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´Orelhões` têm histórias, mas devem sumir das ruas até 2028


Há mais de quatro décadas, os Telefones de Uso Público (TUPs) passaram a fazer parte da paisagem urbana e rural do país. Tornaram-se tão populares e fundamentais no cotidiano dos brasileiros que o nome técnico foi esquecido, ficou o apelido: “orelhão”, em razão do formato assinado pela arquiteta chinesa radicada no Brasil, Chu Ming Silveira. Começaram a compor a cena, primeiramente, do Rio de Janeiro e São Paulo, no início dos anos 1970, até chegarem a ser mais de 1,5 milhão Brasil afora.

De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), atualmente, estão resumidos a cerca de 38 mil aparelhos, muitos destes já desativados. E devem sumir das ruas até 31 de dezembro de 2028. É que a partir deste ano, as empresas de telefonia fixa não têm mais obrigação de fazer a manutenção dos equipamentos, pois em dezembro de 2025 venceram os contratos de concessões do serviço.

No entanto, a retirada, ainda que gradual, não deixa de representar o fim de uma era, pois diante das mais avançadas das tecnologias digitais que põem o mundo na palma das mãos transformaram-se em espécie de monumento abandonado, memorial de dias menos apressados.

A aposentada Júnia La Scala, de 74 anos, se recorda das longas filas que se formavam diante dos orelhões, à espera da vez da usar o aparelho. “A gente chegava a esperar de meia hora a uma hora. Às vezes, a pessoa estava fazendo uma ligação e você precisava usar com urgência, mas tinha que ficar naquela fila enorme”. Ela também lembra que, quando as fichas foram substituídas por cartões, as pessoas colecionavam. “Meu ex-marido tinha um álbum de cartões de diferentes lugares, eram estampados, bonitos. Depois, vendeu, valia dinheiro”, diz.

Fichas, cartões e o disco com números para as ligações – além da local, a Discagem Direta a Distância (DDD) e a Internacional (DDI). Termos que não fazem sentido algum para o mundo dos conectados em tempo integral.

Os orelhões ganharam destaque em um tempo em que comprar um telefone fixo era como adquirir um automóvel, pagando em várias prestações. Um tempo em que falar ao telefone exigia algumas estratégias para baratear o alto custo das ligações: horários com preços diferenciados; discagem a cobrar; dizer rapidamente o que era para ser dito, para aproveitar ao máximo o tempo da ficha; andar com saquinhos de ficha para um bate-papo mais prolongado, entre outras artimanhas.

Rodrigo Montaldi usou orelhões como plataforma para sua exposição de fotos TransClandestinas, em 2020

DIVERSÃO E ARTE

Os aparelhos também têm espaço na cultura brasileira: ganharam o mundo da música, como em  ‘Apenas 3 minutos’, clássico da música brega de Barros de Alencar (“Eu tenho apenas 3 minutos para dizer que te amo”); e na televisão, com o Zé da Galera, personagem de Jô Soares que passava horas xingando o técnico da seleção brasileira à época (“Bota ponta, Telê!”). Mesmo hoje, o orelhão simboliza um período muito específico de nossa história (ditadura de 1964-1885): o cartaz do filme O Agente Secreto, com Wagner Moura, o mostra em um orelhão.

O barbeiro Luiz Meiller, de 55 anos, que cresceu no Marapé, “uma das diversões da molecada” era passar trote: ligar para um número qualquer, ou para a Polícia e Bombeiro, para falar bobagem, contar piada, enfim, para os mais jovens seria “trollar”, fazer “pegadinha”.

Luiz Meiller e o fone sem ´orelha` na barbearia.

Porém, Meiller tem ligação mais afetiva com o orelhão. Durante cinco anos, ele trabalhou com o Hilário Garcia Carvalho, o barbeiro Hilário Jabuca, torcedor símbolo do Jabaquara Atlético Clube, que morreu em 2023, aos 89 anos. Luiz Meiller comprou o ponto da barbearia, no centro de Santos. Ali, fixo na parede há mais de 30 anos está um TUP, sem a icônica ´orelha`, mas cheio de história. “Havia um rapaz, vendedor de doces que passava e parava para namorar. Fazia ligação a cobrar e ficava de 30 a 40 minutos falando baixinho, enquanto a gente atendia os clientes. Clientes ligavam para o número do aparelho e agendavam corte de cabelo e barba com o Hilário. Ainda hoje, desperta curiosidade, as pessoas passam e param para ver e mostrar para crianças aquele tipo de telefone. Aliás, até o começo do mês, a linha estava ativada”, conta.

Não se sabe o fim que terão os equipamentos, mas há artistas que encontram destinos nobres para os orelhões. Em São Paulo, o luthier Ricardo Bressan constrói instrumentos musicais com eles. Em Santos, o fotógrafo Rodrigo Montaldi os usou como plataforma para a exposição de fotos TransClandestinas, em 2020, resultado de uma pesquisa que ele fez com mulheres trans que vivem pelas ruas. A exposição circulou por diversos espaços santistas e foi levada para o Centro Cultural Patrícia Galvão, junto ao Teatro Municipal, na Vila Mathias.

Estado de São Paulo ainda tem 28 mil aparelhos em operação

No estado de São Paulo, até dezembro de 2025, havia aproximadamente 28 mil TUPs em operação, cerca de 1.200 na Baixada Santista, de acordo com dados da Anatel. Mas a “utilização caiu 93% nos últimos cinco anos, evidenciando que os orelhões deixaram de fazer parte da rotina das pessoas”, informa a Vivo. Em nota enviada ao Jornal da Orla por intermédio da Assessoria de Imprensa, a empresa garante que manterá, até o final de 2028, os orelhões ativos em localidades atendidas exclusivamente pela operadora, “ainda que seu uso seja praticamente inexistente”. A retirada dos aparelhos ocorrerá ao longo do ano, “seguindo um cronograma baseado em critérios operacionais, de segurança e de conformidade regulatória”.

Com o fim dos contratos referente aos TUPs, a Anatel garante que as empresas se comprometeram a realizar investimentos em infraestrutura de telecomunicações: implantação de fibra óptica em localidades desprovidas dessa infraestrutura, instalação de antenas de telefonia celular (com tecnologia mínima 4G) em áreas sem cobertura adequada, expansão da rede móvel, implantação de cabos submarinos e fluviais, a conectividade em escolas públicas e a construção de data centers.

“O novo modelo de atuação permitirá à Vivo direcionar investimentos para tecnologias mais relevantes para a população, como a ampliação da cobertura 4G e 5G em mais de mil municípios nos próximos anos, aumento da capacidade de rede em centenas de localidades e modernização da infraestrutura de fibra”, diz a nota da empresa.

Na prática, cerca de 9 mil telefones de uso coletivo permanecerão ativos em cidades onde não haja ao menos o sinal 4G para a rede móvel.



Fonte: Jornal Da Orla

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