{"id":66862,"date":"2026-03-08T14:22:14","date_gmt":"2026-03-08T17:22:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/literatura-e-resistencia-na-voz-das-mulheres-palestinas\/"},"modified":"2026-03-08T14:22:14","modified_gmt":"2026-03-08T17:22:14","slug":"literatura-e-resistencia-na-voz-das-mulheres-palestinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/literatura-e-resistencia-na-voz-das-mulheres-palestinas\/","title":{"rendered":"Literatura e resist\u00eancia na voz das mulheres palestinas"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>V\u00edtimas da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia sobre a vida para al\u00e9m do Ocidente, parecemos acostumados a naturalizar ataques das pot\u00eancias ocidentais a pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio. N\u00e3o importa quanto inconsistentes e estigmatizados sejam os argumentos, consideramos ter subs\u00eddios suficientes para ratificar nossos desenganos: s\u00e3o todos terroristas, radicais, violentos, antidemocr\u00e1ticos, incivilizados\u2026 A hist\u00f3ria pouco vale, talvez porque as guerra tenham origem justamente nas a\u00e7\u00f5es imperialistas das mesmas grandes pot\u00eancias, ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Assim tem sido em rela\u00e7\u00e3o a Palestina e aos territ\u00f3rios ocupados ou atacados por Israel, com apoio inconteste dos EUA \u2013 os mais recentes ataques come\u00e7aram em 2023. Uma narrativa hegem\u00f4nica tenta esconder sob os escombros a vida de arte, cultura e resist\u00eancia, ao longo de d\u00e9cadas. \u201cEm meados do s\u00e9culo XIX, um momento de grandes transforma\u00e7\u00f5es no mundo, as ideias iluministas tamb\u00e9m silenciavam as vozes femininas na regi\u00e3o. Mas j\u00e1 havia os salons (c\u00edrculos liter\u00e1rios) organizados por mulheres que j\u00e1 discutiam feminismo, domina\u00e7\u00e3o, colonialismo. \u00c9 quest\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o religiosa\u201d, afirma a jornalista e escritora Soraya Misleh. \u201cEnt\u00e3o, ao falar de literatura de resist\u00eancia e do protagonismo das mulheres, a gente se coloca contra uma narrativa desumanizante em rela\u00e7\u00e3o ao povo palestino\u201d.<\/p>\n<p>Paulistana de origem palestina, Soraya Misleh estar\u00e1 em Santos no s\u00e1bado (14) para lan\u00e7ar o livro \u201cMulheres palestinas: dos salons aos prim\u00f3rdios da literatura de resist\u00eancia\u201d, na livraria Realejo, \u00e0s 16h. A obra, desdobramento da tese de doutorado em Estudos \u00c1rabes defendida na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), abrange o per\u00edodo da segunda metade do s\u00e9culo 19 at\u00e9 os anos 1960.<\/p>\n<p>\u201cNa hist\u00f3ria can\u00f4nica em geral as mulheres s\u00e3o marginalizadas, viram notas de rodap\u00e9. Isso n\u00e3o \u00e9 diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da Palestina, das diferentes formas de resist\u00eancia. Ent\u00e3o, atrav\u00e9s da literatura eu falo no racismo, cruzando literatura e pol\u00edtica, porque n\u00e3o tem escapismos diante de uma situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel. O genoc\u00eddio ainda continua, com mais de 1.600 viola\u00e7\u00f5es de acordos, uma crise humanit\u00e1ria dram\u00e1tica em que 70% das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres e crian\u00e7as. Segundo a ONU Mulheres, a m\u00e9dia nesses dois \u00faltimos anos foi de duas mulheres assassinadas por hora. N\u00e3o d\u00e1 para voc\u00ea entender o que acontece hoje se n\u00e3o compreender a linha hist\u00f3rica\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_263250\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-263250\" class=\" wp-image-263250\" src=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Mulheres-Palestinas-Capa-do-livro-Divulgacao-209x300.jpeg\" alt=\"Capa do livro de Misleh\" width=\"230\" height=\"309\" data-eio=\"l\"\/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-263250\" class=\"wp-caption-text\">Capa do livro de Misleh<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>C\u00cdRCULOS LITER\u00c1RIOS<\/strong><br \/>Soraya Misleh relata que no s\u00e9culo 19 havia uma crescente influ\u00eancia europeia, uma tentativa de abrir mercados na regi\u00e3o, fato que tamb\u00e9m \u00e9 debatido nos c\u00edrculos liter\u00e1rios de mulheres. No livro, ela estuda autoras como May Ziadeh, cujo salon foi respons\u00e1vel por prol\u00edfica produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. \u201cEla abria a porta para os novos temas. Discutiam os acontecimentos do momento. J\u00e1 caminhando para o s\u00e9culo 20, era um processo muito rico de discuss\u00e3o pol\u00edtica e cultural e o sal\u00e3o dela era misto, com homens e mulheres. At\u00e9 o tema socialismo, pela influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa (1917), era colocado em discuss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A autora, que \u00e9 militante da causa palestina e pesquisadora, nos apresenta escritoras de diferentes vertentes. Exemplos: Samira Azzam, com contos e romances em narrativa realista; e as f\u00e1bulas, contos, poemas, autobiografia e romance de Najwa Kawar Farah. H\u00e1, ainda, Sadhij Nassar, jornalista e escritora que, de acordo com Misleh, foi a primeira mulher enviada a um campo de prisioneiros brit\u00e2nico na hist\u00f3ria da Palestina, em 1938, durante a grande revolta de 1936 a 1939.<\/p>\n<p>Outro destaque do livro \u00e9 Karimeh Abbu, primeira fot\u00f3grafa palestina, conhecida como Dama Fotografa, que viveu entre 1893 e 1940. \u201cUma obra muito importante, porque ela registrou modos de vida em lugares que n\u00e3o existem mais. Nem imaginava que estava registrando lugares que foram apagados do mapa e da hist\u00f3ria. As fotos ficaram perdidas, pois ela tamb\u00e9m saiu \u00e0s pressas, durante a expuls\u00e3o da limpeza \u00e9tnica. O interessante \u00e9 que um israelense encontrou as imagens e publicou um an\u00fancio no jornal perguntando se algu\u00e9m sabia quem ela era. Um palestino viu e resgatou\u201d, relata Soraya Misleh.<\/p>\n<p><strong>LITERATURA E GUERRA<\/strong><br \/>Com os recentes ataques e a destrui\u00e7\u00e3o na Faixa de Gaza a situa\u00e7\u00e3o mudou. Por\u00e9m, Soraya Misleh garante que as mulheres continuam \u201ccomo um pilar da sociedade para manter a dignidade em meio a condi\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis de vida\u201d. De acordo com ela, em Gaza, nos \u00faltimos dois anos e pouco, cresceu 300% o aborto espont\u00e2neo. Ela diz que o protagonismo feminino continua e a literatura ainda continua a ser uma forma de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em fun\u00e7\u00e3o de todas as tarefas e comprometimentos da mulher no cen\u00e1rio de guerra e genoc\u00eddio, houve um arrefecimento. Cita o exemplo de uma jovem que cantava e tocava ala\u00fade para distrair as crian\u00e7as do barulho dos m\u00edsseis. \u201cA literatura continua a ser importante porque a palestina, como comunidade, tem muita tradi\u00e7\u00e3o oral, inclusive. Elas bebem da fonte das pioneiras da literatura de resid\u00eancia. Uma autora \u00e9 a poeta e romancista Heba Abu Nada, martirizada aos 32 anos, em dezembro de 2025\u201d.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m destaca a presen\u00e7a de jornalistas. \u201cEu soube de uma que atravessou os dois filhos g\u00eameos para o Egito e voltou para cumprir a sua fun\u00e7\u00e3o social como jornalista. E ela falou: n\u00e3o vou deixar meus dois filhos porque eles n\u00e3o t\u00eam que passar por isso, mas n\u00e3o vou largar minha terra; vou contar o que est\u00e1 acontecendo aos seus olhos no mundo\u201d.<\/p>\n<p><strong>PAI E M\u00c3E<\/strong><br \/>Soraya conta que o pai tinha 13 anos quando a fam\u00edlia dele foi obrigada a sair da aldeia rural. \u201cEle foi um dos 800 mil palestinos expulsos violentamente na limpeza \u00e9tnica em 1948, o que a gente chama de Nakba (cat\u00e1strofe), quando foi formado o Estado colonial de Israel, em 72% do territ\u00f3rio hist\u00f3rico da Palestina. Foram cerca de 500 aldeias destru\u00eddas. A fam\u00edlia da minha m\u00e3e tamb\u00e9m \u00e9 palestina, dos territ\u00f3rios ocupados militarmente por Israel em 1967\u201d.<br \/>A autora viajou tr\u00eas vez na tentativa de visitar a Palestina, s\u00f3 conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o do governo de Israel uma \u00fanica vez.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornaldaorla.com.br\/noticias\/literatura-e-resistencia-na-voz-das-mulheres-palestinas\/\">Jornal Da Orla<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00edtimas da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia sobre a vida para al\u00e9m do Ocidente, parecemos acostumados a naturalizar ataques das pot\u00eancias ocidentais a pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio. 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