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O ermitão digital – Jornal da Orla


A internet veio para ficar. Começou nos computadores, foi para os celulares, passou às televisões e hoje já temos a IoT — a Internet das Coisas. Tudo tem internet. Vi todo esse processo desde os primórdios. Fui usuário de BBS (Bulletin Board System), onde conectávamos um computador às linhas telefônicas, e quem tivesse um modem podia ligar e se conectar. A Mandic foi uma das maiores — senão a maior — de todas. Em Santos, tínhamos algumas com focos específicos: cultura, tecnologia etc.

Já faz tempo que nos alertam que nossa privacidade está em risco. O celular, sempre com você, estaria ouvindo o que você fala e, a partir disso, exibindo propagandas direcionadas.

A lenda de que desejavam colocar um chip nas pessoas caiu por terra — nem precisa. Nós o carregamos voluntariamente, no bolso, todos os dias.

Na série La Casa de Papel, a polícia consegue abrir a câmera de um dos celulares dos reféns, vítimas de um sequestro, mesmo à distância e sem autorização dele.

Alguns acreditam, outros não. Mas a suspeita está sempre no ar.

Em 2018, Jaron Lanier, em seu livro Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now (no Brasil, Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais), indicava que, se desejarmos privacidade real, o melhor caminho talvez seja ficar completamente offline.

Sobre as câmeras, há várias recomendações para cobri-las fisicamente, a fim de evitar sermos vigiados. O exemplo mais emblemático veio justamente de Mark Zuckerberg, que em 2016 postou uma foto na qual, ao fundo, podia-se ver seu notebook com uma fita adesiva sobre a câmera.

James Comey, ex-diretor do FBI, em palestras públicas, já recomendou essa prática. E Glenn Greenwald, em 2014, no livro No Place to Hide (no Brasil, Sem Lugar para Esconder), denunciou que a National Security Agency (NSA) possuía ferramentas capazes de acessar remotamente câmeras e microfones de laptops sem que a luz indicadora sequer acendesse.

Recentemente, uma febre varreu a internet: peça para a IA fazer uma caricatura sua baseada no que ela sabe sobre você. Ao pedir, de imediato a IA solicitava uma foto. Já soa como um alerta: a partir dali, ela sabe qual é sua fisionomia. Está bem, vamos lá — mandei a foto.

Alguns segundos depois, lá estava a caricatura. Observando os detalhes, notei algo que me espantou. Três objetos constavam na imagem que eu jamais havia mencionado — nem por escrito, nem em conversa com a IA. Só havia uma explicação possível para estarem ali: alguma imagem minha havia sido vista, na qual esses objetos apareciam.

A caneta na minha mão era exatamente da cor da que venho usando há algum tempo. O globo poderia até ser inferido pela minha fala — meu globo havia sumido e eu o procurei até encontrá-lo. Por último, o crucifixo de mesa: tenho um exatamente na mesa de casa, de onde normalmente trabalho.

Quando trabalhava no escritório, tinha o hábito de manter sempre uma Bíblia sobre a mesa; em casa, passei a usar o crucifixo. Como esses elementos foram parar na imagem gerada pela IA?

Pode ter sido pura coincidência — mas custo a crer.

A disputa entre EUA e China pelo TikTok mostra como há uma batalha pelo acesso aos nossos dados. Os EUA não queriam que a China pudesse fazer aquilo que eles próprios fazem há anos. No fundo, era isso.

O ermitão moderno é aquele que opta por deletar todas as redes sociais, não usar celular nem computador. Não precisamos mais subir ao alto do morro e viver isolados, observando a cidade. Aqui em Santos tivemos um: vivia no Morro do José Menino e podia ser visto da praia, em sua gruta, contemplando a cidade. Descia às vezes apenas para pedir alimento e subia novamente.

Você está lendo este texto em um computador ou celular?

Então, entre eu e você, talvez haja alguém observando.



Fonte: Jornal Da Orla

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