O governo brasileiro vai realizar em Brasília nesta quinta-feira (5) uma reunião com o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, e ministros de alto escalão do Kremlin para aumentar a integração entre os dois países. O evento havia sido suspenso por causa da invasão militar da Rússia na Ucrânia. Sua realização neste momento tem grande potencial para deteriorar a relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente Donald Trump, que vem pressionando países da América Latina para acabar com a influência da Rússia e da China na região.
A 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), reacendeu o debate sobre o posicionamento estratégico do país em meio à rivalidade crescente entre grandes potências. O objetivo do evento é retomar uma iniciativa de integração duradoura, que coordena ações de ministérios dos dois países, e estava suspensa desde 2015.
A reportagem apurou que um dos objetivos dos russos é pressionar para manter a dependência brasileira de fertilizantes russos, usados como moeda de troca de apoio político do Brasil em esferas internacionais. Uma dessas frentes estará na mesa de negociações: o desenvolvimento de meios de pagamento alternativos ao dólar americano que usem moedas locais.
Os ataques que Lula vem fazendo ao dólar desde 2023 foram um dos motivos usados que basearam uma decisão de Trump no ano passado de aumentar tarifas comerciais com o Brasil. Eles interessam particularmente a Rússia e a China, que tentam diminuir a capacidade americana de aplicar sanções internacionais para atingir objetivos políticos.
Em dezembro do ano passado, o governo Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, que coloca a América Latina como foco central da política externa americana. O documento enfatiza a necessidade de combater a influência de outras potências internacionais na região. Segundo analistas, a cooperação com a Rússia e com a China foi um dos motivos que fez o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, ser capturado pelos EUA.
Oficialmente, o governo brasileiro sustenta que o encontro representa uma estratégia de diversificação de parcerias e defesa do multilateralismo. A delegação russa é composta por oito ministros, três vice-ministros, além de dirigentes de agências e muitos empresários. A presença de aviões especiais da Rússia no aeroporto de Brasília em preparação para o evento vem causando desconfiança e inquietação na sociedade.
Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a reunião Brasil-Rússia funciona como um teste da capacidade do país de equilibrar interesses geopolíticos. No entanto, o aprofundamento do diálogo com Moscou tende a ser interpretado não apenas como uma iniciativa bilateral, mas como um indicativo da direção estratégica da política externa brasileira — e, possivelmente, um novo ponto de tensão na relação entre Brasília e Washington.
O deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) afirma que o estreitamento das relações com Moscou coloca o Brasil em posição vulnerável dentro do cenário geopolítico global. Segundo ele, a América Latina se tornou espaço de disputa direta entre Estados Unidos, China e Rússia. “A aproximação do governo Lula com a Rússia, país sancionado pelos EUA e Europa, mostra o quão desligado do jogo internacional Lula está. É um pária, parceiro de ditadores, empurrando o Brasil para o lado dos violadores de direitos humanos”, afirmou.
O professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, avalia que o ambiente geopolítico atual reduz o espaço para políticas externas baseadas na neutralidade. Segundo ele, a aproximação com Moscou tende a ser interpretada em Washington como alinhamento político.
“Em Washington, essa aproximação é vista como alinhamento. A ideia de neutralidade praticamente acabou. Qualquer movimento que ajude a economia russa é interpretado como apoio a um adversário estratégico. O Brasil fala em pragmatismo, mas os EUA leem como escolha de lado”, disse.
Atuação dos Brics contra interesses dos EUA reforça pressão sobre o Brasil
O professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo destaca que a atuação brasileira no bloco BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos) reforça o cenário que aponta para uma neutralidade sob pressão. Para ele, propostas como o fortalecimento do comércio em moedas locais e o protagonismo brasileiro no bloco atingem diretamente interesses estratégicos norte-americanos.
“O governo Trump já deixou claro que pode impor tarifas extras a países que adotem posições consideradas antiamericanas no BRICS. Ao defender moedas locais e presidir o bloco, o Brasil toca no ponto mais sensível para os EUA: o dólar”, afirmou.
Apesar das críticas, Caichiolo defende que o Brasil ainda pode preservar espaço de manobra diplomática. Segundo ele, a solução passaria por um equilíbrio pragmático que combine cooperação com Moscou e reforço das relações estratégicas com Washington.
Cezar Roedel, mestre em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reforça o diagnóstico de que a política externa brasileira enfrenta riscos crescentes. Além disso, ele vê com ressalvas a possibilidade de o Brasil manter equilíbrio entre potências rivais. Para ele, a estratégia brasileira de “neutralidade ativa” tornou-se inviável diante da lógica atual de disputas geopolíticas.
“Essa neutralidade acabou virando um álibi discursivo para escolhas mal calibradas. Hoje as grandes potências operam com alinhamentos claros e zonas de influência. Permanecer numa zona cinzenta pode fazer o país ser penalizado, já que a ambiguidade é interpretada como fraqueza ou oportunismo”, afirmou.
