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Diretor da Unifesp-BS fala da importância e desafios da universidade pública


Biólogo com toda sua formação (graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em biologia molecular) realizada ne Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Odair Aguiar Junior, chegou a Santos em 2006, após ser aprovado no concurso para docente na primeira turma de professores do recém-criado campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-BS). Desde 2019, é o diretor acadêmico desta universidade pública que é uma conquista da região. Nesta entrevista ao Jornal da Orla, o professor Odair fala da importância e dos desafios universidade pública.

A conquista da universidade pública para a região veio após uma longa luta. Como você resume essa trajetória?
O campus da Baixada Santista foi o primeiro do projeto de expansão da Unifesp, no primeiro governo Lula. Em 2003, antes de iniciarmos aqui em Santos, eram cinco cursos no estado, mais focados na área da saúde. Hoje, a Unifesp tem 59 cursos de graduação. Santos continuou com a área da saúde e, a partir de 2012, começou com ciências do mar. Hoje, o Instituto Saúde e Sociedade (ISS) oferece os cursos de Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Terapia Ocupacional, Serviço Social e Psicologia. No Instituto do Mar (IMar), temos Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar e, a partir dele, três possibilidades: engenharia do petróleo, engenharia ambiental e oceanografia. Nos cursos de graduação, são cerca de 2.400 alunos. Mas temos pós-graduação com seis programas no ISS, e dois no IMar, com mestrado e doutorado.

Qual o impacto nas comunidades local e regional?
A gente consegue, com vários projetos de pesquisa e extensão, além da graduação, ter capilaridade na sociedade com trabalhos. A gente oferece desde o cursinho pré-vestibular Cardume, temos a graduação e vamos até a universidade aberta para a pessoa idosa. Durante a graduação, os alunos têm oportunidade de participar de vários projetos junto à sociedade. Temos os projetos de redução de danos, os da cultura oceânica, a atuação com a população que vive nas ruas. A gente tem atividades formativas que acontecem nos territórios. Há um eixo central de Trabalho em Saúde, no qual os alunos vão aos territórios, a discussão emerge da compreensão das diferentes realidades.

Como é a atuação junto à população que vive na rua?
Temos iniciativas que lidam diretamente com a população de rua. O programa Redução de Danos é voltado a pessoas que chegaram à situação de rua por questões ligadas à drogadição. A política de redução de danos é muito potente, aposta no diálogo e não na punição. Outras frentes também lidam com essa temática. A gente fica entristecido quando vê alguns grupos políticos, econômicos, o comércio, tratando essa temática como questão estética: “a população de rua está enfeiando meu caminho”. Uma ideia higienista. A universidade procura tratar quais são as raízes históricas, econômicas e sociais que levaram o indivíduo a viver na rua. Uma das ações é que estamos retomando com a Secretaria de Desenvolvimento Social de Santos conversa para um novo censo da população de rua na cidade.

Como é a interação das comunidades com a universidade?
A gente também faz a comunidade vir à universidade. Alternamos a convivência nos dois ambientes. Não somos apenas observador do problema alheio – vai lá e olha, como se fosse uma exposição. A gente vai para o território, convida a comunidade para estar com a gente, discute com ela as questões. Por exemplo, temos um novo curso no ISS, Licenciatura Intercultural Indígena, que traduz bem isso: a gente faz metade da formação na universidade e metade na aldeia. Já temos 80 alunos. Estamos licenciando pessoas que já atuam na sua comunidade como educadores.

Como se dá a atuação regionalmente?
É um desafio. Nosso campus é Baixada Santista, a gente tem atividades nos nove municípios, mas não tem pernas para estender os programas para todos. Então, a maioria das pessoas atendidas são de Santos. Por exemplo, o Programa de Ensino para o Trabalho pela Saúde (PET Saúde) já teve várias edições, como o PET Gradua SUS e agora o PET Equidade. Neste, há participação de Itanhaém, Guarujá e São Vicente. Temos ações, especialmente estagiários, em várias cidades. Estamos à disposição do Poder Público.

Com relação a cortes de verbas, como está a situação?
Tivemos crescente investimentos entre 2003 e 2015. O desafio das verbas vem a partir de 2015 para 2016, pós-impeachment da Dilma e início do governo Temer. Entre 2015 e 2016, houve queda vertiginosa no custeio e investimento. De 2023 para cá, houve uma recuperação, mas ainda não com valores suficientes. A Unifesp, somados todos os campi no estado, está com orçamento de cerca de R$ 78 milhões, sem considerar a folha de pagamento. Temos ainda valores de execução descentralizadas (recursos de ministérios) e de emendas parlamentares. Em 2022, a gente teve muito pouco recurso dessa descentralização, um descaso total com a universidade. Agora no governo Lula, temos a volta dos recursos, mas ainda aquém do necessário. Aqui na Baixada Santista, o orçamento está em torno de R$ 9 e 10 milhões, para custeio. O ideal seriam R$ 12 ou 13 milhões.

A que você atribui os ataques às universidades públicas?
Tenho ficado atento a esses movimentos de extrema direita. Observo dois pontos: um mais declarado, que diz que a universidade é eivada de militantes de esquerda. É uma deslegitimação de um espaço que ameaça, porque a extrema direita não tem estofo teórico – não quer ter – para fazer frente àquilo que as universidades produzem de teoria crítica social. É um ataque à pluralidade de pensamento. O segundo movimento tem uma narrativa que afirma que as pessoas que estão ganhando dinheiro hoje não têm faculdade, são youtubers, influencers. Vai na perspectiva neoliberal: o indivíduo é dono de si mesmo, não depende de formação teórica. Eu vejo que há um descolamento da sociedade em relação ao potencial da universidade. Não reconhece que remédios, vacinas e o próprio celular que o youtuber usa são produtos de conhecimento intelectual e de anos de experimentos feitos em laboratórios financiados com dinheiro público. A universidade está no dia a dia. Inclusive no agro, são as universidades e as Embrapas que fazem pesquisa, melhoramentos de grãos etc.

Quais os planos de investimentos?
Temos duas grandes frentes. O terreno da rua Silva Jardim, em frente ao Edifício Mariângela Duarte. Nós fomos contemplados com R$ 25 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estamos iniciando a sondagem do terreno e o projeto já está na Prefeitura, para construção do parque poliesportivo do campus, uma dívida histórica nossa com os cursos de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Será também um espaço coletivo, com quadra poliesportiva, piscina, laboratórios. Depois, atrás do antigo Colégio Docas, a gente tem um projeto já aprovado pela Prefeitura, de construção de mais duas lâminas de edifício, juntamente com o restauro do colégio para implantação de um serviço escola integrada na área da saúde. Só que para esse terreno, ainda não temos sinalização de recursos. Temos, ainda, um grande desafio que é consolidar a sede do IMar e aglutinar toda área de ciências do mar, porque o prédio o prédio da Carvalho de Mendonça não dá conta. Mas temos um terreno na rua Maria Máximo (Ponta da Praia) e buscamos junto à Administração Municipal, o Porto e os ministérios recursos para construir ali nossos prédios. Hoje, temos a sede na Silva Jardim, com o ISS, o prédio da Carvalho, com o IMar, salas no prédio na XV de Novembro (Centro), com cursos dos dois institutos – aliás, uma parceria muito valorosa com a Prefeitura. E temos na Augusto Severo o serviço escola de Psicologia e a direção do campus, que ocupam um andar, além da unidade da Maria Máximo, onde funcionam algumas atividades do IMar.



Fonte: Jornal Da Orla

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