{"id":68032,"date":"2026-03-18T17:03:47","date_gmt":"2026-03-18T20:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/eua-estrangularam-a-economia-venezuelana-diz-especialista\/"},"modified":"2026-03-18T17:03:47","modified_gmt":"2026-03-18T20:03:47","slug":"eua-estrangularam-a-economia-venezuelana-diz-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/eua-estrangularam-a-economia-venezuelana-diz-especialista\/","title":{"rendered":"&#8220;EUA estrangularam a economia venezuelana&#8221;, diz especialista"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Professora de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), Carolina Pedroso tem se dedicado a estudar o processo pol\u00edtico venezuelano, especialmente no cen\u00e1rio internacional. Fez pesquisa na Venezuela e com venezuelanos que vivem nos EUA, al\u00e9m de acompanhar de perto o desenrolar das crises no pa\u00eds vizinho, com o qual o Brasil tem cerca de 2,2 mil quil\u00f4metros de fronteira. Nesta entrevista ao<em><strong> Jornal da Orla<\/strong><\/em>, Carolina analisa a situa\u00e7\u00e3o da Venezuela e conta por que os ataques dos EUA, que culminaram com o sequestro do ent\u00e3o presidente Nicol\u00e1s Maduro, em 3 de janeiro, n\u00e3o a surpreenderam.<\/p>\n<p><strong>Os ataques dos EUA \u00e0 Venezuela surpreenderam voc\u00ea?<\/strong><br \/>N\u00e3o. Fiz pesquisa de campo na Venezuela, na Col\u00f4mbia, que recebeu muitos venezuelanos nos \u00faltimos anos, e nos Estados Unidos. Uma das contribui\u00e7\u00f5es do meu doutorado foi mapear a rela\u00e7\u00e3o bilateral Venezuela-EUA e fazer um esfor\u00e7o de organizar os grupos de venezuelanos que mora e atua politicamente l\u00e1 h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada e faziam lobby dentro do Congresso para que esse resultado que aconteceu agora em 2026 acontecesse \u2013 est\u00e3o buscando isso h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Eu estive nos EUA em 2017, fazendo entrevista com essas pessoas e, quase dez anos depois, eles conseguiram o que estavam querendo. Obviamente, n\u00e3o s\u00e3o os grupos mais poderosos dentro da pol\u00edtica americana, mas vinham fazendo press\u00e3o constante \u2013 s\u00e3o muito pr\u00f3ximos do Marco Rubio (Secret\u00e1rio de Estado do governo Donald Trump). Para mim, o sinal mais claro de que o ataque iria acontecer foi depois do encontro do Trump com o Putin, no Alaska. Em tese, eles estavam ali para discutir a Ucr\u00e2nia, mas na sequ\u00eancia do encontro come\u00e7ou a movimenta\u00e7\u00e3o militar no Caribe. Para mim, isso foi um sinal de que a Venezuela foi discutida nos bastidores, algo do tipo Trump falando para o Putin: sua \u00e1rea de interesse \u00e9 a Ucr\u00e2nia, n\u00e3o vou interferir; minha \u00e1rea de interesse, agora, \u00e9 a Am\u00e9rica Latina, voc\u00ea n\u00e3o interfira. E isso realmente n\u00e3o aconteceu. A tens\u00e3o militar s\u00f3 aumentou no Caribe.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 declarou que o petr\u00f3leo \u00e9 elemento estruturante da sociedade venezuelana. \u00c9 a \u00fanica raz\u00e3o dos ataques?<\/strong><br \/>N\u00e3o \u00e9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para os ataques, mas \u00e9 uma causa importante, principalmente para a agenda pessoal do Trump. A Venezuela foi reunindo, ao longo dos anos, uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas que fez do pa\u00eds n\u00e3o um alvo priorit\u00e1rio, mas um alvo perfeito para esse ataque. \u00c9 um pa\u00eds que tem regime pol\u00edtico altamente problem\u00e1tico, question\u00e1vel sobre v\u00e1rios aspectos: democr\u00e1ticos, direitos humanos, de gest\u00e3o econ\u00f4mica, e que foi se tornando cada vez mais isolado regionalmente, ou seja, um ataque a ele dificilmente geraria uma rea\u00e7\u00e3o regional que n\u00e3o fosse s\u00f3 pelo discurso, n\u00e3o haveria uma resposta militar.