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Entenda por que o Santos encontra tantas dificuldades no mercado em busca de reforços


Alexandre Mattos e Marcelo Teixeira comandam as negociações do Santos (Foto: Raul Baretta / Santos FC)

*Por Laura Marcello e Lucas Barros

Nos últimos meses, o Santos viu uma série de negociações por reforços não se concretizarem quando tudo parecia indicar um final feliz. São casos como o do zagueiro Tomás Palácios, dos volantes Thiago Maia, Felipe Loyola e José Aldo e dos atacantes Vitinho e Michael.

A dificuldade do Santos para avançar em negociações no mercado de transferências não se resume a um único fator. O Diário do Peixe apurou com pessoas que atuam diretamente no mercado do futebol e também dentro do clube, e as respostam apontam para um conjunto de problemas que afetam tanto a imagem externa do Santos quanto sua capacidade prática de fechar acordos.

De um lado, empresários, intermediários e pessoas próximas a jogadores relatam obstáculos recorrentes ao negociar com o clube. Do outro, internamente, o Santos reconhece limitações financeiras, defende que recuperou parte da credibilidade e explica o perfil de atletas que passou a priorizar.

A visão do mercado sobre o Santos

Entre profissionais que negociam fora do clube, o Santos é visto como uma instituição de difícil condução nas tratativas. Um dos principais pontos citados é a falta de uma referência clara nas negociações. Pessoas envolvidas em conversas relatam não saber quem, de fato, toma as decisões no clube.

Há dúvidas recorrentes sobre quem responde pelas negociações: se o presidente Marcelo Teixeira, se Alexandre Mattos, se pessoas ligadas ao entorno do futebol ou outros interlocutores – como Neymar Pai ou Marcelo Teixeira Filho. Em alguns casos, diferentes nomes mantêm contato ao longo da mesma negociação, sem que exista uma figura fixa para centralizar o processo.

Essa falta de definição gera insegurança. Empresários relatam dificuldade para obter respostas objetivas, retorno de mensagens do próprio presidente do clube e encaminhamento de documentação. Quando tentam contato direto com o presidente, muitas vezes não recebem resposta, o que paralisa negociações por dias ou semanas.

Outro fator relevante está na comunicação entre jogadores. Antes de aceitar propostas, atletas costumam buscar informações com colegas que atuam ou passaram recentemente pelo clube. Esse movimento influenciou, por exemplo, decisões de jogadores que recuaram em negociações após conversas com atletas ligados ao Santos.

Nesse ambiente, surgem relatos sobre pressão constante da torcida, protestos frequentes, presença intensa de torcedores no CT Rei Pelé e episódios recentes de invasões. Além disso, em algumas situações, chegam aos atletas informações sobre atrasos em direitos de imagem, o que pesa na tomada de decisão.

Há também incômodo com a circulação de muitas pessoas no ambiente do clube. Empresários e representantes apontam desconforto com reuniões que envolvem integrantes fora do núcleo direto do futebol, como os assessores da presidência, o que passa a sensação de desorganização e exposição excessiva.

No campo esportivo, o Santos também perde competitividade. A ausência recente em torneios internacionais, os anos seguidos de luta contra o rebaixamento e a falta de um projeto esportivo de médio prazo afastam jogadores. Em alguns casos, atletas optam por clubes de menor expressão na Europa, inclusive em divisões inferiores, pela previsibilidade de carreira e tempo de jogo.

Com isso, o Santos enfrenta um cenário duplo: em algumas negociações, consegue avançar com o clube detentor dos direitos, mas perde o jogador após ele ouvir relatos negativos; em outras, acerta com o atleta, mas vê o negócio travar porque o clube vendedor exige garantias financeiras ou recebe proposta superior de outro interessado.

As dificuldades financeiras e o tempo como inimigo

A questão financeira aparece como elemento central. O histórico recente de atrasos e transferbans faz com que clubes adotem cautela ao negociar com o Santos. Mesmo quando aceitam abrir conversas, passam a exigir garantias adicionais, o que alonga os prazos.

Enquanto o Santos busca aval de patrocinadores, parceiros comerciais ou emissoras para oferecer essas garantias, o mercado segue em movimento. Com o tempo passando, surgem clubes com maior capacidade financeira, histórico mais estável e pagamento imediato, que acabam levando os jogadores.

Esse cenário se repetiu em negociações recentes. O Santos chegou a valores considerados competitivos dentro de sua realidade, mas não conseguiu acompanhar ofertas significativamente maiores feitas por concorrentes estrangeiros ou clubes financeiramente mais organizados.

A visão interna do Santos

Dentro do clube, o diagnóstico é diferente em alguns pontos. O Santos entende que o principal problema hoje não é mais a credibilidade, mas sim a limitação de recursos financeiros. A avaliação interna é de que, nos últimos dois anos, a gestão conseguiu ao menos reabrir portas no mercado, algo que não ocorria anteriormente.

O clube reconhece que não consegue competir com propostas de grandes clubes brasileiros ou de mercados emergentes, como o Oriente Médio, nem com equipes europeias que operam com cifras elevadas. Em diversas negociações, o Santos optou por não avançar ao entender que o custo não se encaixava na realidade atual.

Outro ponto destacado internamente é o impacto das dívidas herdadas de gestões anteriores. Em negociações com clubes que ainda aguardam pagamentos antigos, o Santos enfrenta resistência, pedidos de garantias e desconfiança, o que torna o processo mais lento.

A leitura interna é que esse tempo perdido nas negociações acaba sendo decisivo. Enquanto o Santos tenta estruturar financeiramente uma proposta, outros clubes chegam com ofertas superiores e encerram o negócio.

O perfil buscado no mercado

Diante desse cenário, o Santos passou a adotar um perfil específico de contratação. A prioridade é por atletas experientes, com histórico competitivo, que atravessam um momento de menor valorização no mercado, mas que ainda apresentam capacidade de rendimento e mentalidade vencedora.

A ideia é apostar em jogadores mais acessíveis financeiramente, com potencial de recuperação técnica e física, e que aceitem o desafio esportivo do clube. Esse perfil também facilita negociações salariais e reduz custos iniciais, como luvas.

Nesse contexto, o networking se tornou um fator relevante. Muitas das contratações recentes envolveram atletas que já trabalharam com integrantes da comissão técnica ou da diretoria, ou que mantêm relação próxima com pessoas influentes no clube. Conversas diretas com o treinador e o apelo esportivo de ajudar o Santos em um momento delicado também pesaram em algumas decisões.

O Santos entende que, no cenário atual, esse tipo de relação e identificação é determinante para avançar no mercado. Sem capacidade de competir financeiramente em igualdade com outros clubes, o fator humano, o histórico de relacionamento e a oportunidade esportiva se tornaram ferramentas centrais nas negociações.



Fonte: Diário do Peixe

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