{"id":78824,"date":"2026-05-14T01:50:43","date_gmt":"2026-05-14T04:50:43","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/ha-80-anos-santa-cruz-completava-a-maior-epopeia-da-historia-humana\/"},"modified":"2026-05-14T01:50:43","modified_gmt":"2026-05-14T04:50:43","slug":"ha-80-anos-santa-cruz-completava-a-maior-epopeia-da-historia-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/ha-80-anos-santa-cruz-completava-a-maior-epopeia-da-historia-humana\/","title":{"rendered":"H\u00e1 80 anos, Santa Cruz completava &#8216;a maior epopeia da hist\u00f3ria humana&#8217;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>\n\t\t\t\t\t\t&#8220;Fora de casa, sem not\u00edcias, a gente acabava bebendo&#8221;, contou o ponta-direita Guaberinha \u00e0 Placar<br \/>\n\t\t\t\t\t\t &#8211; \t\t\t\t\t\tReprodu\u00e7\u00e3o\n\t\t\t\t\t<\/p>\n<div id=\"texto\">\n<p>&#8220;Certa feita&#8221;, conta o historiador Luiz Antonio Simas, um aluno lhe perguntou qual teria sido a maior epopeia da hist\u00f3ria humana. Passaram pela cabe\u00e7a do professor epis\u00f3dios como a constru\u00e7\u00e3o das pir\u00e2mides do Egito, as aventuras de Gengis Khan, a chegada do homem \u00e0 lua &#8220;e outros babados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pensei um pouco em todos esses fatos e emiti minha opini\u00e3o: &#8216;A maior epopeia de todos os tempos foi uma excurs\u00e3o que o time de futebol do Santa Cruz fez aos confins da Amaz\u00f4nia em 1943&#8242;&#8221;, relatou Simas, no livro &#8220;Ode a Mauro Shampoo e Outras Hist\u00f3rias da V\u00e1rzea&#8221; (M\u00f3rula, 2017), que tem um cap\u00edtulo dedicado \u00e0 saga tricolor.<\/p>\n<p>H\u00e1 80 anos, a equipe pernambucana fez jornada rumo ao Norte do Brasil, com o intuito de arrecadar dinheiro em amistosos. Partiu em 2 de janeiro, no escuro. S\u00f3 conseguiu retornar ao Recife em 29 de abril, com quatro jogadores a menos, dois deles mortos, e eventos quase inacredit\u00e1veis, que justificam a inclus\u00e3o da viagem na lista das mais fabulosas aventuras da humanidade.<\/p>\n<p>Estava em curso a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Submarinos alem\u00e3es rondavam a costa brasileira. Dias antes, tinha sido afundado o navio Arangu\u00e1, no litoral de Sergipe. Por isso, a delega\u00e7\u00e3o do Santa Cruz come\u00e7ou seu trajeto \u00e0 noite, luzes apagadas, com a embarca\u00e7\u00e3o escoltada por outras duas, da Marinha de Guerra.<\/p>\n<p>Essa circunst\u00e2ncia j\u00e1 seria suficiente para que a empreitada fosse tratada como insana, mas a primeira perna da viagem foi completada sem o registro de maiores incidentes. O time chegou a Natal, fez 6 a 0 na sele\u00e7\u00e3o potiguar e, de l\u00e1, partiu a Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o havia pistas de que aquela seria conhecida como &#8220;a excurs\u00e3o suicida&#8221; ou &#8220;a excurs\u00e3o da morte&#8221;, t\u00edtulo de reportagem da revista Placar, que em 1979 reconstruiu &#8220;uma viagem que teve de tudo &#8211; at\u00e9 mortes&#8221;. &#8220;Em plena II Guerra, a her\u00f3ica viagem de um time&#8221; era o subt\u00edtulo do texto de Lenivaldo Arag\u00e3o, que ouviu relatos de sobreviventes e pintou toda a empresa com suas devidas tintas \u00e9picas.<\/p>\n<p>Foi no percurso seguinte, ap\u00f3s duas vit\u00f3rias, dois empates e uma derrota no Par\u00e1, que a excurs\u00e3o come\u00e7ou a virar epopeia. O caminho pelo rio Amazonas foi feito em um navio que rebocava um carregamento de alimentos destinados ao Acre.