{"id":62819,"date":"2026-02-13T02:54:48","date_gmt":"2026-02-13T05:54:48","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/super-bowl-e-a-bad-ideia\/"},"modified":"2026-02-13T02:54:48","modified_gmt":"2026-02-13T05:54:48","slug":"super-bowl-e-a-bad-ideia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/super-bowl-e-a-bad-ideia\/","title":{"rendered":"Super Bowl e a Bad ideia"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"tp-post-content\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O espet\u00e1culo do intervalo do Super Bowl deste ano foi mais que um concerto. Na verdade, foi a amplifica\u00e7\u00e3o de um produto de quinta qualidade embalado com manifesto pol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Durante treze minutos, os Estados Unidos contemplaram um subproduto da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica convertido em oportunidade de neg\u00f3cio. A iconografia porto-riquenha foi apresentada como resumo da latinidade, e Bad Bunny conduziu os espectadores por um bairro estilizado: canaviais, mesas de domin\u00f3, sal\u00f5es de manicure, barracas de comida de rua, cen\u00e1rios que remetem a bairros latinos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Quase ningu\u00e9m entende o que ele canta, mesmo entre os latinos. Mas isso pouco importava ali. O que estava no palco era uma mensagem anti-Trump e uma isca para o p\u00fablico latino que supostamente \u00e9 o mais afetado pelas opera\u00e7\u00f5es de captura de imigrantes ilegais.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Por essa raz\u00e3o, a identifica\u00e7\u00e3o latina com Bad Bunny \u00e9 mais pol\u00edtica que cultural. Comecemos pelo princ\u00edpio: o que se viu em campo foi um desfile de estere\u00f3tipos. Porto Rico, com seus tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes, n\u00e3o resume a Am\u00e9rica Latina. Muito menos a vers\u00e3o badbunnyana apresentada resume a ilha.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Os latinos, mais uma vez, foram embalados como se a Am\u00e9rica Latina fosse uma coisa s\u00f3, embalada pela batida do reggaeton e pelos passos do perreio, que \u00e9 a vers\u00e3o mais erotizada poss\u00edvel da dan\u00e7a porto-riquenha.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A sexualidade n\u00e3o \u00e9 estranha \u00e0 m\u00fasica latina. Mas a transmiss\u00e3o resolveu dar dimens\u00e3o superlativa ao corpo feminino. Ou melhor, ao corpo da latina, sempre erotizada em suas formas abundantes e rodeando malandr\u00f5es sensuais e musculosos numa coreografia que transforma a celebra\u00e7\u00e3o em exotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">N\u00e3o \u00e9 novidade. Em 2020, J.Lo e Shakira j\u00e1 haviam sido criticadas por transformar a latinidade em espet\u00e1culo de corpos. Mas isso s\u00f3 ocorreu porque as pobrezinhas estavam ali para animar o evento, e n\u00e3o fazer pol\u00edtica. Se naquela \u00e9poca estivessem na onda Fuera ICE, elas teriam sido celebradas.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O que nos leva \u00e0 outra \u201cm\u00e1 ideia\u201d escondida \u00e0 vista de todos: a pol\u00edtica de nomenclatura. Em partes da academia e do ativismo latino-americanos, alguns insistem que os Estados Unidos da Am\u00e9rica s\u00e3o apenas \u201cos Estados Unidos\u201d. \u201cAm\u00e9rica\u201d somos todos. O resultado disso \u00e9 que a nacionalidade \u201camericano\u201d tem sido cada vez mais considerada ileg\u00edtima, tendo sido substitu\u00edda pela forma original em espanhol, \u201cestadunidense\u201d, e cada vez mais em portugu\u00eas tamb\u00e9m. Bad Bunny fez quest\u00e3o de refor\u00e7ar isso no seu espet\u00e1culo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Mas essa mudan\u00e7a, que \u00e9 vendida como precis\u00e3o, \u00e9, na realidade, ret\u00f3rica que tem ganhado for\u00e7a como resist\u00eancia ao slogan pol\u00edtico do presidente Donald Trump, que se elegeu pela primeira vez em 2016 sob o mote de \u201cFa\u00e7a a Am\u00e9rica grande de novo\u201d. O plano de tentar esvaziar as mensagens do presidente Trump em todas as frentes poss\u00edveis retomou esse argumento sindical e bem colegial de que a Am\u00e9rica \u00e9 o continente e n\u00e3o um pa\u00eds.