<\/p>\n<p><strong>Mas esse aspecto pol\u00edtico envolve o petr\u00f3leo tamb\u00e9m, certo?<\/strong><br \/>Sim. Os EUA foram estrangulando a ind\u00fastria petrol\u00edfera venezuelana com mais de 900 san\u00e7\u00f5es \u2013 contra a economia como um todo, mas de forma muito dura contra o setor petroleiro. E \u00e9 um setor em que esses pa\u00edses desenvolveram um sistema de colabora\u00e7\u00e3o de mais de um s\u00e9culo. Uma rela\u00e7\u00e3o de complemento econ\u00f4mico mesmo. Das primeiras empresas estrangeiras que foram explorar o petr\u00f3leo na Venezuela, a maioria era dos EUA, isso no come\u00e7o do s\u00e9culo 20 \u2013 no final do s\u00e9culo 19 \u00e9 quando se descobre petr\u00f3leo l\u00e1 e j\u00e1 no comecinho do 20 as primeiras empresas j\u00e1 est\u00e3o l\u00e1. E se criou nos EUA todo um aparato para o refino do petr\u00f3leo venezuelano, que tem uma caracter\u00edstica espec\u00edfica, \u00e9 denso, pesado, e exige um processo petroqu\u00edmico mais elaborado. Os EUA t\u00eam bastante petr\u00f3leo, mas \u00e9 um produto muito leve. Ent\u00e3o, boa parte da ind\u00fastria l\u00e1 est\u00e1 mais bem preparada para refinar o petr\u00f3leo venezuelano do que o deles pr\u00f3prio, porque o petr\u00f3leo denso possibilita a produ\u00e7\u00e3o de mais agregados. Ent\u00e3o, ao longo de mais de um s\u00e9culo, a ind\u00fastria venezuelana foi criando uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, tanto pelo processo de refino quanto pelo ponto de vista geogr\u00e1fico \u2013 \u00e9 muito pr\u00f3ximo um pa\u00eds do outro. \u00c9 vi\u00e1vel fazer toda negocia\u00e7\u00e3o, porque a Venezuela basicamente vende o produto bruto e compra o refinado.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 essa quest\u00e3o que interessa ao Trump?<\/strong><br \/>Isso atende muito \u00e0 agenda trumpista porque desde o come\u00e7o ele tem falado de explorar o petr\u00f3leo novamente, de os EUA se tornarem um pa\u00eds ainda mais poderoso no controle da produ\u00e7\u00e3o no mundo, o que diz respeito \u00e0 tens\u00e3o no Ir\u00e3, por exemplo: fazer esse movimento no Oriente M\u00e9dio tamb\u00e9m diz respeito ao controle do Estreito de Ormuz, a estrangular a chegada do petr\u00f3leo para a \u00cdndia, a China. A Venezuela entra nessa lista de ataque por causa do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o de mais de um s\u00e9culo entre os dois pa\u00edses piorou ap\u00f3s a Lei dos Hidrocarburetos, nos anos 1970?<\/strong><br \/>Antes dos anos 1970, houve governos que, no geral, preservaram essa alian\u00e7a comercial com os EUA. Alguns um pouco mais alinhados, outros mais cr\u00edticos, mas a alian\u00e7a n\u00e3o se desfez. Antes do chavismo, havia uma esp\u00e9cie de \u201camigos sim, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d: era uma rela\u00e7\u00e3o importante, mas os venezuelanos precisavam, em momentos cr\u00edticos, privilegiar seus interesses e isso acontecia. \u00c9 da\u00ed que vem esse processo de nacionaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. E os EUA nunca deixaram de estar presentes no territ\u00f3rio venezuelano, mesmo com a nacionaliza\u00e7\u00e3o. Com o chavismo, o que muda? O jarg\u00e3o se transforma em \u201cinimigos sim, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d, porque isso tamb\u00e9m \u00e9 preservado.<\/p>\n<p><strong>Quando a situa\u00e7\u00e3o muda?