{"id":61591,"date":"2026-02-05T23:54:21","date_gmt":"2026-02-06T02:54:21","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/de-olhos-bem-fechados-e-a-fronteira-invisivel-da-perversidade\/"},"modified":"2026-02-05T23:54:21","modified_gmt":"2026-02-06T02:54:21","slug":"de-olhos-bem-fechados-e-a-fronteira-invisivel-da-perversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/de-olhos-bem-fechados-e-a-fronteira-invisivel-da-perversidade\/","title":{"rendered":"De Olhos Bem Fechados e a fronteira invis\u00edvel da perversidade"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"tp-post-content\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>De Olhos Bem Fechados (1999), <\/em>\u00faltimo filme de Kubrick, envelhece para frente. Cada \u00e9poca descobre ali uma camada nova. O objeto nunca foi um esc\u00e2ndalo pontual. Kubrick investigou o autoengano do progressista moderno: a cren\u00e7a de que educa\u00e7\u00e3o, renda e bons modos garantem livre circula\u00e7\u00e3o entre classes e c\u00f3digos das pessoas distintas. A ilus\u00e3o progressista desmorona diante da primeira fronteira invis\u00edvel. Essa \u00e9 uma semana oportuna para lembrar dessa obra-prima.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Dr. Bill Harford (Tom Cruise) vive um casamento aparentemente est\u00e1vel com Alice (Nicole Kidman), curadora de arte. Ap\u00f3s uma festa de Natal, a esposa confessa atra\u00e7\u00e3o antiga por um desconhecido, um impulso t\u00e3o forte que seria capaz de abandonar marido e filha. Para ser preciso, Alice conta um sonho em que fazia sexo com o oficial da marinha.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A revela\u00e7\u00e3o desestabiliza Bill. A partir da\u00ed, ele vaga pelas ruas de Nova York, assombrado pela imagem da esposa com outro homem. A confiss\u00e3o atinge Bill onde sua identidade parece mais s\u00f3lida: a convic\u00e7\u00e3o de controle e uma vida est\u00e1vel. Alice revela um mundo interno que escapa \u00e0 vigil\u00e2ncia de Bill. Kubrick filma sem melodrama.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Essa fissura desorganiza Bill e o empurrar\u00e1 para o submundo do poder. Ele descobre que estabilidade social n\u00e3o equivale a soberania afetiva. A noite de err\u00e2ncia nasce dessa ferida. Cada encontro funciona como tentativa de compensa\u00e7\u00e3o. Prostituta, flerte, promessa impl\u00edcita. Nada se consuma. O desejo permanece suspenso, sempre interrompido. Bill flerta, mas resiste.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<div class=\"postQuote_post-quote-content__wp4c4\">\n<p>Em tempos de exposi\u00e7\u00e3o permanente e esc\u00e2ndalos p\u00fablicos, Kubrick lembra que a superf\u00edcie do choque raramente atinge o centro do poder.<\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Ele ocupa o espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre poder e servi\u00e7o. M\u00e9dico convidado para festas sofisticadas, tratado com defer\u00eancia. Ele se imagina pr\u00f3ximo do centro. Tudo parece acess\u00edvel. Portas se abrem, convites surgem, senhas circulam. A cidade noturna funciona como corredor social. Dinheiro, profiss\u00e3o e charme operam como chaves universais. Bill anda como quem domina o mapa. A trag\u00e9dia discreta nasce dessa autoconfian\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O ponto de inflex\u00e3o surge quando ele se infiltra em sociedade secreta que organiza orgias ritual\u00edsticas em mans\u00e3o afastada, frequentada pela elite nova-iorquina. Durante o ritual, o Mestre de Cerim\u00f4nias vestido com manto vermelho e m\u00e1scara sinistra confronta Bill sobre senha que ele desconhece. Em geral, fixamos o olhar no erotismo. Kubrick dirige a aten\u00e7\u00e3o para a organiza\u00e7\u00e3o e toda liturgia sat\u00e2nica. H\u00e1 hierarquia, coreografia, sil\u00eancio funcional. A trilha sonora n\u00e3o \u00e9 um detalhe. Ele nos empurra para um ambiente perturbador. Ali, o sexo funciona como linguagem de coes\u00e3o interna. Cada gesto cumpre fun\u00e7\u00e3o. Cada corpo ocupa lugar substitu\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Bill entra como observador. Erro decisivo. O ritual tolera participantes, jamais curiosos. O liberal ilustrado acredita que observar equivale a participar. A elite verdadeira funciona por outro princ\u00edpio: pertencimento precede o olhar. Quem v\u00ea sem autoriza\u00e7\u00e3o exp\u00f5e o pr\u00f3prio desajuste. Por isso as m\u00e1scaras.