Em meados dos anos 1980, após mais de duas décadas do regime ditatorial iniciado em 1964, os militares e seus asseclas civis deixavam um país assolado pelos altos índices de inflação – mais de 200% ao ano (a título de comparação, em 2025, a inflação anual foi de 4,26%). As esperanças foram depositadas nas eleições diretas, com o movimento Diretas Já!, em 1984. Porém, um Congresso amedrontado pela possibilidade da abertura política irrestrita barrou a proposta e um Colégio Eleitoral, de maneira indireta, elegeu Tancredo Neves presidente e José Sarney vice. A morte de Tancredo, antes mesmo de assumir o cargo, foi outro golpe no projeto de redemocratização. Sarney assume com a tarefa prioritária de reduzir a inflação. Assim, há exatos 40 anos, em 28 de fevereiro de 1986, surgia o Plano Cruzado, primeiro de uma série de planos econômicos implementados no país. Nesta entrevista ao Jornal da Orla, o cientista político e coordenador da pós-graduação em Direito da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Alcindo Gonçalves, 73 anos, analisa aquele momento e as consequências do plano.
Em qual contexto surge o Plano Cruzado?
O Plano Cruzado marca a transição do regime militar, da ditadura, para o regime democrático, com a grande mobilização popular em torno das eleições diretas, a eleição do Tancredo. Claro que essa transição foi de maneira suave, não houve julgamentos, nem prisões, como aconteceu na Argentina, por exemplo. Os militares saíram de cena sem grandes traumas, mas a inflação já estava em patamares absurdos. O último governo militar, do general João Batista de Figueiredo, viu explodir as taxas de inflação. Então, se esperava naquele momento uma resposta. Nunca se sabe qual seria a resposta que o Tancredo Neves daria. Com a assunção do Sarney à presidência, lançou-se o Plano Cruzado, não por iniciativa propriamente dele, mas do ambiente político do MDB, dos economistas ligados ao Ulisses Guimarães.
Foi um plano bastante heterodoxo e que ruiu rapidamente, por quê?
Um plano heterodoxo, com congelamento de preço, que num primeiro momento encantou, porque de fato provocou um choque de estabilidade. Mas tinha pernas curtas, tanto é que, em poucos meses, fez água, não chegou a atingir seus objetivos. A inflação logo retornou, seguiram-se outros planos: Cruzado 1, Cruzado 2, mas foram inúteis, porque o modelo de congelamento de preços, da maneira como foi feita, provocou desabastecimento e não tinha sustentação econômica. Mas teve grande sustentação política, tanto que o MDB conseguiu, nas eleições de 1986, eleger quase todos os governadores e fazer ampla maioria no Congresso Nacional. Mas em seguida a coisa vai se complicando, outros planos vêm e fracassam e o governo Sarney vai claudicando, com baixíssimos índices de popularidade.
Os chamados fiscais do Sarney, que vigiam para que os preços no comércio não fossem alterados, espelhava adesão popular?
Sem dúvida, os fiscais espelham grande adesão popular ao Plano. O Brasil estava cansado daquela inflação absurda e enxergou uma chance real de sair do buraco. Mas quando se congelou preços, o consumo aumentou sem incentivo à produção, os produtos começaram a sumir das prateleiras. Embora tenha sido um Plano bem intencionado, com economistas sérios, foi uma coisa bastante improvisada. Do ponto de vista político, ele teve efeitos, claro, inclusive com aumento da popularidade do Sarney, além da eleição dos governadores. Na época em que surgiu o Cruzado, as pessoas recebiam salário e corriam para fazer compra para tentar garantir o preço do dia. O povo que ganhava pouco, não tinha conta bancária, nem dinheiro para aplicar, sofreu duramente. A classe média, que ainda recebia o dinheiro e deixava na conta, porque havia uma certa valorização automática, se defendia mais ou menos. Mas era uma coisa de maluco, a imprevisibilidade para a economia e para o empresários, ninguém investe. Antes do Cruzado, ninguém fiscalizava nada. As pessoas simplesmente corriam para comprar e driblar a alta constante de preços.
O país passou por uma série de experiências econômicas?
