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O Irã terá sua “Delcy Rodríguez”? O futuro do país pós-Khamenei


O Irã enfrenta um momento de turbulência política desde a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em um ataque coordenado de forças americanas e israelenses no último sábado (28).

A guerra resultou em inúmeras perdas no alto escalão iraniano. Uma das figuras que emergiu como o rosto do regime em meio à crise foi Ali Larijani, um veterano político considerado a autoridade mais poderosa do setor de segurança do país.

No início da semana, três dias após o início do conflito, ele atacou verbalmente o presidente Donald Trump, dizendo que o líder republicano mergulhou o Oriente Médio num caos com suas “fantasias delirantes” e que isso trará efeitos negativos para os EUA. Larijani também fechou qualquer porta de negociação com os países envolvidos no confronto bélico.

O vácuo de poder e a pressão constante dos ataques aéreos direcionados a estruturas do regime levantam dúvidas sobre quem assumirá de fato o país persa no pós-guerra e se haverá continuidade do sistema político vigente, marcado pela influência de clérigos islâmicos.

Um nome influente surge como guardião do regime islâmico

O governo americano afirmou que derrubou o regime iraniano com a guerra em andamento e a morte de pelo menos 48 líderes militares e políticos nos últimos dias. No entanto, alguns dos principais nomes influentes do alto escalão permanecem vivos e atuantes em meio ao conflito.

Um deles é Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança Nacional e homem de confiança do falecido aiatolá Ali Khamenei, a quem ele encarregou de garantir a sobrevivência do regime. Fontes iranianas disseram ao jornal The New York Times nesta semana que ele vinha governando efetivamente o país nos bastidores durante as negociações que antecederam a guerra.

Larijani foi alvo de sanções por Washington recentemente devido ao seu papel de liderança na repressão aos protestos contra o regime islâmico, que resultou em centenas de mortes. Ele também esteve envolvido nos últimos anos em negociações nucleares com os EUA e se tornou um influente articulador político com a Rússia e China, ditaduras que se aproximaram de Teerã na última década.

Formalmente, ele não tem como suceder Khamenei no posto de líder supremo por não cumprir os requisitos religiosos que o cargo exige. Ele não é um clérigo como foi Khamenei e seu antecessor, Ruhollah Khomeini, apesar de sua família ter um histórico de ligação com o alto escalão.

Seu pai e irmãos alcançaram tal hierarquia religiosa. Sadeq Ardeshir Larijani, um dos irmãos, recebeu o título de aiatolá, chegando a chefiar o judiciário iraniano entre 2009 e 2019. Outro irmão dele, Mohammad-Javad Larijani, foi conselheiro do falecido aiatolá Khamenei.

A trajetória política de Ali Larijani, no entanto, foi construída por outro caminho. Ele ingressou na Guarda Revolucionária Islâmica em 1981 e serviu como comandante durante os primeiros anos da guerra Irã-Iraque. Anos depois, chegou a frequentar um seminário religioso, mas acabou seguindo para outra formação, em ciência da computação e matemática.

Em 2005, após passar por diferentes setores do regime, concorreu à presidência pela primeira vez, mas recebeu menos de 10% dos votos no primeiro turno. Depois disso, Larijani foi nomeado secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (SNSC), ocasião na qual também assumiu a frente das negociações nucleares do Irã, mas acabou sendo demitido pelo então presidente Mahmoud Ahmadinejad.

No ano passado, ele retornou ao antigo cargo de chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional e ganhou destaque como a principal autoridade de segurança do Irã após a guerra de 12 dias com Israel em junho passado.

Como está a estrutura de poder no Irã?

Apesar do abalo estrutural, o regime dos aiatolás ainda sobrevive. Logo depois da confirmação de morte do líder supremo, a agência de notícias estatal iraniana IRNA informou que o presidente do Irã, o chefe do Judiciário e um jurista do Conselho dos Guardiães assumiriam o comando durante o período de transição, sem dar detalhes do que aconteceria em seguida.

O destino do país segue incerto, mas alguns nomes permanecem influentes em meio à guerra: o do chefe do judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i; o chefe de gabinete do aiatolá Khamenei, Ali Asghar Hejazi; Hassan Khomeini, clérigo e neto do aiatolá Khomeini; e o filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, este último um forte nome presente nas discussões sobre o futuro do país, apesar de seu pai ter rejeitado que o cargo se tornasse hereditário.

Nesta quinta-feira, o presidente Donald Trump disse à Axios que precisa estar envolvido na escolha de um novo líder para o Irã, assim como aconteceu na Venezuela, onde ele permitiu ao regime permanecer no poder, sob o comando da vice de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez.

Nas declarações, o líder americano rejeitou algumas sugestões, como o filho de Khamenei que, para ele, seria algo “inaceitável” por ele ser “fraco”. O presidente argumentou ainda que a escolha deve eliminar qualquer candidato que mantenha a política do falecido líder supremo, a fim de evitar uma nova guerra “em cinco anos” com os EUA.

Questionado numa coletiva desta semana sobre as perspectivas para uma futura liderança no Irã, Trump também minimizou a possibilidade do príncipe herdeiro exilado Reza Pahlavi assumir o país, afirmando que preferia que alguém de dentro do Irã assumisse o comando.

O líder da Casa Branca avaliou que, embora “ele pareça uma pessoa muito simpática”, era mais provável a escolha de um candidato “popular”, “alguém que esteja lá [no Irã]”.

Perspectivas: continuidade do regime vs. crise interna

Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, considera a ideia de colapso imediato do regime simplificadora. “O sistema iraniano não depende apenas de uma figura central. Ele é sustentado por uma estrutura institucional, militar e ideológica relativamente coesa, especialmente pela Guarda Revolucionária”, explica.

Nesta quinta-feira, as Forças Armadas do Irã anunciaram uma série de ataques contra posições de grupos curdos no Curdistão iraquiano, o que representa uma nova ampliação de uma guerra que chega ao seu sexto dia.

Ação aconteceu depois que a imprensa americana informou que o presidente Trump conversou com líderes curdos da região. O jornal The Washington Post informou que o líder americano buscou apoio da oposição interna de Teerã como potenciais aliados para fomentar uma revolta contra o regime.

Fontes familiarizadas com o assunto disseram que Trump realizou diversos telefonemas nesta semana para líderes da minoria curda no Irã e no vizinho Iraque oferecendo “ampla cobertura aérea dos EUA” e outros tipos de apoio para que eles assumam o controle de partes do Irã.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “é completamente falso que as forças curdas serão armadas com a esperança de inspirar um levante popular no Irã”, após especulações de que a Agência Central de Inteligência dos EUA, CIA, estaria por trás de uma ação de desestabilização.

Os curdos são a minoria étnica mais numerosa sem Estado próprio, composta por 30 milhões de pessoas distribuídas principalmente entre Turquia, Irã, Iraque e Síria.

Trump tem apelado à população iraniana que se organize nas ruas para derrubar a ditadura islâmica. Até o momento, no entanto, a estrutura parece apenas estremecida.



Fonte: Revista Oeste

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