O sol não sumiu. Mas ficou mais difícil de encontrar. Quem anda pela orla sabe. Há um momento em que a luz aparece e não dura. Surge entre edifícios, corta fachadas, escorre por frestas e desaparece, como se tivesse sido reduzida a um intervalo concedido.
E a gente anda. Um pouco para um lado. Um pouco para o outro. Como se fosse só questão de posição. Como se o problema estivesse nos nossos passos, e não no que foi erguido diante deles. Às vezes funciona. Às vezes não.
Eu paro sempre no mesmo ponto. Um banco de concreto gasto. Dali, se eu me mover alguns centímetros, ainda consigo ver. Um ajuste mínimo, quase um cálculo do corpo diante da cidade. Ainda. Mas não é a mesma coisa.
Houve um tempo em que não precisava procurar. O horizonte era inteiro, contínuo. O sol chegava completo, sem disputa, sem mediação. Não era preciso disputar com a forma construída o acesso ao que sempre foi comum.
Depois, a cidade cresceu. E cresceu ocupando tudo. Aos poucos. Como crescem as perdas que não se anunciam. Um edifício aqui, outro adiante. Uma empena cega, um recuo que desaparece, uma sombra que se alonga. E, quando se percebe, já não se trata de substituição. É sobreposição.
E talvez por isso ninguém tenha percebido direito. Porque sempre sobrava um pedaço. E quando sobra, a gente aceita.
Mas o que era inteiro virou fragmento. O que era paisagem virou intervalo. O pôr do sol virou esforço. E a gente normalizou. Normalizou ajustar o corpo, disputar centímetros de horizonte, aceitar que a luz depende de brechas.
Outro dia, alguém me perguntou se havia um lugar melhor para ver. Eu quase respondi que sim. Mas a resposta não era essa. Então eu disse: antes não precisava. E ficou um silêncio. E, ainda assim, um detalhe insistiu.
Um menino, mais adiante, tentava segurar o sol com a mão. Abrindo e fechando os dedos, como se pudesse encaixá-lo entre eles. Ninguém corrigiu.
Talvez porque ali ainda houvesse um resto do mundo que não aprendemos a regulamentar. Talvez porque, por um instante, tenha ficado claro o que foi perdido.
Talvez a pergunta nunca tenha sido apenas quem escondeu o sol. Quando foi que o horizonte deixou de ser um dado coletivo?
Se ainda dá para ver, por que aceitamos procurar? E, sobretudo: em que momento deixamos de perceber que não era o sol que se escondia, mas a cidade que passou a interpor-se entre nós e aquilo que sempre foi comum?
Porque o problema nunca foi a ausência da luz. Foi a forma como aprendemos a conviver com sua redução.
Fonte: Jornal Da Orla


