{"id":86279,"date":"2026-07-06T17:35:23","date_gmt":"2026-07-06T20:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/djamila-ribeiro-fala-sobre-lugar-social-desigualdades-e-privilegios\/"},"modified":"2026-07-06T17:35:23","modified_gmt":"2026-07-06T20:35:23","slug":"djamila-ribeiro-fala-sobre-lugar-social-desigualdades-e-privilegios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/djamila-ribeiro-fala-sobre-lugar-social-desigualdades-e-privilegios\/","title":{"rendered":"Djamila Ribeiro fala sobre lugar social, desigualdades e privil\u00e9gios"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>\u201cLugar de fala\u201d, instigante reflex\u00e3o proposta pela fil\u00f3sofa e escritora Djamila Ribeiro, n\u00e3o tem a ver com calar algu\u00e9m. \u201cTodo mundo pode falar sobre tudo. O importante n\u00e3o \u00e9 o que se fala, mas de onde se fala\u201d, afirma a autora. O fato \u00e9 que o conceito se popularizou. Djamila conquistou novos espa\u00e7os, tornou-se uma intelectual influente e viveu um longo per\u00edodo como professora e conferencista em universidades nos EUA, Fran\u00e7a, Alemanha e Portugal. De volta ao Brasil, ela relan\u00e7a uma vers\u00e3o ampliada de \u201cLugar de Fala\u201d e conta com os aux\u00edlios luxuosos da escritora portuguesa Grada Kilomba (apresenta\u00e7\u00e3o) e da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (pref\u00e1cio). Em 25 de junho, em Santos para uma aula magna na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e muitos aut\u00f3grafos, Djamila conversou com o <strong>Jornal da Orla<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>O que mudou na nova edi\u00e7\u00e3o e no seu modo de pensar lugar de fala?<\/strong><br \/>A primeira edi\u00e7\u00e3o foi em 2017 e o livro se tornou um best-seller. Com a populariza\u00e7\u00e3o vieram muitas simplifica\u00e7\u00f5es ao conceito, o que eu acho que faz parte tamb\u00e9m. Tem um ponto positivo, porque pelo menos saiu do c\u00edrculo acad\u00eamico, acabou se tornando um vocabul\u00e1rio na nossa sociedade. E como voc\u00ea disse muito bem, o lugar de fala n\u00e3o \u00e9 o que se fala, mas de onde se fala. \u00c9 a gente marca o lugar social, at\u00e9 para que a gente possa entender a origem social das desigualdades, at\u00e9 para que a gente possa entender por que n\u00e3o tem tantas pessoas negras, por exemplo, como refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica. Quando a gente entender esse lugar social, um lugar marcado por desigualdade, a gente vai compreender por que essas produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o como deveriam estar. Marcar \u00e9 importante para reconhecer as opress\u00f5es, os privil\u00e9gios, para que a gente tamb\u00e9m n\u00e3o os naturalize, porque as pessoas v\u00e3o acreditar que os seus privil\u00e9gios s\u00e3o naturais e n\u00e3o constru\u00eddos \u00e0 base de opress\u00e3o de outros grupos. Nessa nova edi\u00e7\u00e3o, agora publicada pela Record, eu trago cap\u00edtulos novos, porque foram quase 10 anos desde a primeira publica\u00e7\u00e3o, muitos debates surgiram. Ent\u00e3o \u00e9 um encontro entre a autora de 2017 e a de agora, mediada por essas transforma\u00e7\u00f5es sociais que aconteceram na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 lugar de fala, a partir de toda essa nova viv\u00eancia?<\/strong><br \/>Eu n\u00e3o mudei o conceito, eu ampliei, porque, por exemplo, na edi\u00e7\u00e3o nova, estou pensando no lugar de fala no jornalismo, no marketing de influ\u00eancia, na teoria feminista. Acho que n\u00e3o \u00e9 uma revis\u00e3o pontual, mas sim uma amplia\u00e7\u00e3o substancial de como \u00e9 poss\u00edvel pensar o lugar de fala tamb\u00e9m em outras frentes.<\/p>\n<p><strong>Em suas experi\u00eancias acad\u00eamicas nos EUA e na Europa, o que viu l\u00e1 que difere daqui?<\/strong><br \/>\u00c9 bom pensar lugares de fala no sentido de saber por que as produ\u00e7\u00f5es ainda legitimam como centralidade o pensamento hegem\u00f4nico europeu. Nessas experi\u00eancias l\u00e1 fora, uma coisa que eu prestei aten\u00e7\u00e3o foi que a nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente no Brasil e como n\u00f3s desmerecemos o nosso pa\u00eds. Nossa forma\u00e7\u00e3o educacional n\u00e3o deve nada. Eu cheguei l\u00e1 para dar aula e muitas vezes eu me sentia um pouco assustada, porque nos EUA h\u00e1 uma produ\u00e7\u00e3o muito centrada no pr\u00f3prio EUA. Na Europa, \u00e9 muito centrada na Europa. O quanto eles desconhecem as produ\u00e7\u00f5es que v\u00eam da Am\u00e9rica Latina, de \u00c1frica, dos pa\u00edses asi\u00e1ticos. A gente chega com uma vis\u00e3o muito mais rica de entendimento do mundo, porque no Brasil a gente tem mais acesso a essas vis\u00f5es. L\u00e1, claro, tem uma estrutura diferente, que infelizmente no Brasil a gente ainda n\u00e3o tem, como maior investimento em pesquisa, bibliotecas\u2026 \u00c9 o lado positivo. Mas eu acho que no Brasil a nossa forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve nada e a gente deve pensar e valorizar as produ\u00e7\u00f5es daqui. Estudei filosofia, e s\u00f3 o pensamento europeu. Quando eu quis estudar o pensamento africano, eu ouvia professores dizerem que isso n\u00e3o existia. Ent\u00e3o, o Brasil tamb\u00e9m acaba reproduzindo esse pensamento hegem\u00f4nico; precisa trazer mais as produ\u00e7\u00f5es do Sul global.