“É no contato que a inclusão se torna mais bonita”. A frase resume o espírito do Instituto Caleidoscópio, criado a partir da união de pais e mães ativistas — todos advogados — que se especializaram na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. O objetivo é direto: tirar a inclusão do papel e fazê-la acontecer no cotidiano.
A iniciativa nasce de um desejo antigo que, ao longo do tempo, encontrou convergência entre diferentes trajetórias. Segundo a advogada e fundadora Marcela Garcia Fonseca, também secretária executiva da Comissão de Direitos Humanos da OAB Santos, o instituto é fruto de uma construção coletiva. “Sempre quisemos criar uma associação. Não sabíamos quando, mas esse sonho sempre existiu entre nós”, afirma.
Ao lado do presidente Marcus Maurer de Salles, do vice-presidente Cahuê Alonso Talarico e dos conselheiros Paloma Cristina Pediani, Vinicius de Oliveira Ribeiro e Viviane Oliveira Gouveia, o grupo estrutura sua atuação em três frentes: advocacy, gestão de projetos e monitoramento internacional.
Apesar das conquistas individuais, surgiu a necessidade de ampliar o alcance das ações. “Queríamos fazer mais, tirar ideias do papel —
algo que, de forma isolada, já não era possível”, explica Marcela. A experiência como pais e mães de pessoas com deficiência foi decisiva nesse processo. “Encontramos pessoas generosas, que desejam ao outro o mesmo que conquistaram para seus filhos. O Caleidoscópio é uma consequência natural desse encontro”.
O nome traduz a essência da proposta. Assim como o instrumento que revela novas imagens a cada movimento, o instituto aposta na transformação contínua. “Cada elemento tem sua própria luz, sua própria voz – e todas precisam ser ouvidas”, diz. A ideia de impermanência, segundo Marcela, dialoga com a própria vida e reforça a importância da convivência.
Na incidência política, o instituto dialoga com os três poderes – nas esferas municipal, estadual e federal –, participando da elaboração de propostas legislativas e atuando como amicus curiae em ações judiciais. Na gestão de projetos, o foco está na articulação com empresas e políticas de diversidade, com iniciativas voltadas à inclusão no mercado de trabalho, acessibilidade e adequação de espaços. Já o monitoramento internacional busca prevenir retrocessos e acionar instâncias externas quando necessário.
Um dos diferenciais do Caleidoscópio é sua diversidade interna. “Somos mais do que uma associação de pais. Somos pais atípicos e advogados com experiências diversas ligadas à neurodiversidade dos nossos filhos”, afirma Marcela. Para ela, essa pluralidade amplia o olhar e fortalece a construção de soluções conectadas a diferentes realidades.
Apesar dos avanços legais, os desafios seguem expressivos – especialmente na educação. “A educação inclusiva ainda está distante do que sonhamos”, pontua. Outro tema urgente é a proteção contra a violência sexual. “Pessoas com deficiência estão mais vulneráveis, e esse ainda é um assunto pouco debatido”, alerta.
O instituto mantém diálogo constante com o poder público – o que Marcela define como “lobby do bem” – e atua para garantir a aplicação de leis já existentes, como a Lei Brasileira de Inclusão. “Se não admitimos racismo, por que ainda aceitamos a segregação de pessoas com deficiência?”, questiona.
Para Marcela, a principal transformação ainda é cultural. “Falta empatia. Na linguagem da acessibilidade, chamamos isso de barreira atitudinal”, explica. “Quando há empatia, há inclusão – na escola, no trabalho e na vida. E, com isso, a possibilidade real de ir e vir com dignidade”.
Fonte: Jornal Da Orla