<\/strong><br \/>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a mudar um pouco no final do governo do Barack Obama: ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando do in\u00edcio do Maduro na Venezuela e na transi\u00e7\u00e3o para o primeiro governo de Donal Trump. O Obama abre um precedente que o Trump aproveita muito bem: o Obama, em 2015, decreta que a Venezuela \u00e9 uma amea\u00e7a extraordin\u00e1ria \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos EUA. Isso vai ter um reflexo direto sobre como o Departamento do Tesouro vai enxergar a Venezuela como um territ\u00f3rio de lavagem de dinheiro, de narcotr\u00e1fico, de financiamento ao terrorismo\u2026 E \u00e9 da\u00ed que v\u00eam as primeiras san\u00e7\u00f5es mais duras contra a economia. As san\u00e7\u00f5es come\u00e7am com Obama. O Trump inclui, pela primeira vez, o setor do petr\u00f3leo. Ent\u00e3o, se antes era \u201cinimigos sim, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d, agora os neg\u00f3cios come\u00e7am a entrar tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, entram nas san\u00e7\u00f5es o setor de petr\u00f3leo e da minera\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 um setor estrat\u00e9gico. O pr\u00f3prio Trump j\u00e1 tinha dito naquela ocasi\u00e3o que nenhuma op\u00e7\u00e3o estava descartada para lidar com a quest\u00e3o da Venezuela. Ent\u00e3o, j\u00e1 havia essa amea\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea esteve l\u00e1 naquele per\u00edodo, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>Eu estive l\u00e1 em 2017, era o comecinho do primeiro governo Trump, fiz algumas entrevistas e os venezuelanos demonstravam muita expectativa que os EUA poderiam levar adiante a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o, era uma grande esperan\u00e7a que eles tinham, porque acharam que tanto Bush (filho) quanto o Obama n\u00e3o foram firmes o suficientes com o problema da Venezuela. O Trump de fato aumentou as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, fechou o cerco, mas isso n\u00e3o produziu as mudan\u00e7as que eles esperavam. Depois veio o Biden, que usou as san\u00e7\u00f5es a seu favor: apertava quando queria pressionar e, quando ele precisava do petr\u00f3leo venezuelano, como por exemplo no momento da invas\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia, ele abrandava as san\u00e7\u00f5es para negociar. A\u00ed, vem o segundo governo Trump e faz as interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>E as acusa\u00e7\u00f5es sobre tr\u00e1fico de drogas?<\/strong><br \/>Essa quest\u00e3o das drogas era a justificativa oficial da movimenta\u00e7\u00e3o militar ali no Caribe, mas ficou claro que a Venezuela n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds produtor, n\u00e3o \u00e9 relevante como rota para o tr\u00e1fico internacional e menos ainda para a quest\u00e3o principal para os EUA, que s\u00e3o as drogas sint\u00e9ticas \u2013 aqui na Am\u00e9rica do Sul, \u00e9 basicamente a coca\u00edna. Mesmo assim, al\u00e9m dessa justificativa que vai sendo constru\u00edda ao longo dos anos \u2013 essa coisa de associar o regime da Venezuela \u00e0s drogas, a um narco Estado \u2013, h\u00e1 um outro elemento \u00e9 o fato de que a Venezuela, ao longo dos \u00faltimos anos foi se reposicionando geopoliticamente, \u00e0 medida que essa rela\u00e7\u00e3o com os EUA foi se deteriorando.<\/p>\n<p><strong>Pode dar um exemplo desse reposicionamento?