O anúncio da instalação do Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) e do Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) Mães por Direitos, na quarta-feira (4), reflete a conquista de 20 anos de luta do Movimento Mães de Maio. São mulheres, principalmente da Zona Noroeste de Santos, que perderam filhos em diferentes ações policiais, desde 2006, e que se uniram na luta por justiça e reparação do Estado. O equipamento funcionará no Centro Histórico e será o primeiro com recursos federais voltado à memória e assistência a familiares atingidos pela letalidade estatal.
“É uma luta muito grande, de 20 anos. A partir das nossas vivências e da experiência de outras mães que ouvimos, com apoio da Universidade de Harvard (EUA), nós produzimos um manual que foi entregue ao Governo Federal”, afirmou Débora Maria da Silva, fundadora e coordenadora do Movimento Mães de Maio.
Para ela, a memória faz parte da sobrevivência dessas mulheres. “Nós queremos que o Estado pare de matar nossos filhos. A gente não acha normal a morte ser naturalizada, a gente não acha natural esse movimento que mais cresce no Brasil, com a morte de jovens das periferias. Queremos valorizar a juventude, dar oportunidade e mostrar uma outra política que não é essa que mata, aprisiona e tortura. A educação popular e valorização da favela e da periferia são a solução desse país”.
Para viabilizar os serviços, os ministérios dos Direitos Humanos e da Justiça e Segurança Pública uniram-se ao Movimento das Mães de Maio e à Iniciativa Negra, organização nacional que atua com políticas sobre drogas. Ambas farão a gestão do espaço. “A gente precisa educar a sociedade brasileira para os compromissos do Estado na defesa da vida. Por isso, é tão importante a gente estar aqui em Santos, numa comunidade de luta, de memória, que passou por momentos tão tristes, trágicos, sob a violência do Estado, para a gente reparar a partir de uma luta dessa própria comunidade, mas especialmente das mães e familiares que nunca desistiram. São eles que estão entregando para o Brasil esse centro que, com certeza, vai inspirar outros. Fundamentalmente, a gente quer o fortalecimento da nossa democracia e o respeito à dignidade de todo e qualquer cidadão do Brasil”, afirmou a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, durante o evento na quadra da Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste.
AÇÃO COLETIVA
Marta Machado, secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) do Ministério da Justiça, afirma que a execução do Cais está garantida por uma parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já firmada com recursos da Senad. “A gente tem mais de um equipamento aqui. O Cais custa em torno de R$ 1,5 milhão, R$ 2 milhões por ano. Em Santos, a gente colocou um Cais dentro do Centro de Memória, que tem um outro tipo de recurso. Então, ele está pronto, as equipes Cais já estão sendo recrutadas, informadas. A gente vai ter psicólogo, assistente social, redutores de danos, mas o prédio em si, o local físico, ainda está passando por uma reforma e vai abrir em breve”.
A secretária nacional explica que o projeto dos Cais nasceu para atender à população em situação de rua, mas já está atendendo povos indígenas também. “Por uma demanda do Movimento das Mães de Maio, que pediu um Cais específico para as mães e familiares de vítimas, foi criado o Cais Mães por Direitos. O que a gente vê aqui é uma política pública que foi construída coletivamente com os movimentos. O Cais passa a existir, a ser construído justamente a partir de uma demanda de um movimento social. É um evento histórico”, declarou Marta Machado.
Fonte: Jornal Da Orla