<\/p>\n<p><strong>Universidades p\u00fablicas, cursinhos populares e as cotas sofrem constantes ataques. Como voc\u00ea v\u00ea essa quest\u00e3o?<\/strong><br \/>Acho que isso acontece justamente porque n\u00f3s avan\u00e7amos. S\u00e3o recentes essas mudan\u00e7as no Brasil: a amplia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, a expans\u00e3o das universidades p\u00fablicas, a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas afirmativas. Isso mudou a cara da universidade, trouxe grupos que historicamente n\u00e3o tinham acesso e, claro, quem estava no poder se incomoda com esse avan\u00e7o. A gente est\u00e1 tendo uma rea\u00e7\u00e3o a avan\u00e7os nos \u00faltimos anos. Eu mesma sou fruto dessas pol\u00edticas de expans\u00e3o das universidades p\u00fablicas. Eu estudei num campus da Unifesp que foi fundado em 2007, da turma de 2008, foi onde eu me graduei, fiz o meu mestrado, j\u00e1 mais velha, com 27-28 anos que entrei na faculdade. Fui a primeira da minha fam\u00edlia a ter acesso \u00e0 universidade por conta de pol\u00edticas p\u00fablicas. Ent\u00e3o, quem sempre esteve no lugar do privil\u00e9gio se incomoda e a gente v\u00ea esses ataques. Mas acho importante reconhecer que os ataques acontecem porque avan\u00e7amos, porque a universidade come\u00e7ou a mudar de cara. E cabe seguir lutando, n\u00e3o tem outro caminho. Veja esse epis\u00f3dio da pol\u00edcia ser chamada para dentro da escola para questionar uma diretora por conta de uma representa\u00e7\u00e3o de Ians\u00e3. A gente percebe o quanto as produ\u00e7\u00f5es negras, as religi\u00f5es afro s\u00e3o demonizadas. As pessoas n\u00e3o veem problema em estudar mitologia grega, mitologia romana, mas quando estudam a mitologia iorub\u00e1, colocam nesse lugar da demoniza\u00e7\u00e3o a ponto de chamar policiais, sendo que a diretora simplesmente est\u00e1 seguindo a Lei 10.639, que inclui a hist\u00f3ria africana e afro-brasileira nas escolas. A gente ainda tem muito para avan\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong>Com frequ\u00eancia, intelectuais negros e negras s\u00e3o convidados para falar somente sobre racismo, por mais competentes que sejam em diversas \u00e1reas. Isso incomoda voc\u00ea?<\/strong><br \/>Existe essa quest\u00e3o de fixar as pessoas negras em determinados lugares e achar que a pessoa tem que abordar determinados temas. Mas, para mim, \u00e9 uma escolha pol\u00edtica tamb\u00e9m, como feminista que sou, de falar de v\u00e1rias autoras, de falar desses temas. E eu n\u00e3o me canso porque tamb\u00e9m falo de outros assuntos em outros espa\u00e7os. Mas acho que excluir a discuss\u00e3o racial, por exemplo, da quest\u00e3o educacional, n\u00e3o faz sentido, porque n\u00e3o tem como a gente falar de educa\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds sem falar da produ\u00e7\u00e3o das pessoas negras. Eu acho que a gente fala de ra\u00e7a e de g\u00eanero como coisas espec\u00edficas e n\u00e3o entende que falar desses temas \u00e9 de falar de estruturas. Ent\u00e3o, quando estou falando de habita\u00e7\u00e3o, estou falando da quest\u00e3o racial, se a maior parte da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua \u00e9 negra. Se falo de pol\u00edtica habitacional, estou falando da quest\u00e3o das mulheres, porque se coloca a escritura na m\u00e3o das mulheres. O problema \u00e9 que a gente trata como quest\u00e3o identit\u00e1ria \u2013 vis\u00e3o equivocada \u2013 e n\u00e3o percebe que est\u00e1 falando de projeto de poder.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/e-preciso-marcar-o-lugar-social-para-entender-a-origem-das-desigualdades-diz-djamila-ribeiro\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLugar de fala\u201d, instigante reflex\u00e3o proposta pela fil\u00f3sofa e escritora Djamila Ribeiro, n\u00e3o tem a ver com calar algu\u00e9m. \u201cTodo mundo pode falar sobre tudo. O importante n\u00e3o \u00e9 o que se fala, mas de onde se fala\u201d, afirma a autora. O fato \u00e9 que o conceito se popularizou. 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