<\/strong><br \/>Vou dar um exemplo que \u00e9 muito claro desse movimento e muito anterior a todo esse processo atual, estou falando de 20 anos atr\u00e1s, que foi quando ainda no governo Bush (filho), por conta das cr\u00edticas que o Hugo Chaves fazia \u00e0 guerra ao terror, \u00e0 doutrina Bush e \u00e0s interven\u00e7\u00f5es no Oriente M\u00e9dio, o Departamento de Estado imp\u00f4s a primeira san\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela. Na verdade, era um impedimento ao Estado Venezuelano de ter acesso ao complexo industrial militar dos EUA. O Chaves vinha fazendo um movimento de moderniza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas e se fechou a porta da principal ind\u00fastria do setor. Ent\u00e3o, caiu no colo da Venezuela a parceria com a R\u00fassia, que n\u00e3o era algo natural e foi se consolidando ao longo desses 20 anos, especificamente no setor militar. E isso foi se espalhando para outras \u00e1reas, inclusive a do petr\u00f3leo. Paralelamente, a gente tem o aumento da presen\u00e7a chinesa na Am\u00e9rica Latina como um todo e a Venezuela n\u00e3o passou distante dessa onda.<\/p>\n<p><strong><img alt=\"\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-263692\" src=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Entrevistada-Profa.-Carolina-Pedroso-Arquivo-Pessoal--300x187.jpeg\" alt=\"\" width=\"414\" height=\"263\" data-eio=\"l\"\/><\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma diversifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o comercial em raz\u00e3o das san\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>At\u00e9 2013, a principal parceria comercial da Venezuela era com os EUA. A partir de 2014, a China entra como principal compradora dos produtos venezuelanos e tamb\u00e9m como a principal fonte de produtos para a economia venezuelana. Ganha o espa\u00e7o dos EUA, que tamb\u00e9m se afastam. Mas esse reposicionamento geopol\u00edtico \u00e9 algo que a gente encontra at\u00e9 nos documentos dos EUA como sendo um dos motivos de preocupa\u00e7\u00e3o. Um documento que tamb\u00e9m consolidou a certeza de que esse ataque aconteceria foi a estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a nacional publicada em novembro de 2025, em que o governo dos EUA coloca explicitamente que a prioridade \u00e9 restabelecer o dom\u00ednio dos EUA sobre o hemisf\u00e9rio Ocidental \u2013 \u00e9 o termo que eles usam. E dentro dessa ideia de hemisf\u00e9rio Ocidental est\u00e1 o objetivo primordial de afastar, e se poss\u00edvel neutralizar, a presen\u00e7a de pot\u00eancias rivais na Am\u00e9rica Latina. A\u00ed, vale mencionar a aproxima\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m se produziu por conta das san\u00e7\u00f5es, entre a Venezuela e o Ir\u00e3, e que tamb\u00e9m alimenta essa ret\u00f3rica do Trump de que a Venezuela tem liga\u00e7\u00e3o com movimentos terroristas.<\/p>\n<p><strong>Como se d\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>O Ir\u00e3 \u00e9 uma economia sancionada. A Venezuela \u00e9 uma economia sancionada. E diante desses constrangimentos comerciais, eles buscaram estabelecer parcerias que s\u00e3o verdadeiros escambos: trocam um produto pelo outro. E houve tamb\u00e9m uma parceria na ind\u00fastria petroqu\u00edmica, j\u00e1 que o Ir\u00e3 tem bastante tecnologia que serve para suprir a aus\u00eancia das empresas norte-americanas que n\u00e3o t\u00eam suas licen\u00e7as autorizadas pelo governo Trump para continuar operando na Venezuela. O Ir\u00e3 ocupou esse espa\u00e7o e isso est\u00e1 explicitado na estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a nacional dos EUA.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o da retomada da nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo pelo Chaves, depois de um per\u00edodo com certa abertura para as empresas norte-americanas, tamb\u00e9m est\u00e1 considerada nesta estrat\u00e9gia?