{"id":86915,"date":"2026-07-19T06:46:44","date_gmt":"2026-07-19T09:46:44","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-cidade-e-um-territorio-de-disputa-quem-vai-ganhar-qual-cidade-queremos\/"},"modified":"2026-07-19T06:46:44","modified_gmt":"2026-07-19T09:46:44","slug":"a-cidade-e-um-territorio-de-disputa-quem-vai-ganhar-qual-cidade-queremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-cidade-e-um-territorio-de-disputa-quem-vai-ganhar-qual-cidade-queremos\/","title":{"rendered":"\u201cA cidade \u00e9 um territ\u00f3rio de disputa. Quem vai ganhar? Qual cidade queremos?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Professor aposentado, mas atuante no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP\/S\u00e3o Carlos, o arquiteto Carlos Roberto Monteiro de Andrade estuda a obra de Saturnino de Brito desde 1987. Acompanha tudo sobre o engenheiro sanitarista que projetou os canais de Santos, onde Carlos tamb\u00e9m deu aulas (na UniSantos). Ele esteve na Cidade em junho para o lan\u00e7amento do Movimento em Defesa dos Canais e conversou com o <em>Jornal da Orla<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Qual a import\u00e2ncia do trabalho de Saturnino?<\/strong><\/p>\n<p>Saturnino trabalhou em 40 cidades brasileiras. Santos foi um momento importante. Ele j\u00e1 tinha trabalhos em Campos (Rio de Janeiro), sua cidade natal. Tinha projeto para Vit\u00f3ria (Esp\u00edrito Santo), um plano de 1923, mas executado 30 anos depois. Mas Santos foi talvez o primeiro de maior destaque, que d\u00e1 in\u00edcio a uma s\u00e9rie de projetos similares. Ele marca a sua trajet\u00f3ria profissional com os canais de Santos, at\u00e9 por conta de ter planejado, projetado e realizado; acompanhou as obras e deixou sucessor acompanhando, como Louren\u00e7o Baeta Neves. \u00c9 um trabalho que configura a paisagem urbana, com destaque enorme para uma cidade que n\u00e3o tinha infraestrutura.<\/p>\n<p><img alt=\"\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-262710\" src=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CANAL-2-CARLOS-NOGUEIRA-PMS-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CANAL-2-CARLOS-NOGUEIRA-PMS-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CANAL-2-CARLOS-NOGUEIRA-PMS-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CANAL-2-CARLOS-NOGUEIRA-PMS-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CANAL-2-CARLOS-NOGUEIRA-PMS.jpg 1400w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" data-eio=\"l\"\/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Santos seria vi\u00e1vel sem o projeto de Saturnino?<\/strong><\/p>\n<p>Havia outros planos. O Saturnino vai marcar o seu com os canais a c\u00e9u aberto. Os canais como um sistema de circula\u00e7\u00e3o, conjunto de bulevares onde voc\u00ea tem tamb\u00e9m o tabuleiro gramado, a cal\u00e7ada arborizada, os passadi\u00e7os e toda uma arquitetura que acompanha os canais, que \u00e9 o que marca a paisagem santista at\u00e9 hoje. Os canais s\u00e3o os elementos de identifica\u00e7\u00e3o do santista, do usu\u00e1rio de Santos. Bulevar no qual voc\u00ea tem canais de drenagem que s\u00e3o concebidos como elemento configurador da paisagem e, ao mesmo tempo, t\u00eam funcionalidade muito eficiente.<\/p>\n<p><strong>Saturnino inova em solu\u00e7\u00f5es de engenharia?<\/strong><\/p>\n<p>Como solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de engenharia, os canais s\u00e3o muito bem concebidos. S\u00e3o pioneiros na utiliza\u00e7\u00e3o do concreto armado em grandes obras p\u00fablicas. Saturnino \u00e9 um engenheiro que inventa, inova. Foi grande inovador t\u00e9cnico e da paisagem. Al\u00e9m de aspectos que s\u00e3o muito interessantes, porque ele pensa um sistema que vai desde o abastecimento de \u00e1gua domiciliar, o esgotamento domiciliar, em que ele elabora o desenho de elementos componentes desse sistema, como o sif\u00e3o, por exemplo. Ele vai patentear alguns sif\u00f5es para usar na separa\u00e7\u00e3o do sistema de esgotamento das \u00e1guas residu\u00e1rias, impedindo que o mau cheiro retorne pelos vasos, pelos ralos. Uma inven\u00e7\u00e3o muito engenhosa.