{"id":73451,"date":"2026-04-16T05:47:19","date_gmt":"2026-04-16T08:47:19","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/entre-a-soja-e-a-videira-e-o-uso-do-24-d\/"},"modified":"2026-04-16T05:47:19","modified_gmt":"2026-04-16T08:47:19","slug":"entre-a-soja-e-a-videira-e-o-uso-do-24-d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/entre-a-soja-e-a-videira-e-o-uso-do-24-d\/","title":{"rendered":"Entre a soja e a videira \u2013 e o uso do 2,4 D"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify\">A decis\u00e3o judicial que proibiu \u2014 e depois liberou \u2014 o uso do herbicida 2,4-D na Campanha Ga\u00facha em setembro de 2025 escancarou um conflito que n\u00e3o \u00e9 novo, tampouco simples. De um lado, produtores que dependem do defensivo para controlar plantas daninhas resistentes ao glifosato e que, \u00e0s v\u00e9speras do plantio, j\u00e1 tinham comprado os insumos. De outro, viticultores e produtores de ma\u00e7\u00e3 que acumulam perdas em fun\u00e7\u00e3o da Deriva.&#13;\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No meio: uma pergunta que ningu\u00e9m respondeu ainda com clareza suficiente \u2014 existe uma sa\u00edda t\u00e9cnica para essa disputa?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A resposta, segundo especialistas, fabricantes e a experi\u00eancia acumulada por outros pa\u00edses que viveram o mesmo impasse, \u00e9: sim. Mas ela exige disciplina, investimento e, sobretudo, vontade pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>A f\u00edsica do problema: por que o 2,4-D voa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Antes de discutir solu\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso entender a dimens\u00e3o do problema. O 2,4-D \u00e9 um herbicida hormonal \u2014 age imitando o \u00e1cido indolac\u00e9tico, o horm\u00f4nio de crescimento das plantas, e as mata por crescimento descontrolado. Funciona muito bem para combater folhas largas em lavouras de soja e arroz. O problema est\u00e1 na sua suscetibilidade \u00e0 Deriva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A deriva acontece de duas formas: f\u00edsica e por volatiliza\u00e7\u00e3o. Na deriva f\u00edsica, gotas finas geradas pelo pulverizador s\u00e3o carregadas pelo vento durante a aplica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na volatiliza\u00e7\u00e3o, o princ\u00edpio ativo evapora do solo ou das folhas horas ou dias depois da pulveriza\u00e7\u00e3o e se desloca pelo ar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Culturas como uva, ma\u00e7\u00e3, oliveiras e nozes-pec\u00e3 s\u00e3o extremamente sens\u00edveis ao 2,4-D \u2014 documentos t\u00e9cnicos indicam que danos foram registrados em exposi\u00e7\u00f5es a baixas concentra\u00e7\u00f5es do produto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O agravante no Rio Grande do Sul \u00e9 a topografia e o regime de ventos da regi\u00e3o da Campanha: plan\u00edcie aberta, frequentemente varrida por ventos do quadrante sul, sem barreiras naturais para reduzir a deriva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O que a tecnologia pode fazer \u2014 e o que n\u00e3o pode<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A boa not\u00edcia \u00e9 que a ci\u00eancia de aplica\u00e7\u00e3o de defensivos evoluiu nas \u00faltimas d\u00e9cadas e hoje oferece um arsenal razo\u00e1vel para reduzir a deriva. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que &#8220;reduzir&#8221; n\u00e3o \u00e9 o mesmo que &#8220;eliminar&#8221; \u2014 e isso importa quando falamos de culturas t\u00e3o sens\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Pontas de pulveriza\u00e7\u00e3o com indu\u00e7\u00e3o de ar s\u00e3o o principal avan\u00e7o nessa \u00e1rea. Conhecidas como pontas &#8220;venturi&#8221;, elas misturam ar \u00e0 calda antes de formar as gotas, produzindo got\u00edculas maiores e mais pesadas, portanto mais resistentes ao vento. Enquanto pontas convencionais geram uma propor\u00e7\u00e3o elevada de gotas finas \u2014 altamente suscet\u00edveis \u00e0 deriva \u2014, as pontas antideriva produzem gotas classificadas como grossas a ultra-grossas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Pesquisas conduzidas em parceria entre a Unesp de Botucatu e empresas do setor indicam que esse tipo de ponta pode reduzir a deriva em at\u00e9 70% em condi\u00e7\u00f5es controladas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A escolha da ponta, por\u00e9m, \u00e9 apenas uma pe\u00e7a do sistema. A tecnologia de redu\u00e7\u00e3o de deriva \u00e9, na pr\u00e1tica, um conjunto de boas pr\u00e1ticas combinadas: ponta adequada, press\u00e3o de trabalho correta, velocidade de deslocamento dentro dos limites recomendados, altura de barra ajustada e, principalmente, respeito \u00e0s janelas clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As