<\/strong><br \/>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Porque boa parte do que era a elite venezuelana antes do chavismo tamb\u00e9m faz parte da elite petroleira, pessoas que governavam o pa\u00eds e tinha controle na ind\u00fastria do petr\u00f3leo. E muitas dessas pessoas foram, inclusive, essa primeira di\u00e1spora; sa\u00edram do pa\u00eds logo quando o Chaves \u00e9 eleito e come\u00e7a a promover as mudan\u00e7as no setor. N\u00e3o s\u00e3o essas pessoas que migraram dez, quinze anos depois em raz\u00e3o da crise econ\u00f4mica. Foram migrantes que sa\u00edram com muitos recursos e foram para os EUA ou para a Espanha. Da\u00ed vai surgir esse grupo que vai fazer oposi\u00e7\u00e3o de fora do pa\u00eds. Nos EUA, boa parte deles na Fl\u00f3rida, onde fui fazer pesquisa. Para eles, houve um retrocesso, porque nos anos 1970 houve a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, com monop\u00f3lio 100% estatal; a\u00ed vem a crise, no final dos anos 1980 e o mesmo governo que nacionalizou (presidente Carlos Andr\u00e9s Peres) abriu o mercado para as empresas estrangeiras e reverteu a nacionaliza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quando Hugo Chaves \u00e9 eleito, vem com essa plataforma de resgatar alguns preceitos da nacionaliza\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 nos mesmos termos, menos radical. A lei dos hidrocarbonetos permite a participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras, mas em conjunto com a PDVEZA, na opera\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o. \u00c9 menos radical que a dos anos 1970, mas \u00e9 suficiente para gerar um caldeir\u00e3o, dentro e fora do pa\u00eds. O que acontece \u00e9 que, quando s\u00e3o colocado as san\u00e7\u00f5es, principalmente depois de 2017, em 2020, eles aprovam uma lei na Assembleia antibloqueio, que flexibiliza a lei de hidrocarbonetos para atrair o capital privado novamente, porque o Estado est\u00e1 quebrado. \u00c9 uma economia altamente dependente do Estado, que se consolida assim ainda no s\u00e9culo 20, antes do chavismo, Hugo Chaves aprofunda essa caracter\u00edstica (setor importador e exportador dependente), a Venezuela n\u00e3o produz alimentos, o que agrava a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 ruim por causa das san\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o a lei antibloqueio realmente atrai algumas empresas estrangeiras, Mas por que empresas norte-americanas n\u00e3o v\u00e3o? Porque o governo norte-americano n\u00e3o permite que elas atuem na Venezuela.<\/p>\n<p><strong>Agora, os EUA dizem que est\u00e3o salvando a Venezuela.<\/strong><br \/>\u00c9 interessante, porque, de fato, a Venezuela chegou a um ponto em que a venda de petr\u00f3leo para a R\u00fassia e a China se d\u00e1 abaixo do valor de mercado. \u00c9 basicamente para conseguir manter a estrutura funcionando e abaixo do que poderia operar. Ent\u00e3o, o discurso do Marco Rubio, por exemplo, \u00e9: agora estamos vendendo o petr\u00f3leo venezuelano com pre\u00e7o de mercado; olha como os chavistas deixaram o povo pobre; estamos salvando a economia. Mas ele n\u00e3o coloca nessa equa\u00e7\u00e3o que os EUA atuaram fortemente para destruir a economia venezuelana. Agora o discurso \u00e9 de que eles est\u00e3o reconstruindo, desfazendo parcerias que s\u00e3o desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>A\u00ed vem a nova lei dos hidrocarbonetos, no in\u00edcio deste ano. Como est\u00e1 o clima com Delcy Rodriguez?<\/strong><br \/>A nova lei foi um balde de \u00e1gua fria para aqueles que ainda tinham algum apre\u00e7o pelo projeto de nacionaliza\u00e7\u00e3o. O clima no momento e logo ap\u00f3s o ataque de 3 de janeiro, com o sequestro do Maduro, era de muita apreens\u00e3o, medo. Falou-se de ataque cir\u00fargico, mas quem vivenciou as horas de bombardeio ainda est\u00e1 muito abalado; pessoas morreram, mais de 400 domic\u00edlios foram destru\u00eddos. Ent\u00e3o, tem um impacto psicol\u00f3gico. Aos poucos, a situa\u00e7\u00e3o foi se normalizando. A verdade e que o venezuelano m\u00e9dio foi se acostumando