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 um contexto de expans\u00e3o urbana, epidemias e a\u00e7\u00f5es higienistas. Os canais s\u00e3o tamb\u00e9m obra sanit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Totalmente. Saturnino \u00e9 reconhecido na Fran\u00e7a, por exemplo, pelos t\u00e9cnicos sanitaristas. Ele \u00e9 uma express\u00e3o da cultura higi\u00eanico-sanit\u00e1ria que o s\u00e9culo 19 formula e lega para o 20. \u00c9 engenheiro sanitarista. Voc\u00ea tem o s\u00e9culo 19 como o da higiene, presente no nascedouro do urbanismo, uma resposta \u00e0s epidemias decorrentes de m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, aumento da popula\u00e7\u00e3o, adensamento excessivo, m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o. Enfim, um subproduto da industrializa\u00e7\u00e3o que vai marcar, sobretudo, as cidades que est\u00e3o recebendo um grande n\u00famero de imigrantes, como \u00e9 o caso de Santos. As epidemias entram pelos portos ou t\u00eam nos portos um foco de irradia\u00e7\u00e3o eficiente. E o interessante no trabalho de Saturnino \u00e9 que ele impede que as epidemias continuem, arrefe\u00e7am, sobretudo aquelas transmitidas por vetores que se reproduzem em \u00e1gua estagnada. O princ\u00edpio fundamental que ele formula \u00e9 que as \u00e1guas t\u00eam que circular. Saturnino elabora um m\u00e9todo de fazer as \u00e1guas circularem ao longo dos canais, usando a energia das mar\u00e9s. Apropria-se de uma forma de energia muito criativa, com abertura e fechamento dos canais, na subida e descida das mar\u00e9s, controle das adufas, de mar a mar. Solu\u00e7\u00e3o inventiva e eficiente.<\/p>\n<p><strong>Ainda hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Claro. Mas exigem manuten\u00e7\u00e3o permanente. O que se constata \u00e9 que houve per\u00edodos em que se teve cuidado na manuten\u00e7\u00e3o dos canais, na sua reforma, limpeza, identifica\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amentos clandestinos, porque os canais s\u00e3o canais de drenagem de \u00e1guas pluviais apenas. Na hora que voc\u00ea tem lan\u00e7amento de esgoto, voc\u00ea vai contaminar o canal. Isso varia muito de gest\u00e3o para gest\u00e3o. N\u00e3o houve um processo linear de manuten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, satisfat\u00f3ria. Ao mesmo tempo, os canais de Santos, ainda que sejam elemento da identidade da paisagem, s\u00e3o vistos como local com valor imobili\u00e1rio diferenciado, est\u00e3o sob press\u00e3o enorme dos interesses imobili\u00e1rios, de incorporadoras. Eles n\u00e3o escapam da disputa que a cidade apresenta entre interesses restritos, muitas vezes ligados aos neg\u00f3cios imobili\u00e1rios, e uma perspectiva de defesa da mem\u00f3ria, da manuten\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o rico do ponto de vista urban\u00edstico, de conv\u00edvio. Quando eu coloco no lugar de quatro im\u00f3veis de pequeno gabarito um edif\u00edcio com 30 andares, com andares de garagens fechadas, o que antes era \u00e1rea perme\u00e1vel e rica de atividades vira uma muralha. Voc\u00ea desfigura totalmente o espa\u00e7o urban\u00edstico, al\u00e9m de criar uniformidade, perda da vitalidade que o espa\u00e7o dos canais apresentam. Saturnino pensa os canais sob forte inspira\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de passeio, percurso pela cidade. Ent\u00e3o, al\u00e9m de passar por varia\u00e7\u00f5es no processo de manuten\u00e7\u00e3o, os canais s\u00e3o periodicamente amea\u00e7ados por ideias como: \u201cvamos tampon\u00e1-los para fazer estacionamento\u201d; \u201ctirar as \u00e1rvores porque elas sujam, abrir avenidas\u201d. Uma perspectiva totalmente contr\u00e1ria a uma boa cidade.<\/p>\n<p><strong>Como equacionar essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem uma solu\u00e7\u00e3o, nem duas solu\u00e7\u00f5es. A cidade \u00e9 um territ\u00f3rio de disputa. Quem vai ganhar? Santos \u00e9 uma ilha, tem uma capacidade de suporte e limite, n\u00e3o adianta querer extrapolar. Em Nova Iorque, o solo est\u00e1 rebaixando pelo peso dos edif\u00edcios. O tamponamento de canais, de cursos d\u2019\u00e1gua, em S\u00e3o Paulo \u00e9 refer\u00eancia de p\u00e9ssimos exemplo. Qual cidade queremos? \u00c9 uma quest\u00e3o que tem que ser definida com a participa\u00e7\u00e3o ativa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/a-cidade-e-um-territorio-de-disputa-quem-vai-ganhar-qual-cidade-queremos\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor aposentado, mas atuante no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP\/S\u00e3o Carlos, o arquiteto Carlos Roberto Monteiro de Andrade estuda a obra de Saturnino de Brito desde 1987. Acompanha tudo sobre o engenheiro sanitarista que projetou os canais de Santos, onde Carlos tamb\u00e9m deu aulas (na UniSantos). 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