{"id":78876,"date":"2026-05-14T09:55:59","date_gmt":"2026-05-14T12:55:59","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-falsa-abolicao-no-dia-13-e-o-interminavel-14-de-maio\/"},"modified":"2026-05-14T09:55:59","modified_gmt":"2026-05-14T12:55:59","slug":"a-falsa-abolicao-no-dia-13-e-o-interminavel-14-de-maio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-falsa-abolicao-no-dia-13-e-o-interminavel-14-de-maio\/","title":{"rendered":"A falsa aboli\u00e7\u00e3o no dia 13 e o intermin\u00e1vel 14 de maio"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>O 13 de maio de 1888 foi transformado, durante d\u00e9cadas, em s\u00edmbolo oficial da \u201cliberta\u00e7\u00e3o dos escravizados\u201d no Brasil. A assinatura da Lei \u00c1urea, redigida por apenas dois artigos, construiu no imagin\u00e1rio nacional a ideia de que a princesa Isabel teria concedido, por benevol\u00eancia, a liberdade ao povo negro.<\/p>\n<p>Entretanto, a hist\u00f3ria real \u00e9 muito mais complexa \u2014 e muito mais dura. A aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um presente. Foi resultado direto de s\u00e9culos de resist\u00eancia negra: quilombos, fugas, revoltas, sabotagens, irmandades e lutas cotidianas travadas por homens e mulheres negras escravizadas. Como denunciava Cl\u00f3vis Moura, a hist\u00f3ria oficial tentou apagar o protagonismo negro para sustentar o mito de uma aboli\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. O povo negro nunca aceitou passivamente a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a aboli\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m atendia aos interesses do capitalismo internacional, especialmente da Inglaterra, que pressionava pelo fim formal da escravid\u00e3o para ampliar mercados consumidores e consolidar o trabalho assalariado. O fim da escravid\u00e3o integrou uma reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica global.<\/p>\n<p>Se a popula\u00e7\u00e3o negra j\u00e1 dominava t\u00e9cnicas agr\u00edcolas e havia constru\u00eddo a riqueza do pa\u00eds, por que o Estado brasileiro financiou a imigra\u00e7\u00e3o europeia para substitu\u00ed-la? A resposta est\u00e1 no racismo estrutural institucionalizado. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, o Brasil implementou uma pol\u00edtica de branqueamento da popula\u00e7\u00e3o. Milhares de europeus receberam incentivos, terras e oportunidades, enquanto a popula\u00e7\u00e3o negra rec\u00e9m-liberta foi abandonada sem terra, moradia, educa\u00e7\u00e3o ou repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estado aboliu a escravid\u00e3o sem abolir o racismo. Por isso, muitos intelectuais e movimentos negros afirmam que o verdadeiro significado do 13 de maio \u00e9 o da falsa aboli\u00e7\u00e3o. O 14 de maio tornou-se \u201co dia mais longo da hist\u00f3ria do Brasil\u201d, porque seus efeitos permanecem at\u00e9 hoje na marginaliza\u00e7\u00e3o social, na viol\u00eancia policial, no encarceramento em massa e no genoc\u00eddio da juventude negra.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, tentou-se esconder essas desigualdades atrav\u00e9s do mito da democracia racial. Abdias do Nascimento denunciava que esse discurso invisibilizava o racismo brasileiro e impedia o debate sobre repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. L\u00e9lia Gonzalez demonstrou como o racismo opera no cotidiano, na cultura, na linguagem e nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Renata Gon\u00e7alves habilmente nos lembrou que o n\u00f3 da quest\u00e3o social \u00e9, obviamente, a quest\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, rompeu o sil\u00eancio imposto pela ditadura e recolocou o combate ao racismo no centro do debate nacional, denunciando a viol\u00eancia policial, a exclus\u00e3o social e o mito da democracia racial.<\/p>\n<p>Assim, o 13 de maio n\u00e3o pode ser apenas uma data comemorativa. Deve ser um dia de den\u00fancia, mem\u00f3ria e luta. Denunciamos a aboli\u00e7\u00e3o inconclusa, a aus\u00eancia de repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e a resist\u00eancia \u00e0s a\u00e7\u00f5es afirmativas. Reafirmamos a urg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas de igualdade racial, justi\u00e7a social e enfrentamento ao racismo.<\/p>\n<p>Que as mortes negras de ontem e de hoje n\u00e3o sejam reduzidas a reflex\u00f5es em datas simb\u00f3licas. O chamado do MNU para \u201creagir \u00e0 viol\u00eancia racial\u201d segue atual diante do genoc\u00eddio da juventude negra, do encarceramento em massa, da viol\u00eancia de Estado e das novas formas de opress\u00e3o que tamb\u00e9m se manifestam no campo digital. \u00c9 dever e miss\u00e3o de que acredita em uma sociedade justa e igualit\u00e1ria. Porque o 14 de maio continua. E a nossa luta tamb\u00e9m.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/a-falsa-abolicao-no-dia-13-e-o-interminavel-14-de-maio\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O 13 de maio de 1888 foi transformado, durante d\u00e9cadas, em s\u00edmbolo oficial da \u201cliberta\u00e7\u00e3o dos escravizados\u201d no Brasil. A assinatura da Lei \u00c1urea, redigida por apenas dois artigos, construiu no imagin\u00e1rio nacional a ideia de que a princesa Isabel teria concedido, por benevol\u00eancia, a liberdade ao povo negro. 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