<\/p>\n<p>&#8220;O trajeto at\u00e9 Manaus durou simplesmente quinze dias, com direito a tr\u00eas dias em que a embarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de seguir por um motivo muito simples: \u00edndios armados de bordunas, tacapes e zarabatanas sequestraram o grupo para pegar os alimentos. Resolvido o entrevero com os \u00edndios, a equipe finalmente chegou \u00e0 capital do Amazonas&#8221;, relatou Simas.<br \/>&#13;<br \/>\nChegou cansada. O longo trajeto n\u00e3o configurou o que se se considera uma boa prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Fora de casa, sem not\u00edcias, a gente acabava bebendo&#8221;, contou o ponta-direita Guaberinha \u00e0 Placar. &#8220;Chega noite em que o time inteiro \u00e9 flagrado na casa de m\u00e1quinas do vapor, tomando um memor\u00e1vel pileque com alguns membros da tripula\u00e7\u00e3o&#8221;, descreveu a revista.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende que o primeiro resultado em Manaus tenha sido uma derrota, 3 a 2 para o Ol\u00edmpico. A ressaca passou, com uma vit\u00f3ria por 6 a 1 sobre o Nacional, mas apareceu algo pior. O chefe da delega\u00e7\u00e3o, Arist\u00f3fanes Trindade, e seis jogadores passaram a sofrer com forte infec\u00e7\u00e3o intestinal, o que n\u00e3o os impediu de jogar.<\/p>\n<p>Terminada a temporada manauara e frustrada uma tentativa de jogar nas Guianas e no Peru -a CBD (Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos) vetou, por causa da guerra, com amea\u00e7a de suspens\u00e3o por 90 dias-, o grupo retornou para nova sequ\u00eancia de jogos em Bel\u00e9m. Mas n\u00e3o inteiro. Sidinho (que depois mudaria de ideia e retornaria), Pelado e Omar ficaram no Amazonas, atra\u00eddos por ofertas de clubes locais.<\/p>\n<p>Logo, haveria novas baixas, mais tr\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Internado em Bel\u00e9m, sem a devida recupera\u00e7\u00e3o da disenteria da semana anterior, o goleiro King teve diagn\u00f3stico de febre tifoide e n\u00e3o resistiu. Morto na madrugada de 3 de mar\u00e7o, foi enterrado na capital paraense, em cerim\u00f4nia com honrarias, o que n\u00e3o fez o Santa Cruz abortar a excurs\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve um minuto de sil\u00eancio antes da partida contra o Paysandu em 8 de mar\u00e7o, domingo de Carnaval. Nesse dia, a febre tifoide foi faltam com mais um jogador, Papeira. E a excurs\u00e3o seguiu.<\/p>\n<p>&#8220;Era at\u00e9 normal ver o pessoal chorando. Limoeirinho chorava, Amaro Caj\u00e1 era dos mais chor\u00f5es. Eu mesmo chorei algumas vezes, pensando na fam\u00edlia. Era duro querer voltar e n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es&#8221;, recordou Guaberinha, ent\u00e3o com 60 anos, \u00e0 Placar.<\/p>\n<p>Uma das partidas realizadas em Bel\u00e9m, um empate por 3 a 3 com um combinado formado por atletas do Remo e do Paysandu, tinha como chamariz a renda revertida \u00e0s fam\u00edlias dos mortos. Mas o Santa Cruz j\u00e1 n\u00e3o causava a como\u00e7\u00e3o que provocara na chegada, com est\u00e1dios cheios, e atuou com arquibancadas vazias.<\/p>\n<p>Era hora de tomar novo rumo, e o destino escolhido foi S\u00e3o Lu\u00eds. N\u00e3o haveria mais mortes, mas a maior epopeia humana ainda ganharia cap\u00edtulos relevantes, como o percurso at\u00e9 o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Para juntar algum dinheiro, os jogadores trocam as passagens de primeira por outras de terceira classe. E s\u00e3o obrigados a viajar na companhia de uma corja de 35 ladr\u00f5es que a pol\u00edcia do Par\u00e1 est\u00e1 exportando para o Maranh\u00e3o. Por via das d\u00favidas, as 15 ta\u00e7as que o clube ganhou na excurs\u00e3o s\u00e3o guardadas cuidadosamente. Medida desnecess\u00e1ria &#8211; pois os ladr\u00f5es e os jogadores acabam se tornando bons amigos&#8221;, relatou, na Placar, Lenivaldo Arag\u00e3o.