PUBLICIDADE

Barbearia santista faz atendimento especializado para crianças atípicas


Para muitas famílias, levar uma criança para cortar o cabelo pode ser um momento de tensão. No caso de crianças atípicas, especialmente aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a experiência pode se tornar ainda mais desafiadora. Em Santos, no entanto, um barbeiro transformou esse cenário ao criar um atendimento especializado e acolhedor.

Há mais de quatro décadas na profissão, Emerson dos Santos Diniz, conhecido como ‘Tio Emerson’, se tornou referência no atendimento a crianças, especialmente autistas. À frente da barbearia Tio Emerson Kids, localizada na Rua Fernão Dias, 12, sala 34, no Gonzaga, ele desenvolveu um método próprio que prioriza o conforto e a segurança durante o corte de cabelo.

Recentemente, o espaço recebeu o selo Empresa Acessível, concedido pela Prefeitura de Santos, reconhecimento dado a estabelecimentos que adotam medidas de acessibilidade. A barbearia passa a integrar um grupo de mais de 40 empresas da cidade certificadas por oferecer condições adequadas de atendimento a pessoas com deficiência.

Da curiosidade à profissão

A trajetória de Emerson começou ainda na infância. Ele costumava frequentar barbearias acompanhando o pai e o irmão mais velho, hábito comum na cidade. Foi nesse ambiente que descobriu a vocação. “Éramos clientes do Salão Grande Família, no Super Centro Boqueirão. Um dia perguntei para o barbeiro se ele poderia me ensinar”, lembra. Aos 12 anos, começou a ajudar no salão realizando tarefas simples, enquanto observava atentamente o trabalho dos profissionais.

Na época, não existiam cursos profissionalizantes de barbearia na cidade, e o aprendizado acontecia na prática. Foi nesse período que ele percebeu um detalhe que acabaria definindo sua carreira: muitos barbeiros evitavam atender crianças. “Os barbeiros não tinham paciência. Eu via que ninguém queria cortar cabelo de criança e pensei que ali poderia existir uma oportunidade”.

A partir disso, começou a atender os pequenos clientes de forma lúdica, brincando e observando as técnicas utilizadas pelos colegas mais experientes.

Método adaptado

Sem perceber, Emerson passou a desenvolver uma técnica própria de corte. Diferente do modelo tradicional, que exige que o cliente permaneça parado, ele adaptou o trabalho para acompanhar o movimento natural das crianças. “Comecei a cortar o cabelo em movimento. Foi uma dificuldade que virou solução. Eu nem imaginava que aquilo um dia se tornaria um método”.

Com o tempo, a habilidade passou a chamar atenção dos clientes. Crianças de diferentes bairros começaram a procurar “o menino que corta cabelo”, e o apelido “tio do cabelo” surgiu naturalmente.

Menos de um ano depois, Emerson ganhou sua própria cadeira na barbearia. Em 1996, abriu o primeiro salão próprio no bairro Embaré.

Atendimento especializado

O atendimento a crianças sempre fez parte da rotina do barbeiro, mas foi com o passar dos anos que ele percebeu que muitas delas apresentavam características relacionadas ao autismo. “Eu sempre atendi, mas na época não se falava tanto sobre autismo. Com o tempo fui estudando e entendendo melhor as necessidades dessas crianças”.

Hoje, o método desenvolvido por ele leva em conta características comuns do TEA, como sensibilidade a estímulos, dificuldade de permanecer parado e medo de determinados objetos. “O autista muitas vezes se mexe muito. Então eu não tento impedir o movimento. Eu acompanho. Trabalho com o braço flexível para seguir a direção da criança e evitar machucar”.

Segundo Emerson, o atendimento é sempre individualizado. “Cada criança tem uma necessidade diferente. O corte precisa se adaptar a ela, e não o contrário”.

Antes de agendar o corte, a barbearia realiza uma triagem com os responsáveis para entender melhor o perfil da criança. “Perguntamos se ela tem medo da máquina, da tesoura, se já teve alguma experiência ruim em outro salão”.

A partir dessas informações, o atendimento é planejado de forma personalizada. Caso a criança tenha medo de determinado equipamento, o barbeiro adapta a técnica. “Se ela tem medo da tesoura, uso máquina. Se tem medo da máquina, uso navalha. O importante é respeitar o limite da criança”.

Os pais também recebem orientações sobre como preparar o filho para a visita ao salão e como agir durante o atendimento. “Às vezes até peço silêncio. A voz da mãe é a principal referência da criança. Se ela fala muito, pode dificultar a conexão comigo”.

Ambiente adaptado

Ao longo dos anos, o espaço foi sendo adaptado para garantir segurança e reduzir estímulos sensoriais.

Um dos elementos mais conhecidos da barbearia é um carrinho adaptado que funciona como cadeira para as crianças. A ideia surgiu de forma improvisada. “Encontrei um carrinho de supermercado no lixo e pensei que poderia transformá-lo em cadeira. Depois mandei fabricar um modelo mais seguro”.

O salão também conta com entrada acessível, espelho inclinado para cadeirantes e controle de iluminação por persianas. O ambiente busca evitar estímulos excessivos e criar uma atmosfera mais tranquila. Balões, máscaras e camisetas de super-heróis ajudam a transformar o momento do corte em uma experiência mais leve e lúdica.

Reconhecimento e desafios

Mesmo sendo referência na região, Emerson acredita que ainda há poucos profissionais preparados para atender crianças com TEA. “Eu dou aulas e treino profissionais, mas ainda são poucos os que realmente seguem o método”.

Segundo ele, muitas famílias chegam ao salão depois de experiências frustrantes em outros estabelecimentos. “Tem mãe que chega aqui chorando porque já passou por vários salões e não conseguiu cortar o cabelo do filho”.

Recentemente, o reconhecimento veio com o selo de Empresa Acessível, entregue pela Prefeitura de Santos. “Foi muito gratificante saber que a cidade está olhando para esse trabalho”.

Apesar disso, ele admite que muitas vezes se sente sozinho na missão de atender essas famílias. “Às vezes eu me sinto sozinho, porque sei da dificuldade que os pais enfrentam. Para mim cortar cabelo é simples, mas para uma mãe pode ser um sonho conseguir isso”.

Mais que um corte de cabelo

Ao longo da carreira, Emerson percebeu que seu trabalho vai além da estética. “Hoje eu chamo de corte-terapia. Muitas mães chegam aqui precisando conversar, desabafar”.

Um caso recente o marcou especialmente. Um empresário de Salvador viajou até Santos para levar o filho ao salão. “O pai veio de Salvador porque me encontrou pela internet. Durante o atendimento, percebi que havia um problema familiar: a mãe rejeitava o menino”, conta. “Eu não sou psicólogo, mas quando os pais me dão abertura eu converso. Às vezes a criança precisa de cuidado, mas a família também precisa”.

Para ele, o maior desafio agora é formar novos profissionais que possam dar continuidade ao atendimento especializado. “Eu quero deixar esse legado. Cortar cabelo pode parecer simples, mas para muitas famílias é um sonho conseguir passar por esse momento com tranquilidade”.

E deixa um conselho para barbeiros interessados em atuar na área. “Busquem conhecimento e tenham muito cuidado quando se dizem especialistas. Quando você fala que é especialista, vão chegar todos os casos possíveis”.





Fonte: Jornal Da Orla

Leia mais

PUBLICIDADE