condi\u00e7\u00f5es ideais para aplica\u00e7\u00e3o de herbicidas hormonais s\u00e3o bastante espec\u00edficas: temperatura abaixo de 30\u00b0C, umidade relativa do ar acima de 60% e vento entre 3 e 6,5 km\/h. Pulverizar ao meio-dia, com temperatura alta e umidade baixa, \u00e9 receita certa para volatiliza\u00e7\u00e3o intensa. Aplicar com ventos acima de 15 km\/h \u00e9 garantia de que boa parte do produto vai acabar onde n\u00e3o devia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>MAIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No contexto nacional, o Rio Grande do Sul \u00e9 o estado com a regulamenta\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada sobre uso de herbicidas hormonais. Desde 2019, o governo ga\u00facho publicou uma s\u00e9rie de Instru\u00e7\u00f5es Normativas que estabeleceram regras para aplica\u00e7\u00e3o do 2,4-D em munic\u00edpios de risco: declara\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de uso, cadastro de aplicadores, exig\u00eancia de curso de boas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas e canais de den\u00fancia para casos de deriva. Em 2021, novas normativas ampliaram o alcance para mais munic\u00edpios e regulamentaram o cadastro de prestadores de servi\u00e7o de aplica\u00e7\u00e3o.&#13;\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No Paran\u00e1, o cen\u00e1rio \u00e9 distinto. De acordo com levantamento realizado pela Embrapa publicado na revista Biofix Scientific Journal mapeou as leis municipais no estado e encontrou 103 normas em 100 munic\u00edpios com algum tipo de restri\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos \u2014 uma parte delas espec\u00edfica ao 2,4-D.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Mas trata-se de regulamenta\u00e7\u00e3o fragmentada e municipalizada. Recentemente, ap\u00f3s o aumento nos relatos de danos em parreirais paranaenses, entidades do setor como Sindiveg, CropLife Brasil e Ocepar divulgaram um of\u00edcio conjunto alertando produtores sobre boas pr\u00e1ticas \u2014 e sinalizando que, se os problemas persistirem, o Paran\u00e1 poder\u00e1 adotar restri\u00e7\u00f5es mais r\u00edgidas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No n\u00edvel federal, o Brasil n\u00e3o possui uma regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre deriva de herbicidas hormonais. O registro e o controle do 2,4-D seguem as regras gerais da legisla\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, deixando aos estados a responsabilidade de eventuais restri\u00e7\u00f5es adicionais \u2014 exatamente o ponto reconhecido como insuficiente pela ju\u00edza na decis\u00e3o de setembro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O espelho internacional: o que EUA e Europa fizeram<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para entender onde o Brasil pode chegar, \u00e9 importante olhar para o que outros pa\u00edses fizeram diante do mesmo dilema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nos Estados Unidos, o problema ganhou dimens\u00e3o \u00e9pica com o herbicida dicamba \u2014 um parente pr\u00f3ximo do 2,4-D em termos de mecanismo de a\u00e7\u00e3o e risco de deriva. A introdu\u00e7\u00e3o, a partir de 2016, de variedades de soja geneticamente modificadas e tolerantes ao dicamba levou a um aumento massivo no uso do herbicida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em 2018, estima-se que 4% de todos os campos de soja americanos foram danificados pela Deriva do produto \u2014 mais de 4 milh\u00f5es de acres. Vinhedos, pomares, hortas e jardins foram afetados em 25 estados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A resposta veio em camadas. A EPA (Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental) foi obrigada, por decis\u00e3o judicial, a suspender registros do dicamba em 2020. V\u00e1rios estados impuseram restri\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias: datas-limite para aplica\u00e7\u00e3o, restri\u00e7\u00f5es de temperatura (m\u00e1ximo de 29,4\u00b0C em Minnesota e Illinois), exig\u00eancia de zonas de amortecimento entre campos tratados e culturas sens\u00edveis \u2014 no caso do 2,4-D, atualmente exige-se uma faixa m\u00ednima de cerca de 9 metros (30 p\u00e9s) para culturas adjacentes sens\u00edveis. Minnesota foi al\u00e9m: exigiu registro detalhado de todas as aplica\u00e7\u00f5es e estabeleceu cortes espec\u00edficos por est\u00e1gio de desenvolvimento das plantas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A experi\u00eancia americana mostra que a tecnologia sozinha n\u00e3o resolve. Mesmo com formula\u00e7\u00f5es de baixa volatilidade e etiquetas detalhadas, o dano persiste enquanto n\u00e3o houver fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva e penalidades reais para aplica\u00e7\u00f5es