{"id":87313,"date":"2026-07-29T09:25:04","date_gmt":"2026-07-29T12:25:04","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/sobre-seres-humanos-carater-e-nossos-tempos\/"},"modified":"2026-07-29T09:25:04","modified_gmt":"2026-07-29T12:25:04","slug":"sobre-seres-humanos-carater-e-nossos-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/sobre-seres-humanos-carater-e-nossos-tempos\/","title":{"rendered":"Sobre seres humanos, car\u00e1ter e nossos tempos"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>H\u00e1 algum tempo, tenho procurado escrever textos que apontem caminhos, valorizem bons exemplos e mostrem que ainda existem motivos para acreditar nas pessoas. Continuo convencido de que esse \u00e9 o melhor caminho. Mas h\u00e1 momentos em que a realidade nos obriga a encarar aquilo que prefer\u00edamos n\u00e3o ver.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, epis\u00f3dios envolvendo trabalhadores que exercem profiss\u00f5es essenciais revelaram uma face profundamente preocupante da sociedade brasileira. Em um telejornal, um jornalista conseguiu transformar uma mensagem de fim de ano em motivo de indigna\u00e7\u00e3o ao afirmar que os garis seriam \u201ca camada mais baixa da sociedade\u201d. No ano passado, um empres\u00e1rio matou a tiros um coletor de lixo que simplesmente fazia o seu trabalho.<\/p>\n<p>Nesta semana, outra trag\u00e9dia: um empres\u00e1rio embriagado atropelou e matou um jovem de apenas 19 anos, casado, pai de um filho e com a esposa gr\u00e1vida de sete meses. Tamb\u00e9m era um trabalhador da coleta de lixo.<\/p>\n<p>S\u00e3o hist\u00f3rias diferentes, mas todas exp\u00f5em o mesmo problema: a tend\u00eancia de medir o valor de uma pessoa pela profiss\u00e3o que exerce, como se alguns trabalhos fossem mais dignos do que outros. N\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma sociedade s\u00f3 existe porque milh\u00f5es de pessoas desempenham fun\u00e7\u00f5es diferentes e igualmente indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos, professores, agricultores, motoristas, cozinheiros, pedreiros, faxineiros, policiais, atendentes, entregadores, coletores de lixo, garis e tantos outros mant\u00eam as cidades funcionando diariamente. Basta imaginar poucos dias sem coleta de lixo para perceber o tamanho da import\u00e2ncia de um trabalho que muita gente s\u00f3 nota quando deixa de ser realizado.<\/p>\n<p>A raiz desse problema vai muito al\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o formal. Ela passa pela forma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, pela constru\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter e por uma vis\u00e3o de mundo mais humanista, capaz de ensinar que todo ser humano possui a mesma dignidade. Respeito, empatia, humildade e solidariedade n\u00e3o podem ser apenas palavras bonitas. Precisam fazer parte da educa\u00e7\u00e3o dentro de casa, da escola e da conviv\u00eancia em sociedade.<br \/>O reconhecimento da dignidade humana n\u00e3o pode depender do cargo que algu\u00e9m ocupa, do sal\u00e1rio que recebe, da roupa que veste, do bairro onde mora ou da vis\u00e3o pol\u00edtica que defende. Pol\u00edtica deveria existir justamente para promover o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, de toda a popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o para dividir pessoas entre as que merecem respeito e as que podem ser desprezadas.<\/p>\n<p>Infelizmente, o Brasil ainda convive com uma cultura que, muitas vezes, mede o valor das pessoas pelo dinheiro, pelo poder ou pelo status. Quem limpa, serve, constr\u00f3i, dirige ou recolhe o lixo frequentemente \u00e9 tratado como invis\u00edvel. Em situa\u00e7\u00f5es extremas, passa a ser visto como algu\u00e9m que vale menos.<\/p>\n<p>Essa talvez seja uma das maiores distor\u00e7\u00f5es morais do nosso tempo. O trabalho dignifica. Nunca diminui ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que existem milh\u00f5es de brasileiros honestos, trabalhadores e solid\u00e1rios. S\u00e3o eles que sustentam este pa\u00eds todos os dias. O problema \u00e9 que quase nunca ocupam as manchetes. O espa\u00e7o costuma ser tomado por quem humilha, agride, amea\u00e7a ou usa a viol\u00eancia para se impor. Os bons acabam silenciados pelo barulho produzido por quem n\u00e3o tem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>Talvez a maior crise brasileira n\u00e3o seja apenas econ\u00f4mica, pol\u00edtica ou institucional. Talvez seja, antes de tudo, uma crise de valores. Quando uma profiss\u00e3o passa a definir o valor de um ser humano, alguma coisa muito profunda j\u00e1 se rompeu. E quando a vida de algu\u00e9m passa a valer menos por causa da fun\u00e7\u00e3o que exerce, perdemos de vista aquilo que deveria ser o fundamento de qualquer sociedade civilizada.<\/p>\n<p>Continuarei preferindo escrever sobre esperan\u00e7a. Mas esperan\u00e7a n\u00e3o significa fechar os olhos para a realidade. Significa acreditar que ainda \u00e9 poss\u00edvel reconstruir uma cultura de respeito, de humanidade e de reconhecimento de que toda profiss\u00e3o tem sua import\u00e2ncia e de que toda vida, sem exce\u00e7\u00e3o, merece a mesma dignidade..<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/sobre-seres-humanos-carater-e-nossos-tempos\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo, tenho procurado escrever textos que apontem caminhos, valorizem bons exemplos e mostrem que ainda existem motivos para acreditar nas pessoas. Continuo convencido de que esse \u00e9 o melhor caminho. Mas h\u00e1 momentos em que a realidade nos obriga a encarar aquilo que prefer\u00edamos n\u00e3o ver. 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