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A amea\u00e7a jamais assume tom hist\u00e9rico e rosto. Ela se expressa com calma administrativa. H\u00e1 regras. H\u00e1 consequ\u00eancias. A viol\u00eancia aparece como possibilidade organizada, n\u00e3o como explos\u00e3o. Kubrick descreve o poder que se protege com efici\u00eancia, economia de gestos e terceiriza\u00e7\u00e3o do custo moral. A mulher que se oferece para salvar Bill n\u00e3o encarna sacrif\u00edcio rom\u00e2ntico. Ela cumpre fun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. Isto \u00e9, um sistema que absorve o desvio, elimina o ru\u00eddo, preserva o n\u00facleo de sua hierarquia. Bill sai vivo porque \u00e9 \u00fatil. Ele aprende a diferen\u00e7a entre circular e pertencer. Ele descobre um outro mundo. Um mundo que n\u00e3o pode pertencer.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O m\u00e9rito do filme est\u00e1 em evitar discurso conspirat\u00f3rio vulgar. Nada sugere sociedade secreta governando o mundo. O que se v\u00ea \u00e9 mais banal e mais perturbador: elites que se reconhecem, se protegem e se reproduzem por c\u00f3digos informais, invis\u00edveis ao discurso p\u00fablico. O poder real est\u00e1 longe da indigna\u00e7\u00e3o e paix\u00f5es mobilizadoras. O poder se organiza sem ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Kubrick dispensa o conforto da den\u00fancia moral. Bill n\u00e3o sai transformado em her\u00f3i. Ele retorna ao seu lugar. A vidinha ordin\u00e1ria do bom cidad\u00e3o. O choque n\u00e3o produz revolu\u00e7\u00e3o interior. O espectador acompanha algu\u00e9m que v\u00ea demais e continua vivendo. O custo da lucidez aparece alto demais para ser pago integralmente. Melhor fechar os olhos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A atualidade do filme reside a\u00ed. Em tempos de exposi\u00e7\u00e3o permanente e esc\u00e2ndalos p\u00fablicos, Kubrick lembra que a superf\u00edcie do choque raramente atinge o centro do poder. A revela\u00e7\u00e3o excita, indigna, cansa. O sistema permanece. Ele conta com o esquecimento, com a troca de assunto, com o retorno \u00e0 normalidade.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Kubrick filmou o liberal ilustrado como figura tr\u00e1gica do mundo moderno. Engolido pela pr\u00f3pria estupidez. Algu\u00e9m convencido de que mobilidade social equivale a pertencimento simb\u00f3lico. A fronteira invis\u00edvel desmonta essa fantasia sem discurso. Basta ritual fechado, senha indevida, aviso em tom calmo. No fim, o t\u00edtulo assume pleno sentido. Olhos bem fechados expressam escolha. Ver custa. Pertencer custa mais. A maioria prefere seguir em frente e fingir que nada est\u00e1 acontecendo. Kubrick sugere que algumas portas existem apenas para lembrar quem jamais deveria tentar abri-las.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Em 5 de mar\u00e7o de 1999, Kubrick realizou uma segunda exibi\u00e7\u00e3o do filme para um representante brit\u00e2nico da Warner Bros. em sua casa em Childwickbury. Kubrick morreu repentinamente dois dias depois, v\u00edtima de um ataque card\u00edaco<em>.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/francisco-razzo\/de-olhos-bem-fechados-kubrick-analise\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Olhos Bem Fechados (1999), \u00faltimo filme de Kubrick, envelhece para frente. Cada \u00e9poca descobre ali uma camada nova. O objeto nunca foi um esc\u00e2ndalo pontual. 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