{"id":59631,"date":"2026-01-26T01:28:24","date_gmt":"2026-01-26T04:28:24","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/dependencia-digital-e-crise-entre-jovens\/"},"modified":"2026-01-26T01:28:24","modified_gmt":"2026-01-26T04:28:24","slug":"dependencia-digital-e-crise-entre-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/dependencia-digital-e-crise-entre-jovens\/","title":{"rendered":"depend\u00eancia digital e crise entre jovens"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"tp-post-content\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Em seu filme de 1977, <em>O ovo da serpente<\/em>, Ingmar Bergman retratava a paulatina degrada\u00e7\u00e3o de um casal na Berlim do ano de 1923. Ali a fome e o desemprego estavam generalizados, e come\u00e7ava a aparecer, vis\u00edvel como sob a casca transparente de um \u201covo de serpente\u201d, o germinar do totalitarismo e do antissemitismo que eclodiriam mais tarde. Aos que nunca assistiram ao filme, devo adiantar: n\u00e3o assistam se estiverem buscando algo relaxante, inspirador ou edificante. O filme \u00e9 tenso, tr\u00e1gico, preocupante. Contudo, relembro essa pe\u00e7a do cinema justamente porque tem algo na nossa situa\u00e7\u00e3o atual que \u00e9 tamb\u00e9m muito tenso, tr\u00e1gico e preocupante \u2013 perturbador, como o filme \u00e9 perturbador.\u00a0Eu fiquei pensando nele desde que, na quinzena passada, publiquei aqui artigo sobre os prop\u00f3sitos de Ano Novo, dizendo que, na circunst\u00e2ncia em que a maioria se encontra, qualquer prop\u00f3sito de in\u00edcio de ano seria algo v\u00e3o sem que antes se recuperasse a capacidade mesma de cumprir um m\u00ednimo prop\u00f3sito, a capacidade de fixar a aten\u00e7\u00e3o, em suma, sem que antes se prestasse o devido cuidado ao v\u00edcio do celular e das redes sociais.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Falei ali sobre os problemas que esse h\u00e1bito terr\u00edvel causa \u00e0 nossa faculdade da aten\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m \u00e0 faculdade da nossa mem\u00f3ria, e sugeri algumas medidas, dicas simples, que poderiam abrir o caminho para uma melhora. Mas depois pensei, entretanto, que talvez n\u00e3o tenha dado a devida dimens\u00e3o do problema, que n\u00e3o \u00e9 apenas grave, mas grav\u00edssimo, capital, e que deveria aprofund\u00e1-lo um pouco mais, j\u00e1 que n\u00e3o o vejo sendo tratado em outros meios. Falo sempre sobre o problema do uso de telas com nossos filhos, e incentivo o seu abandono. Mas reparem que j\u00e1 h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o inteira que n\u00e3o sabe o que \u00e9 a vida sem elas \u2013 e os pr\u00f3prios pais, adultos, como tirar\u00e3o das m\u00e3os de seus filhos aquilo que est\u00e1 grudado \u00e0s suas pr\u00f3prias?<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No filme de Bergman, o casal tenta escapar da mis\u00e9ria aceitando uma esp\u00e9cie de emprego com seus benef\u00edcios: o homem deve trabalhar em suspeit\u00edssimos e escusos escrit\u00f3rios do regime, e o casal pode ent\u00e3o morar num pequeno apartamento oferecido pelo empregador. Como disse acima, o filme retrata a paulatina degrada\u00e7\u00e3o desse casal, num crescente de irrita\u00e7\u00e3o, ang\u00fastia, medo, desconforto, doen\u00e7a, incompreens\u00e3o, desespero. Ladeira abaixo, eles param \u00e0 beira da loucura. Descobre-se, enfim \u2014 aten\u00e7\u00e3o!, <em>spoiler<\/em> \u2014, que aquilo tudo faz parte de um tenebroso experimento humano, promovido por insanos cientistas pr\u00e9-nazistas: naquele pequeno apartamento, est\u00e1 o tempo todo sendo liberado um g\u00e1s que adoece e confunde o ser humano, enquanto seu comportamento \u00e9 observado por c\u00e2meras e vigias atr\u00e1s dos espelhos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Aonde quero chegar? Ao fato de que o uso viciante dos celulares e das redes sociais est\u00e1 crescendo a olhos vistos, como uma cria de serpente sob a casca transparente; est\u00e1 sendo inalado no nosso ar, todos n\u00f3s estamos vivendo imersos nessa atmosfera enlouquecedora; as pessoas est\u00e3o ficando verdadeiramente viciadas, e est\u00e3o sofrendo as graves consequ\u00eancias desse v\u00edcio, e mesmo assim a maior parte das pessoas parece estar demorando a se dar conta da gravidade do problema. Trarei abaixo algumas informa\u00e7\u00f5es e algumas conex\u00f5es, tiradas especialmente do livro j\u00e1 mencionado antes, o estudo do Dr. Iturrieta, doutor em filosofia pol\u00edtica e jur\u00eddica pela Universidade Carleton do Canad\u00e1.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<div class=\"postQuote_post-quote-content__wp4c4\">\n<p>O uso viciante dos celulares e das redes sociais est\u00e1 crescendo a olhos vistos, como uma cria de serpente sob a casca transparente<\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Chamo a aten\u00e7\u00e3o, hoje, n\u00e3o diretamente para o que o uso intenso e adictivo das redes sociais causam no c\u00e9rebro humano, mas sim para as mudan\u00e7as que elas v\u00eam causando ao nosso comportamento.