<\/p>\n<div class=\"postViewMore_post-view-more-container___5wai\" data-mrf-recirculation=\"Post - Veja tamb\u00e9m\">\n<p class=\"gp-styles-module-size-small-afeYRa gp-styles-module-font-family2-afeYRa gp-styles-module-color-secondary-afeYRa gp-styles-module-weight-bold-afeYRa\">VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<ul class=\"postViewMore_post-view-more-list__CU_CE\">\n<li class=\"postViewMore_post-view-more-item__2MzRb\"><span class=\"postViewMore_post-view-more-link-icon___stPC\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"16\" height=\"16\" viewbox=\"0 0 16 16\"><rect width=\"16\" height=\"16\" fill=\"none\"\/><g transform=\"translate(3 3)\"><path d=\"M22.5,15l3.4,3.4-3.4,3.4\" transform=\"translate(-15.896 -11.793)\" fill=\"none\" stroke=\"#717171\" stroke-linecap=\"round\" stroke-width=\"1.4\"\/><path d=\"M6,6v4.2a2.452,2.452,0,0,0,2.5,2.4H16\" transform=\"translate(-6 -6)\" fill=\"none\" stroke=\"#717171\" stroke-linecap=\"round\" stroke-width=\"1.4\"\/><\/g><\/svg><\/span><span class=\"postViewMore_post-view-more-link-text__hO_kM\">Capturar Maduro foi a parte f\u00e1cil \u2014 agora vem o verdadeiro desafio na Venezuela<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Pois bem, vamos tentar entender por que isso \u00e9 de uma burrice descomunal. Antes de sua independ\u00eancia, que neste ano completa 250 anos, o que havia onde hoje \u00e9 conhecido como Estados Unidos da Am\u00e9rica eram treze col\u00f4nias que tinham vida pr\u00f3pria e se relacionavam muito lateralmente sob o controle brit\u00e2nico.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Identificando-se pelo gent\u00edlico de cada uma das col\u00f4nias, essas pessoas tinham em comum apenas uma coisa: a terra em que viviam, a qual eles sempre chamaram de Am\u00e9rica, que evidentemente \u00e9 derivada do nome do continente inteiro, tal como foi batizado s\u00e9culos antes. Quando se tornaram independentes, finalmente deram origem a um pa\u00eds e deram um nome t\u00e3o simples quanto referencial: Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O que isso significa? Cada uma das col\u00f4nias agora independentes passou a se organizar como estado e, como tal, se federalizaram em torno de um pa\u00eds que eles escolheram chamar de Am\u00e9rica, em refer\u00eancia ao lugar em que vivem. Por fim, Estados Unidos \u00e9 mais sobre a organiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds do que sobre o nome do lugar que, gostem ou n\u00e3o, tem o mesmo nome do continente todo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">\u201cAh, voc\u00ea est\u00e1 errado\u201d, quem chegou at\u00e9 aqui pode dizer. Ent\u00e3o vejamos alguns exemplos: Os cidad\u00e3os dos Estados Unidos Mexicanos s\u00e3o chamados de mexicanos ou estadunidenses? Pouca gente sabe ou finge n\u00e3o saber que o nome oficial do M\u00e9xico tamb\u00e9m \u00e9 Estados Unidos. A obviedade \u00e9 reluzente: M\u00e9xico \u00e9 o lugar, e Estados Unidos \u00e9 a forma como o Estado se comp\u00f5e como uma federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Podemos ir al\u00e9m. O Brasil teve como nome oficial \u201cEstados Unidos do Brasil\u201d at\u00e9 1968. Em algum momento deixamos de ser chamados brasileiros? N\u00e3o teria sido o caso de sermos conhecidos como estadunidenses? Claro que n\u00e3o. Assim como na Am\u00e9rica ou no M\u00e9xico, os \u201cEstados Unidos\u201d no nome oficial fazem refer\u00eancia \u00e0 composi\u00e7\u00e3o do Estado, e n\u00e3o ao lugar.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A Col\u00f4mbia se chamou \u201cEstados Unidos da Col\u00f4mbia\u201d de 1863 a 1886. A Venezuela estabeleceu os \u201cEstados Unidos da Venezuela\u201d em 1864; esse nome durou at\u00e9 1953. Ningu\u00e9m inventou gent\u00edlico ideol\u00f3gico algum nem para eles nem para n\u00f3s. Mas por que temos que encher o saco dos americanos e come\u00e7ar a pregar, dentro da pr\u00f3pria Am\u00e9rica, que eles t\u00eam que abandonar a sua identidade e \u201cnos devolver um nome que deve ser comum\u201d?<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Aqui est\u00e1 a linha fina entre o show do intervalo e o ativismo.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<div class=\"postQuote_post-quote-content__wp4c4\">\n<p>A identidade latina foi reduzida aos piores estere\u00f3tipos poss\u00edveis, mas agradou por apresentar uma suposta autodetermina\u00e7\u00e3o amparada em uma falsifica\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica e hist\u00f3rica<\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Por pirra\u00e7a pol\u00edtica e m\u00e1-f\u00e9, o maior palco da Am\u00e9rica se transformou em um evento antiamericano. N\u00e3o se celebrou diversidade alguma nele. O que o Super Bowl proporcionou foi um palanque para ingratid\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra a identidade de uma na\u00e7\u00e3o e seu povo, que \u00e9 mais diverso e aberto que em qualquer outro pa\u00eds do continente americano.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/leonardo-coutinho\/super-bowl-e-a-bad-ideia\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espet\u00e1culo do intervalo do Super Bowl deste ano foi mais que um concerto. Na verdade, foi a amplifica\u00e7\u00e3o de um produto de quinta qualidade embalado com manifesto pol\u00edtico. Durante treze minutos, os Estados Unidos contemplaram um subproduto da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica convertido em oportunidade de neg\u00f3cio. 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