Roedel argumenta que a aproximação com Moscou pode ser interpretada como sinal político hostil aos Estados Unidos, sobretudo sob o governo Trump, que, segundo ele, adota postura baseada em demonstrações explícitas de lealdade estratégica.
“O resultado mais previsível é perda de acesso político, redução da confiança e menor prioridade para o Brasil na agenda americana”, disse.
As análises são reforçadas por recentes pressões e alertas dos EUA sobre segurança e possíveis implicações estratégicas em meio a negociações feitas entre países da América Latina e a China. O Chile, por exemplo, desistiu de um projeto conjunto com a China para a construção de um observatório astronômico.
O Panamá, por sua vez, anunciou o cancelamento do seu acordo com a iniciativa Nova Rota da Seda da China (Belt and Road Initiative), após forte pressão do governo de Donald Trump. A decisão visou reduzir a influência chinesa no Canal do Panamá, sendo vista como uma vitória da política externa dos EUA para a região.
Diante dessas pressões, a possibilidade de retaliações ao Brasil fica mais latente, já que tanto a China como a Rússia são considerados países adversários geopolíticos dos EUA. “Se o Brasil cair nessa tentação [de estreitar relações com a Rússia], isso pode melindrar as relações do Brasil com os Estados Unidos num momento crucial da história”, avalia o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Limitações econômicas e riscos estratégicos
Tendo em vista a pauta econômica anunciada pelo governo Lula para a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) alerta que o Brasil pode perder mais do que ganhar ao priorizar vínculos estratégicos com Moscou.
Gomes questiona os ganhos estruturais da aproximação com a Rússia, mas apresenta uma análise centrada na dimensão econômica e estratégica da relação bilateral. Segundo ele, a cooperação entre os dois países enfrenta limites estruturais devido à baixa complementaridade comercial.
“O volume de comércio entre Brasil e Rússia é relativamente pequeno. A economia russa é baseada em exportação de commodities energéticas, enquanto o Brasil também atua nesse setor. Existe cooperação em fertilizantes, mas não há integração econômica robusta”, afirmou.
Gomes alerta que o maior risco para o Brasil não estaria no comércio, mas na ampliação da cooperação estratégica em áreas sensíveis, como defesa, tecnologia e segurança. “O Brasil depende muito dos Estados Unidos para investimentos, tecnologia e exportação de bens industrializados. Ao mesmo tempo, depende da China para manter superávits comerciais. A Rússia não oferece essas vantagens. Uma aproximação excessiva pode gerar sanções e tarifas retaliatórias”, disse.
Ano eleitoral amplia debate sobre influência externa e riscos geopolíticos
Além das repercussões diplomáticas e comerciais, analistas avaliam que a aproximação entre Brasil e Rússia pode ganhar novos contornos no contexto das eleições presidenciais de 2026, ampliando o peso da política externa no debate eleitoral — tema historicamente secundário nas disputas nacionais.
Para o especialista em relações internacionais Cezar Roedel, o cenário internacional tende a pressionar o governo Lula a assumir posições mais claras, o que pode transformar o posicionamento externo do país em pauta central nas eleições.
Roedel avalia que o fortalecimento das relações com Moscou pode ser explorado politicamente pela oposição, sobretudo em um contexto de disputa ideológica global. “O alinhamento de Lula com ditaduras e sua rota de colisão com os Estados Unidos podem impulsionar a direita, que tende a adotar uma narrativa baseada no combate ao narcoterrorismo e no alinhamento com os americanos”, afirmou.
Apesar desse diagnóstico, o cientista político Elton Gomes considera improvável que a Rússia exerça influência direta e relevante no processo eleitoral brasileiro, ao menos nos moldes observados em outras disputas internacionais.
Segundo ele, o potencial russo de interferência eleitoral possui limitações práticas e estratégicas. Gomes argumenta que a atuação da máquina de propaganda do Kremlin apresentou resultados limitados em cenários recentes, como a guerra da Ucrânia, na qual Moscou enfrentou dificuldades para consolidar apoio internacional majoritário.
“A interferência russa nas eleições brasileiras, como fazendas de bots ou grandes operações de desinformação, não parece ser o cenário mais provável. A Rússia tem experiência nesse tipo de atuação, mas sua prioridade geopolítica continua concentrada no Leste Europeu, especialmente em países como Ucrânia, Moldávia e Geórgia”, afirmou.
Gomes também destaca que eventuais manifestações públicas de apoio político do governo russo poderiam gerar efeito contrário ao desejado em democracias ocidentais, fortalecendo discursos oposicionistas. “O apoio do Kremlin não costuma gerar ganhos eleitorais em países democráticos. Pelo contrário, frequentemente é explorado pela oposição como elemento de desgaste político”, disse.
Na avaliação do cientista político, caso haja algum nível de cooperação indireta ou não oficial entre Moscou e o governo brasileiro, ela tende a se restringir a intercâmbios de inteligência estratégica e não a ações diretas de interferência eleitoral, como ataques cibernéticos ou campanhas coordenadas de desinformação.
Fonte: Revista Oeste


