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Serenar, silenciar… para renascer – Jornal da Orla


Chega o outono. Sutilmente, a natureza começa a se recolher. Os pássaros, antes tão barulhentos em seus cantos matinais, estão agora mais contidos, como se também percebessem a mudança do tempo. O ar esfria lentamente e os dias ficam mais curtos. A luz do sol chega mais suave. Nos jardins, as folhas perdem o vigor e ganham tons dourados, ocres e avermelhados, compondo um silencioso espetáculo de despedida.

Há um serenar, um silenciar. É a sabedoria ancestral da natureza agindo nesse recolhimento, que sempre precede o renascimento. Nada nela acontece por acaso: cada pausa guarda em si uma promessa de continuidade.

Semelhantes ao ambiente natural, necessitamos também de um tempo para nos recolhermos, para refletirmos sobre acontecimentos e pessoas. Tempo para eliminarmos o velho, a fim de que o novo possa surgir. Tempo para darmos fim ao supérfluo, ao custoso demais, ao que, de alguma forma, esteja impedindo a harmonia, a leveza e o prazer de viver. Esse recolhimento não é perda: é preparação.

Trabalhar mudanças, entretanto, nem sempre é uma tarefa fácil. Começamos quase sempre por querer transformar o que nos rodeia, fisicamente. Assim, em um amanhecer qualquer, levantamos e vamos direto ao guarda-roupa separar o que não nos serve mais e levar embora. Fazemos isso também em outras épocas do ano, quase sempre para atender a quem precisa, mas, no outono, o desejo de ficarmos livres do que não faz mais sentido parece maior.

Olhamos para os livros e encontramos aqueles que nos trouxeram tantas lições, mas que há muito permanecem fechados, acumulando pó. Decidimos entregá-los a novos leitores, permitindo que suas páginas sigam cumprindo o destino de ensinar e emocionar. Os objetos da casa pedem para mudar de lugar, talvez em busca de melhores ângulos para serem apreciados ou simplesmente para afastar a monotonia dos ambientes.

A exigência por transformações prossegue e logo chega a outro patamar: o nosso interior. Lá vamos nós, vasculhar o que pode ser mudado. Não é preciso mais do que alguns minutos para nos lembrarmos de situações em que a inflexibilidade, o egoísmo, a falta de empatia e tantos outros comportamentos e sentimentos dificultaram as relações do dia a dia. Talvez seja este o momento para avaliarmos o que foi plantado e colhido, selecionando o que vale a pena preservar em nossa maneira de agir e pensar.

A Filosofia assinala desde tempos distantes: um dos grandes desafios do homem é permitir-se mutável. É sair do comodismo oferecido por padrões de ação e pensamentos rígidos, intransigentes, obstinados. É permitir-se ser humano em plenitude, adaptando-se, aprendendo, aceitando situações que por vezes contrariam o modo de vida limitador que estabelecemos para nós mesmos.

Espelhando-nos na natureza, certamente alcançaremos maior serenidade. Flexível, ela desabrocha quando as condições são favoráveis e se recolhe no momento em que outras circunstâncias assim o exigem, como acontece agora, no outono.

Vivamos então – na plenitude – a estação que se apresenta e que tanto nos inspira a mudar o que não faz mais sentido em nossa vida. O outono é tempo de podar as plantas para que tenham vigor na primavera. Por que não “cortar” também o que já está desgastado, o que perdeu o sentido, para que possamos voltar a florescer e espalhar, ao nosso redor, sementes de alegria e renovação?



Fonte: Jornal Da Orla

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