fora dos par\u00e2metros e condi\u00e7\u00f5es adequadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Na Europa, o 2,4-D tem uso aprovado, mas dentro de uma estrutura regulat\u00f3ria mais restritiva. A Uni\u00e3o Europeia pro\u00edbe formula\u00e7\u00f5es de alta volatilidade do produto \u2014 os chamados \u00e9steres de alta volatilidade foram banidos h\u00e1 d\u00e9cadas. Pa\u00edses como Dinamarca e Noruega pro\u00edbem o uso em jardins e gramados. A abordagem europeia, de modo geral, \u00e9 baseada no princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o: se h\u00e1 evid\u00eancias de risco, a restri\u00e7\u00e3o \u00e9 aplicada antes que o dano se acumule, e cabe ao produtor do agroqu\u00edmico provar a seguran\u00e7a do produto, n\u00e3o ao regulador provar o dano.&#13;\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O n\u00f3 que ainda n\u00e3o foi desatado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Tecnologia existe. Regulamenta\u00e7\u00e3o comparada existe. Modelo de coexist\u00eancia existe. O que falta no Rio Grande do Sul?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Falta, em primeiro lugar, um sistema de monitoramento e fiscaliza\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria senten\u00e7a reconheceu como inexistente. O estado foi condenado por omiss\u00e3o. As normativas publicadas a partir de 2019 criaram obriga\u00e7\u00f5es no papel \u2014 curso de boas pr\u00e1ticas, cadastro de aplicadores, declara\u00e7\u00e3o de uso \u2014 mas n\u00e3o criaram a estrutura para verificar se elas eram cumpridas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Al\u00e9m disso, falta tamb\u00e9m o zoneamento. Sem saber exatamente onde est\u00e3o os pomares e vinhedos e qual \u00e9 o raio de risco em fun\u00e7\u00e3o dos ventos predominantes em cada microrregi\u00e3o, qualquer restri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica fica imprecisa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">E falta, talvez acima de tudo, o reconhecimento de que o debate n\u00e3o \u00e9 &#8220;soja contra uva&#8221;. \u00c9 sobre a capacidade do agroneg\u00f3cio ga\u00facho de ser diverso \u2014 e essa diversidade tem um valor, cultural e social que o Rio Grande do Sul n\u00e3o pode se dar ao luxo de desperdi\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Uso consolidado e presen\u00e7a nacional refor\u00e7am a complexidade do debate<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Dados atualizados de 2025 mostram que o 2,4-D segue amplamente distribu\u00eddo no Brasil, com presen\u00e7a relevante em diferentes estados produtores, incluindo S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O levantamento tamb\u00e9m evidencia a forte atua\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas empresas no mercado de herbicidas hormonais, especialmente em formula\u00e7\u00f5es combinadas com picloram \u2014 um indicativo de que o manejo qu\u00edmico segue sendo uma ferramenta consolidada no controle de plantas daninhas em sistemas produtivos diversos. Entre as companhias com portf\u00f3lio ativo est\u00e3o multinacionais e fabricantes nacionais, como UPL, Adama, Nortox, Rainbow e Sumitomo Chemical, refletindo a competitividade e a capilaridade desse segmento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No caso da soja, cultura que lidera a demanda por herbicidas no pa\u00eds, o uso de mol\u00e9culas como o glifosato \u2014 frequentemente associado ao 2,4-D em estrat\u00e9gias de manejo \u2014 mant\u00e9m alta concentra\u00e7\u00e3o de consultas e aplica\u00e7\u00f5es nos principais estados produtores, incluindo Rio Grande do Sul e Paran\u00e1.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script data-cfasync=\"false\">\n    !function (f, b, e, v, n, t, s) {\n        if (f.fbq) return; n = f.fbq = function () {\n            n.callMethod ?\n                n.callMethod.apply(n, arguments) : n.queue.push(arguments)\n        };\n        if (!f._fbq) f._fbq = n; n.push = n; n.loaded = !0; n.version = '2.0';\n        n.queue = []; t = b.createElement(e); t.async = !0;\n        t.src = v; s = b.getElementsByTagName(e)[0];\n        s.parentNode.insertBefore(t, s)\n    }(window, document, 'script',\n        'https:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/fbevents.js');\n    fbq('init', '522546078623747');\n    fbq('track', 'PageView');\n<\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.agrolink.com.br\/noticias\/entre-a-soja-e-a-videira---e-o-uso-do-2-4-d_513165.html\">AGROLINK<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o judicial que proibiu \u2014 e depois liberou \u2014 o uso do herbicida 2,4-D na Campanha Ga\u00facha em setembro de 2025 escancarou um conflito que n\u00e3o \u00e9 novo, tampouco simples. 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