Mas nunca tinha sido feito um plano efetivo para atacar diretamente o problema da hiperinflação. O Plano Cruzado foi o primeiro. Não deu certo, a ele se seguiram vários outros, com curta duração: Plano Bresser, Bresser II, Plano Verão, depois o Fernando Collor. As moedas foram sendo trocadas. O Plano Real, em 1994, tem características bem diferentes e do ponto de vista macroeconômico é muito mais ajustado. A coisa funcionou, mas não era um congelamento e sim um ajuste integral. Tanto é que deu certo, pois até hoje a inflação nunca mais voltou aos patamares de antes. Houve ajustes econômicos, mas nenhum plano mais. Quem liderou o Cruzado e os que se seguiram foram Dilson Funaro, João Manoel Cardoso de Melo, depois o Luiz Carlos Bresser Pereira. Todos eles economistas ligados historicamente ao MDB. Mas combater hiperinflação não é tarefa simples e acho que precisou essa trajetória de erros e falhas, até criar uma maturidade que desemboca no Plano Real, que vai ter uma estrutura política sólida. A diferença é que o Plano Cruzado causou uma euforia instantânea. Já o Real não; todos ficamos olhando para ver o que seria. O país estava cansado, escaldado por vários planos que não deram certo. Aos poucos, o Plano Real ganhou consistência e força. A inflação nunca mais disparou.
O MDB que é oriundo do período de ditadura, certo?
Sim. Tanto é que quando os partidos políticos são extintos, em 1965/66, foram criados os dois partidos: a ARENA, da situação, e o MDB da oposição, mas não muito; uma oposição consentida pelo regime. Bem ou mal, o MDB começou fraco e, à medida que a insatisfação com o regime aumentava, o partido foi se fortalecendo. Em 1978, elegeu 16 senadores, foi um ano importante – a única eleição majoritária àquela época era para o Senado, não havia eleição para governador. Foi quando se elegeu Orestes Quércia em São Paulo, Itamar Franco em Minas Gerais. O Ulisses Guimarães foi o anticandidato à presidência da República, na eleição do Geisel, em 1974. E havia economistas ligados ao partido que eram respeitáveis do ponto de vista econômico.
Sarney se tornou um dos governos mais impopulares. Por que o Cruzado não deu certo?
Combater hiperinflação é uma tarefa complicadíssima. Não se faz da noite para o dia, e não havia experiência. Foi um processo de tentativa e erro. O que aconteceu foi que o Plano Cruzado e o Plano Bresser (1987), que ainda é no governo do Sarney, não deram certo. Em paralelo, o Sarney era um cara que tinha problema de origem: vinha do regime militar, da velha política; não tinha legitimidade popular. Ele surfou no Plano Cruzado, no congelamento de preços. Depois que o plano fez água, as críticas foram muitas, tanto que na sucessão dele, todos os candidatos, inclusive o Fernando Collor, que foi eleito, criticavam-no duramente. Era importante ser anti-Sarney. Não lembro se havia pesquisas naquela época, mas o governo dele deve ter terminado com baixíssimos índices de popularidade [pesquisas indicavam índices de rejeição entre 60 e 70%]. Aí vem o Plano Collor, que é uma coisa mais maluca, atabalhoada, com confisco da poupança. A inflação prosseguia e o Collor começou a mergulhar na desgraça, até o impeachment.

O cientista político Alcindo Gonçalves.
Pode-se atribuir a euforia com o Cruzado também ao fato de que havia muita esperança na redemocratização?
Acho que sim. Naquele momento, a população apoiava a mudança do regime, tanto é que participou ativamente da campanha das Diretas Já!. Depois, com a não aprovação da Emenda Dante de Oliveira (eleições diretas para presidente), aquele sentimento foi quase que totalmente transferido para que o Tancredo ganhasse no Colégio Eleitoral – as pessoas apostavam nele como alternativa. Tanto é que a morte dele foi uma comoção nacional. Havia, digamos assim, um certo capital político a favor da democracia que surgia, uma credibilidade que o regime militar não tinha naquele momento.
O cenário atual reflete o amadurecimento da democracia?
Sim. Nós temos democracia consolidada, instituições sólidas, tanto é que as tentativas de golpe de Estado não foram adiante. Houve um processo de redemocratização do país, com eleições, alternância no poder, transições dentro dos preceitos democráticos, com disputas políticas que são normais. É um amadurecimento político. Em paralelo, houve uma busca de caminhos econômicos: Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor etc., até o Plano Real, que é consequência desse processo. Tanto é que vivemos hoje num país que tem uma inflação controlada.
Amadurecimento econômico. E do ponto de vista social?
A gente ainda vive um país muito desigual, ainda que tenha havido avanços em políticas sociais. Temos profundos contrastes regionais. De fato, essa estabilidade político-econômica ainda deve ao social. As pessoas precisam ter mais renda, moradias, saúde, educação. O PT, de certa maneira, ao longo dos seus governos, promove reformas que tentam melhorar as condições sociais (salário mínimo, o SUS, bolsa família, educação), mas há muito por fazer. E há uma hegemonia conservadora na política brasileira que atua para favorecer as elites.
Fonte: Jornal Da Orla