a viver de uma forma surreal e a maior parte deles est\u00e1 cansada, quer ter vida normal, independentemente das suas quest\u00f5es ideol\u00f3gicas. Alguns se resignam e aceitam a interven\u00e7\u00e3o como uma chance de melhorar. Outros mant\u00e9m o brio nacionalista, reconhecem erros do chavismo, mas tamb\u00e9m que os EUA prejudicou o pa\u00eds; agora querem roubar o petr\u00f3leo. Um dos grandes anseios dos venezuelanos \u00e9 que haja reajuste dos sal\u00e1rios, porque muitas fam\u00edlias vivem de remessas de moedas estrangeiras de familiares que migraram. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o ligadas nas grandes quest\u00f5es estrat\u00e9gicas, querem saber se essa situa\u00e7\u00e3o vai trazer um retorno positivo para o agora, o dia a dia.<\/p>\n<p><strong>Quais as suas expectativas?<\/strong><br \/>Est\u00e1 se produzindo um equil\u00edbrio muito prec\u00e1rio entre dois grupos pol\u00edticos que t\u00eam vis\u00f5es muito distintas. N\u00e3o se tem clareza sobre se houve ou n\u00e3o trai\u00e7\u00e3o por parte da Delcy Rodrigues, ou por parte da c\u00fapula militar. Tudo \u00e9 muito nebulo e carece de transpar\u00eancia. Eu como pesquisadora sofro muito para ter acesso a dados. At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, era mais f\u00e1cil obter informa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 um clima de d\u00favidas. \u00c9 importante ressaltar que todas essas pessoas que ficaram na c\u00fapula sofrem san\u00e7\u00f5es individuais. A Uni\u00e3o Europeia pensa em levantar essas san\u00e7\u00f5es, o que leva a entender que o motivo das san\u00e7\u00f5es n\u00e3o era real, porque foram justificadas por envolvimento com o narcotr\u00e1fico, corrup\u00e7\u00e3o etc. E agora tudo isso desapareceu porque o Maduro foi capturado? H\u00e1 d\u00favidas sobre se essa situa\u00e7\u00e3o vai se sustentar por muito tempo. Eu tenho a impress\u00e3o de que, para o Trump, essa movimenta\u00e7\u00e3o internacional foi muito bem calculada para coincidir com um ano que ele sabe que ser\u00e1 dif\u00edcil, por conta das elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato. Internamente, os EUA est\u00e3o convulsionados pela quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o e pelo aumento dos n\u00edveis de autoritarismo do governo Trump. Mas parece haver um m\u00ednimo consenso entre democratas, republicanos e popula\u00e7\u00e3o de que o mundo \u00e9 um lugar melhor sem o Maduro no poder, ainda que se questione se quem ficou \u00e9 melhor ou pior. Isso pode ser usado como um trunfo pol\u00edtico. H\u00e1 tamb\u00e9m um fato interno \u00e0 Venezuela que \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de que houve algum alinhamento com os EUA: estabiliza\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o e depois transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o que eles teriam tido 15 minutos ali, depois da confirma\u00e7\u00e3o do sequestro do Maduro. Ou seja, deve ter sido algo do tipo: ou colabora, ou acontece o mesmo com voc\u00eas. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, o que as lideran\u00e7as poderiam fazer de diferente? Eventualmente, um discurso um pouco mais cr\u00edtico, mas a pr\u00e1tica tem demonstrado total alinhamento com os EUA, deixando a transi\u00e7\u00e3o para depois. Mant\u00e9m a estrutura de poder por algum tempo (a gente n\u00e3o sabe por quanto tempo), restabelece as exporta\u00e7\u00f5es para os EUA, a chegada de recursos em d\u00f3lar vai mudar a economia Venezuela e vai trazer resultado num curt\u00edssimo prazo \u2013 n\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto e sustent\u00e1vel. A d\u00favida \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica, a terceira etapa: como ser\u00e1 e quanto tempo vai demorar.