos e contempla ações alinhadas às melhores práticas de governança, monitoramento permanente e gestão estratégica de riscos, com foco na preservação da missão pública da empresa e na manutenção da universalização dos serviços postais. Os Correios enfrentam um cenário de forte concorrência no mercado de logística e entregas, além da evolução natural do setor, e por isso vêm implementando ajustes estruturais necessários para garantir a eficiência e o atendimento aos cidadãos e às empresas que dependem de sua atuação.
Cabe destacar que os Correios já vêm prestando contas periodicamente sobre o Plano a todos os órgãos de controle e do governo, e têm tornado públicas todas as informações sobre ele, sem prejudicar as estratégias negociais da empresa.
Fonte: Gazeta do Povo


