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Reforma urbana: reconstruir a cidade a partir de quem vive nela


Outro dia, lendo uma reportagem sobre moradia nas periferias brasileiras, uma fala me deteve por alguns minutos. Não era estatística nem análise técnica. Era a voz de quem vive a cidade real.

Meu filho, quando chove, o barranco desce junto com o medo. Mas eu não saio daqui, não. Aqui tem história, tem amizade, tem vizinho que vira família. Reforma urbana, pra mim, era o nome bonito que o povo grande usava pra falar de arrumação de cidade. Mas a cidade que eu conheço é essa daqui: de chão batido, de puxadinho, de gente que acorda cedo e dorme tarde, construindo casa com o que sobra da feira, do ferro-velho, da esperança. Dias depois, outra reportagem trouxe uma fala ainda mais dura.

Eles dizem que vão trazer melhoria, mas melhoria pra quem? Pra nós, o que chega é ordem de despejo, máquina empurrando o pouco que a gente tem. Aqui tem gente boa, criança correndo na rua, mãe guerreira, mas também tem o tráfico. É o que segura e atrapalha ao mesmo tempo. Reforma urbana de verdade tinha que começar escutando o povo. Tinha que cuidar de quem cuida da cidade.

Essas vozes dizem mais sobre o urbanismo brasileiro do que muitos relatórios. Reforma urbana significa garantir que a cidade cumpra sua função social. É reorganizar o território para que terra, moradia, mobilidade e serviços urbanos sejam acessíveis a todos, e não apenas resultado da lógica do mercado imobiliário.

Quando terrenos vazios permanecem ociosos enquanto famílias são empurradas para áreas cada vez mais distantes, a cidade se fragmenta. Crescem as distâncias, os custos sociais e as desigualdades.

Hoje esse debate dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 11, que propõe cidades inclusivas, resilientes e sustentáveis. No Brasil, a Carta Brasileira para Cidades Inteligentes reforça que tecnologia urbana só faz sentido quando melhora a vida das pessoas.

Como arquiteto e pesquisador em inovação, sustentabilidade e infraestrutura urbana, insisto em uma ideia simples: tecnologia sem justiça territorial não produz cidades inteligentes. Produz apenas cidades tecnológicas e digitais.

Reforma urbana, no fundo, é reconhecer que a cidade não é apenas espaço físico. É o lugar onde a vida acontece. Ignorar as vozes que constroem a cidade todos os dias é planejar ruas e edifícios, mas perder o sentido da própria cidade.



Fonte: Jornal Da Orla

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