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Literatura e resistência na voz das mulheres palestinas


Vítimas da própria ignorância sobre a vida para além do Ocidente, parecemos acostumados a naturalizar ataques das potências ocidentais a países do Oriente Médio. Não importa quanto inconsistentes e estigmatizados sejam os argumentos, consideramos ter subsídios suficientes para ratificar nossos desenganos: são todos terroristas, radicais, violentos, antidemocráticos, incivilizados… A história pouco vale, talvez porque as guerra tenham origem justamente nas ações imperialistas das mesmas grandes potências, ao longo de séculos.

Assim tem sido em relação a Palestina e aos territórios ocupados ou atacados por Israel, com apoio inconteste dos EUA – os mais recentes ataques começaram em 2023. Uma narrativa hegemônica tenta esconder sob os escombros a vida de arte, cultura e resistência, ao longo de décadas. “Em meados do século XIX, um momento de grandes transformações no mundo, as ideias iluministas também silenciavam as vozes femininas na região. Mas já havia os salons (círculos literários) organizados por mulheres que já discutiam feminismo, dominação, colonialismo. É questão política, não religiosa”, afirma a jornalista e escritora Soraya Misleh. “Então, ao falar de literatura de resistência e do protagonismo das mulheres, a gente se coloca contra uma narrativa desumanizante em relação ao povo palestino”.

Paulistana de origem palestina, Soraya Misleh estará em Santos no sábado (14) para lançar o livro “Mulheres palestinas: dos salons aos primórdios da literatura de resistência”, na livraria Realejo, às 16h. A obra, desdobramento da tese de doutorado em Estudos Árabes defendida na Universidade de São Paulo (USP), abrange o período da segunda metade do século 19 até os anos 1960.

“Na história canônica em geral as mulheres são marginalizadas, viram notas de rodapé. Isso não é diferente em relação à história da Palestina, das diferentes formas de resistência. Então, através da literatura eu falo no racismo, cruzando literatura e política, porque não tem escapismos diante de uma situação terrível. O genocídio ainda continua, com mais de 1.600 violações de acordos, uma crise humanitária dramática em que 70% das vítimas são mulheres e crianças. Segundo a ONU Mulheres, a média nesses dois últimos anos foi de duas mulheres assassinadas por hora. Não dá para você entender o que acontece hoje se não compreender a linha histórica”, afirma.

Capa do livro de Misleh

Capa do livro de Misleh

CÍRCULOS LITERÁRIOS
Soraya Misleh relata que no século 19 havia uma crescente influência europeia, uma tentativa de abrir mercados na região, fato que também é debatido nos círculos literários de mulheres. No livro, ela estuda autoras como May Ziadeh, cujo salon foi responsável por prolífica produção literária. “Ela abria a porta para os novos temas. Discutiam os acontecimentos do momento. Já caminhando para o século 20, era um processo muito rico de discussão política e cultural e o salão dela era misto, com homens e mulheres. Até o tema socialismo, pela influência da Revolução Russa (1917), era colocado em discussão”.

A autora, que é militante da causa palestina e pesquisadora, nos apresenta escritoras de diferentes vertentes. Exemplos: Samira Azzam, com contos e romances em narrativa realista; e as fábulas, contos, poemas, autobiografia e romance de Najwa Kawar Farah. Há, ainda, Sadhij Nassar, jornalista e escritora que, de acordo com Misleh, foi a primeira mulher enviada a um campo de prisioneiros britânico na história da Palestina, em 1938, durante a grande revolta de 1936 a 1939.

Outro destaque do livro é Karimeh Abbu, primeira fotógrafa palestina, conhecida como Dama Fotografa, que viveu entre 1893 e 1940. “Uma obra muito importante, porque ela registrou modos de vida em lugares que não existem mais. Nem imaginava que estava registrando lugares que foram apagados do mapa e da história. As fotos ficaram perdidas, pois ela também saiu às pressas, durante a expulsão da limpeza étnica. O interessante é que um israelense encontrou as imagens e publicou um anúncio no jornal perguntando se alguém sabia quem ela era. Um palestino viu e resgatou”, relata Soraya Misleh.

LITERATURA E GUERRA
Com os recentes ataques e a destruição na Faixa de Gaza a situação mudou. Porém, Soraya Misleh garante que as mulheres continuam “como um pilar da sociedade para manter a dignidade em meio a condições insustentáveis de vida”. De acordo com ela, em Gaza, nos últimos dois anos e pouco, cresceu 300% o aborto espontâneo. Ela diz que o protagonismo feminino continua e a literatura ainda continua a ser uma forma de resistência.

Porém, em função de todas as tarefas e comprometimentos da mulher no cenário de guerra e genocídio, houve um arrefecimento. Cita o exemplo de uma jovem que cantava e tocava alaúde para distrair as crianças do barulho dos mísseis. “A literatura continua a ser importante porque a palestina, como comunidade, tem muita tradição oral, inclusive. Elas bebem da fonte das pioneiras da literatura de residência. Uma autora é a poeta e romancista Heba Abu Nada, martirizada aos 32 anos, em dezembro de 2025”.

Ela também destaca a presença de jornalistas. “Eu soube de uma que atravessou os dois filhos gêmeos para o Egito e voltou para cumprir a sua função social como jornalista. E ela falou: não vou deixar meus dois filhos porque eles não têm que passar por isso, mas não vou largar minha terra; vou contar o que está acontecendo aos seus olhos no mundo”.

PAI E MÃE
Soraya conta que o pai tinha 13 anos quando a família dele foi obrigada a sair da aldeia rural. “Ele foi um dos 800 mil palestinos expulsos violentamente na limpeza étnica em 1948, o que a gente chama de Nakba (catástrofe), quando foi formado o Estado colonial de Israel, em 72% do território histórico da Palestina. Foram cerca de 500 aldeias destruídas. A família da minha mãe também é palestina, dos territórios ocupados militarmente por Israel em 1967”.
A autora viajou três vez na tentativa de visitar a Palestina, só conseguiu autorização do governo de Israel uma única vez.



Fonte: Jornal Da Orla

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