{"id":71361,"date":"2026-04-06T09:37:22","date_gmt":"2026-04-06T12:37:22","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/a-insuficiente-e-errada-expansao-do-ensino-superior-brasileiro\/"},"modified":"2026-04-06T09:37:22","modified_gmt":"2026-04-06T12:37:22","slug":"a-insuficiente-e-errada-expansao-do-ensino-superior-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-insuficiente-e-errada-expansao-do-ensino-superior-brasileiro\/","title":{"rendered":"A insuficiente e errada expans\u00e3o do ensino superior brasileiro"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do ensino superior brasileiro nas \u00faltimas d\u00e9cadas configura um exerc\u00edcio de ilusionismo estat\u00edstico. No papel, o salto de cerca de 3,5 milh\u00f5es de matr\u00edculas h\u00e1 pouco mais do que 20 anos para perto de 10 milh\u00f5es em anos mais recentes sugere uma revolu\u00e7\u00e3o educacional. Contudo, ao removermos a maquiagem do ensino a dist\u00e2ncia (EaD), o que resta \u00e9 um cen\u00e1rio de estagna\u00e7\u00e3o e que, mesmo com o avan\u00e7o do setor p\u00fablico, mal acompanhou o crescimento demogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o real, aquela que ocupa os campi, forma profissionais, oxigena o desenvolvimento social e cultural, o crescimento econ\u00f4mico e a pesquisa, estagnou. No setor privado, o crescimento presencial desde o in\u00edcio dos anos 2000 foi de irris\u00f3rios 3%, bem menos do que o crescimento populacional. A grande massa que antes buscava (iludidamente) a ascens\u00e3o social nas salas de aula noturnas foi transferida para as telas. O campus f\u00edsico tornou-se um produto restrito aos poucos cursos de elite.<\/p>\n<p>O caso de S\u00e3o Paulo ilustra a gravidade dessa situa\u00e7\u00e3o. O estado viu sua participa\u00e7\u00e3o relativa nas matr\u00edculas ser reduzida ao longo do tempo. Enquanto o pa\u00eds tentava se mover, a locomotiva paulista parece ter puxado o freio de m\u00e3o: as matr\u00edculas presenciais na rede p\u00fablica estadual (USP, Unesp, Unicamp e Fatecs) est\u00e3o consolidadas em um patamar pouco acima de 200 mil \u2014 um n\u00famero que permanece aqu\u00e9m da explos\u00e3o da demanda e da complexidade da economia paulista, mostrando sinais de estagna\u00e7\u00e3o frente \u00e0 press\u00e3o por inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hegemonia do setor privado, que hoje abocanha 80% das matr\u00edculas, contra 70% h\u00e1 duas d\u00e9cadas, consolidou uma \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d do diploma que sacrifica a qualidade no altar da quantidade. O Enade 2023 revelou um abismo: o desempenho dos alunos de EaD em licenciaturas beira o tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Esse estelionato educacional se estende at\u00e9 as \u00e1reas mais sens\u00edveis: os resultados med\u00edocres das institui\u00e7\u00f5es privadas no Exame Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o da Forma\u00e7\u00e3o M\u00e9dica, Enamed, comprovam que a l\u00f3gica da finan\u00e7a \u00e9 incapaz de garantir a qualidade necess\u00e1ria, tornando a expans\u00e3o do setor p\u00fablico uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Estamos formando profissionais que mal dominam os conceitos b\u00e1sicos, alimentando um ciclo vicioso que mant\u00e9m o sistema educacional brasileiro em uma situa\u00e7\u00e3o entre os mais prec\u00e1rios da Am\u00e9rica do Sul, fato ilustrado pela nossa taxa de analfabetismo, entre as cinco maiores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 causada por um financiamento insuficiente. Enquanto munic\u00edpios e estados dividem a responsabilidade pela educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, o ensino superior \u00e9 compartilhado na propor\u00e7\u00e3o de dois para um entre Uni\u00e3o e Estados. A responsabilidade \u00e9 fatiada pelos tr\u00eas n\u00edveis governamentais, mas sufocada por investimentos p\u00fablicos que n\u00e3o rompem a in\u00e9rcia institucional.<\/p>\n<p>Nacionalmente, a rede p\u00fablica foi o \u00fanico motor de expans\u00e3o f\u00edsica, quase dobrando suas matr\u00edculas presenciais, principalmente por meio das institui\u00e7\u00f5es federais. Mas \u00e9 pouco. Em termos relativos, a participa\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico no sistema encolheu de 30% para 20%.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um sistema de duas velocidades: uma rede p\u00fablica que cresceu no absoluto, mas perdeu relev\u00e2ncia, e um setor privado que desistiu da presencialidade para as massas. A \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d entregou o certificado, mas segregou o espa\u00e7o e sonegou o conhecimento. Sem uma regula\u00e7\u00e3o do EaD, uma fiscaliza\u00e7\u00e3o rigorosa das institui\u00e7\u00f5es privadas e de seus cursos e um investimento robusto no setor p\u00fablico, continuaremos a solidificar o nosso atraso educacional.<\/p>\n<p>Superar esse atraso hist\u00f3rico exige mais do que a entrega de diplomas de papel; demanda um investimento p\u00fablico robusto, capaz de resgatar o conv\u00edvio acad\u00eamico como espa\u00e7o real de transforma\u00e7\u00e3o. Sem isso, seguiremos apenas assistindo \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o da mediocridade e \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o educacionalmente estagnada e submissa.<\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no jornal da USP<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/a-insuficiente-e-errada-expansao-do-ensino-superior-brasileiro\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A evolu\u00e7\u00e3o do ensino superior brasileiro nas \u00faltimas d\u00e9cadas configura um exerc\u00edcio de ilusionismo estat\u00edstico. No papel, o salto de cerca de 3,5 milh\u00f5es de matr\u00edculas h\u00e1 pouco mais do que 20 anos para perto de 10 milh\u00f5es em anos mais recentes sugere uma revolu\u00e7\u00e3o educacional. 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