<\/p>\n<p><strong>A minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um setor importante?<\/strong><br \/>A minera\u00e7\u00e3o acabou se tornando um setor mais importante do que era antes, justamente por causa das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. A Venezuela percebeu que ela n\u00e3o podia depender somente do petr\u00f3leo, nessa situa\u00e7\u00e3o de estrangulamento. Se tornou uma v\u00e1lvula de escape, o que tamb\u00e9m sedimentou uma alian\u00e7a importante da Venezuela com a Turquia, que tem uma ind\u00fastria importante de joias. E a Venezuela tem ouro, tem terras raras, \u00e9 riqu\u00edssima em termos minerais. Isso gerou muitos conflitos internos, aumentou a repress\u00e3o contra os ind\u00edgenas e ambientalistas \u2013 boa parte desses recursos est\u00e3o na Amaz\u00f4nia venezuelana e a gente sabe que os EUA n\u00e3o est\u00e3o nem um pouco preocupados com preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Essa presen\u00e7a norte-americana deve aprofundar ainda mais essa pol\u00edtica extrativista. Isso s\u00f3 vai tornar a Venezuela um pa\u00eds ainda mais dependente do mercado internacional.<\/p>\n<p><strong>Como fica a rela\u00e7\u00e3o Venezuela-Brasil e no \u00e2mbito da Am\u00e9rica latina?<\/strong><br \/>A Venezuela foi se tornando um elemento de polariza\u00e7\u00e3o de todas as sociedades latino-americanas. O Nicol\u00e1s Maduro \u00e9 uma das lideran\u00e7as mais mal avaliadas na regi\u00e3o \u2013 j\u00e1 era assim com Chaves e piorou com Maduro. Politicamente \u00e9 um tema que divide e, inclusive, constrange o governo Lula em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. A Venezuela \u00e9 um desafio para a pol\u00edtica externa do governo Lula atual, porque ele sempre foi associado como simpatizante \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o bolivariana. \u00c9 um tema que divide a esquerda na Am\u00e9rica Latina. O Boric, que est\u00e1 para sair da presid\u00eancia no Chile, fez cr\u00edticas muito duras ao governo venezuelano. A pr\u00f3pria Michelle Bachellet, quando estava \u00e0 frente do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, fez relat\u00f3rios importantes sobre a situa\u00e7\u00e3o na Venezuela. O Pepe Mujica tamb\u00e9m era um cr\u00edtico do autoritarismo que a Venezuela apresentava. \u00c9 um tema que, inevitavelmente, vai influenciar as elei\u00e7\u00f5es, porque as pessoas acham que a Venezuela era um problema, ainda que n\u00e3o concorde com a forma com que o Trump agiu. O Brasil j\u00e1 estava em uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil desde as elei\u00e7\u00f5es de 2024, quando o Celso Amorim, que foi acompanhar as vota\u00e7\u00f5es, saiu de Caracas quase que como persona non grata. Saiu com sensa\u00e7\u00e3o de derrota, porque o Brasil tinha uma expectativa de normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica para recolocar a Venezuela nos organismos regionais, como o Mercosul. Essa recoloca\u00e7\u00e3o ajudaria a fortalecer a pol\u00edtica externa brasileira. Por outro lado, acho que, principalmente Lula e Petros est\u00e3o muito preocupados com o futuro, porque s\u00e3o governos que podem se tornar alvos de san\u00e7\u00f5es \u2013 o Brasil j\u00e1 foi alvo de san\u00e7\u00f5es do governo Trump. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que deixa a Am\u00e9rica Latina um pouco mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/eua-estrangularam-a-economia-venezuelana-diz-especialista\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), Carolina Pedroso tem se dedicado a estudar o processo pol\u00edtico venezuelano, especialmente no cen\u00e1rio internacional. 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