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Lu\u00eds, com baixas por motivo de deser\u00e7\u00e3o, les\u00e3o, doen\u00e7a e morte, o time chegou a entrar em campo completado pelo cozinheiro do navio. A essa altura, j\u00e1 havia come\u00e7ado o Campeonato Pernambucano, e o Santa Cruz disputava a competi\u00e7\u00e3o com os reservas que n\u00e3o viajaram.<\/p>\n<p>Aproximava-se o momento da volta para casa, mas a tarefa parecia imposs\u00edvel. O navio com a delega\u00e7\u00e3o partiu de madrugada e teve de retornar pela manh\u00e3 a S\u00e3o Lu\u00eds. &#8220;O radar acusara a presen\u00e7a de submarinos no mar&#8221;, escreveu Arag\u00e3o, lembrando que, al\u00e9m da maior epopeia humana, estava em andamento uma guerra mundial.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi partir por via f\u00e9rrea at\u00e9 Teresina. \u00c9 quase inacredit\u00e1vel, mas o trem descarrilou em duas ocasi\u00f5es, sem feridos. Uma vez no Piau\u00ed, por que n\u00e3o jogar bola? Vit\u00f3ria por 4 a 3 sobre a sele\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>As duas pernas finais da saga -Teresina-Fortaleza e Fortaleza-Recife- foram feitas por rodovia. No \u00faltimo jogo da excurs\u00e3o, o Santa Cruz bateu o Cear\u00e1 por 3 a 2.<\/p>\n<p>Foram quase quatro meses at\u00e9 que os jogadores estivessem, enfim, em casa. &#8220;Meu filho Marcelo, de seis anos, n\u00e3o me reconheceu&#8221;, contou Guaberinha.<\/p>\n<p>Era o fim de uma excurs\u00e3o hist\u00f3rica e mesmo incr\u00edvel, que teve ainda ordem de pris\u00e3o a um atleta, Pedrinho, por supostamente &#8220;ter feito mal a uma menina de 17 anos&#8221; e epis\u00f3dios como este, em Teresina, narrado por Luiz Antonio Simas: &#8220;Um jogador foi esfaqueado ap\u00f3s uma confus\u00e3o na zona do meretr\u00edcio&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o historiador, toda a saga &#8220;deveria virar s\u00e9rie de algum streaming&#8221;. &#8220;Est\u00e3o marcando bobeira de n\u00e3o produzir&#8221;, advertiu.<\/p>\n<p>&#8220;Que me desculpem Alexandre, Gengis Khan, Napole\u00e3o, Crist\u00f3v\u00e3o Colombo e outros mais. Perto da epopeia do Santa Cruz na Amaz\u00f4nia, seus grandes feitos guardam a mesma dramaticidade de um piquenique na Ilha de Paquet\u00e1, com direito a passeio de pedalinho nas \u00e1guas da Guanabara.&#8221;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script async defer crossorigin=\"anonymous\" src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js#xfbml=1&#038;version=v12.0&#038;appId=&#038;autoLogAppEvents=1\" nonce=\"ou0fI1lo\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.bs9.com.br\/esportes\/ha-80-anos-santa-cruz-completava-a-maior-epopeia-da-historia-humana\/12573\/\">BS9<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Fora de casa, sem not\u00edcias, a gente acabava bebendo&#8221;, contou o ponta-direita Guaberinha \u00e0 Placar &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o &#8220;Certa feita&#8221;, conta o historiador Luiz Antonio Simas, um aluno lhe perguntou qual teria sido a maior epopeia da hist\u00f3ria humana. 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