{"id":71821,"date":"2026-04-08T10:26:30","date_gmt":"2026-04-08T13:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/quem-escondeu-o-sol-jornal-da-orla\/"},"modified":"2026-04-08T10:26:30","modified_gmt":"2026-04-08T13:26:30","slug":"quem-escondeu-o-sol-jornal-da-orla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/quem-escondeu-o-sol-jornal-da-orla\/","title":{"rendered":"Quem escondeu o sol? &#8211; Jornal da Orla"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>O sol n\u00e3o sumiu. Mas ficou mais dif\u00edcil de encontrar. Quem anda pela orla sabe. H\u00e1 um momento em que a luz aparece e n\u00e3o dura. Surge entre edif\u00edcios, corta fachadas, escorre por frestas e desaparece, como se tivesse sido reduzida a um intervalo concedido.<\/p>\n<p>E a gente anda. Um pouco para um lado. Um pouco para o outro. Como se fosse s\u00f3 quest\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o. Como se o problema estivesse nos nossos passos, e n\u00e3o no que foi erguido diante deles. \u00c0s vezes funciona. \u00c0s vezes n\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu paro sempre no mesmo ponto. Um banco de concreto gasto. Dali, se eu me mover alguns cent\u00edmetros, ainda consigo ver. Um ajuste m\u00ednimo, quase um c\u00e1lculo do corpo diante da cidade. Ainda. Mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que n\u00e3o precisava procurar. O horizonte era inteiro, cont\u00ednuo. O sol chegava completo, sem disputa, sem media\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era preciso disputar com a forma constru\u00edda o acesso ao que sempre foi comum.<\/p>\n<p>Depois, a cidade cresceu. E cresceu ocupando tudo. Aos poucos. Como crescem as perdas que n\u00e3o se anunciam. Um edif\u00edcio aqui, outro adiante. Uma empena cega, um recuo que desaparece, uma sombra que se alonga. E, quando se percebe, j\u00e1 n\u00e3o se trata de substitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 sobreposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E talvez por isso ningu\u00e9m tenha percebido direito. Porque sempre sobrava um peda\u00e7o. E quando sobra, a gente aceita.<\/p>\n<p>Mas o que era inteiro virou fragmento. O que era paisagem virou intervalo. O p\u00f4r do sol virou esfor\u00e7o. E a gente normalizou. Normalizou ajustar o corpo, disputar cent\u00edmetros de horizonte, aceitar que a luz depende de brechas.<\/p>\n<p>Outro dia, algu\u00e9m me perguntou se havia um lugar melhor para ver. Eu quase respondi que sim. Mas a resposta n\u00e3o era essa. Ent\u00e3o eu disse: antes n\u00e3o precisava. E ficou um sil\u00eancio. E, ainda assim, um detalhe insistiu.<\/p>\n<p>Um menino, mais adiante, tentava segurar o sol com a m\u00e3o. Abrindo e fechando os dedos, como se pudesse encaix\u00e1-lo entre eles. Ningu\u00e9m corrigiu.<\/p>\n<p>Talvez porque ali ainda houvesse um resto do mundo que n\u00e3o aprendemos a regulamentar. Talvez porque, por um instante, tenha ficado claro o que foi perdido.<\/p>\n<p>Talvez a pergunta nunca tenha sido apenas quem escondeu o sol. Quando foi que o horizonte deixou de ser um dado coletivo?<\/p>\n<p>Se ainda d\u00e1 para ver, por que aceitamos procurar? E, sobretudo: em que momento deixamos de perceber que n\u00e3o era o sol que se escondia, mas a cidade que passou a interpor-se entre n\u00f3s e aquilo que sempre foi comum?<\/p>\n<p>Porque o problema nunca foi a aus\u00eancia da luz. Foi a forma como aprendemos a conviver com sua redu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/quem-escondeu-o-sol\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol n\u00e3o sumiu. Mas ficou mais dif\u00edcil de encontrar. Quem anda pela orla sabe. 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