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No final do s\u00e9culo xx, os pesquisadores come\u00e7aram a identificar a depend\u00eancia de <em>internet<\/em> como um novo dist\u00farbio cl\u00ednico. Observou-se que a experi\u00eancia digital ativa mecanismos cerebrais semelhantes aos provocados por subst\u00e2ncias qu\u00edmicas: momentos de excita\u00e7\u00e3o e prazer seguidos por um desejo crescente de repeti\u00e7\u00e3o. Ainda quando a tecnologia era limitada, j\u00e1 se notava seu potencial de gerar depend\u00eancia. Com a populariza\u00e7\u00e3o dos <em>smartphones<\/em>, da <em>internet<\/em> r\u00e1pida e do acesso constante, esse potencial foi amplificado de forma dram\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A depend\u00eancia digital pode ser descrita como <em>um conjunto de preocupa\u00e7\u00f5es, impulsos e comportamentos mal controlados relacionados ao uso da tecnologia, capazes de provocar sofrimento psicol\u00f3gico, preju\u00edzos sociais e deteriora\u00e7\u00e3o da vida cotidiana<\/em>. Ela se manifesta quando a pessoa recorre repetidamente a um comportamento que produz al\u00edvio ou prazer imediato, mas gera danos significativos a m\u00e9dio e longo prazo. No caso da <em>internet<\/em>, esses danos incluem altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas, transtornos emocionais, conflitos interpessoais, sintomas de abstin\u00eancia e reca\u00eddas frequentes.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas afetadas por algum grau de depend\u00eancia digital cresceu de forma acelerada, especialmente entre jovens. Em v\u00e1rios pa\u00edses, observa-se uma concentra\u00e7\u00e3o maior desses quadros em faixas et\u00e1rias mais novas, e o n\u00famero de indiv\u00edduos encaminhados a tratamento cl\u00ednico aumentou de maneira exponencial. Em algumas regi\u00f5es do mundo, j\u00e1 existem centenas de cl\u00ednicas especializadas no tratamento da depend\u00eancia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Apesar disso, ainda \u00e9 comum resistir \u00e0 ideia de que o uso do celular possa ser comparado a outras formas de depend\u00eancia. No entanto, as consequ\u00eancias do uso abusivo da tecnologia apresentam caracter\u00edsticas muito semelhantes \u00e0s observadas no abuso de subst\u00e2ncias: sintomas de abstin\u00eancia, altera\u00e7\u00f5es de humor, mudan\u00e7as no funcionamento cerebral, libera\u00e7\u00e3o repetida de dopamina, preju\u00edzo em \u00e1reas essenciais da vida e dificuldades crescentes para cumprir obriga\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Do ponto de vista neurol\u00f3gico, o mecanismo \u00e9 claro: a repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de est\u00edmulos altamente recompensadores leva o c\u00e9rebro a reduzir progressivamente a produ\u00e7\u00e3o de dopamina. Com isso, torna-se necess\u00e1rio aumentar a intensidade ou a frequ\u00eancia da experi\u00eancia para alcan\u00e7ar o mesmo n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o. Entre um est\u00edmulo e outro, instala-se um vazio emocional cada vez mais profundo, que refor\u00e7a o ciclo de depend\u00eancia. E esses efeitos s\u00e3o bem vis\u00edveis no cotidiano: basta observar a rea\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a quando o dispositivo lhe \u00e9 retirado, ou a din\u00e2mica de muitas fam\u00edlias durante as refei\u00e7\u00f5es, em que cada membro permanece imerso em sua pr\u00f3pria tela.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Hoje, torna-se cada vez mais dif\u00edcil ignorar a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia. Investiga\u00e7\u00f5es recentes indicam que plataformas digitais s\u00e3o deliberadamente desenhadas para capturar e manter a aten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, explorando mecanismos psicol\u00f3gicos e neurol\u00f3gicos para maximizar engajamento. Esses sistemas n\u00e3o apenas incentivam o consumo, mas tamb\u00e9m <em>moldam percep\u00e7\u00f5es<\/em>, <em>influenciam a forma de pensar<\/em> e <em>produzem vis\u00f5es distorcidas sobre a realidade<\/em>, sobre si mesmo e sobre os outros.\u00a0A depend\u00eancia da <em>internet<\/em> n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso. Ela resulta de um processo cuidadosamente estudado, testado e refinado em tempo real, sobre milh\u00f5es de usu\u00e1rios, para que cada elemento \u2014 <em>design<\/em>, cores, sons, notifica\u00e7\u00f5es e algoritmos \u2014 seja cada vez mais eficaz em capturar e reter a aten\u00e7\u00e3o. O objetivo central dessas plataformas \u00e9 alcan\u00e7ar n\u00edveis extremamente elevados de engajamento, sem que o bem-estar do usu\u00e1rio represente um crit\u00e9rio relevante nessa equa\u00e7\u00e3o. As grandes plataformas tecnol\u00f3gicas dependem da extra\u00e7\u00e3o massiva de dados e do tempo de perman\u00eancia do usu\u00e1rio para gerar lucro. Criar comportamentos adictivos significa aumentar ganhos financeiros, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o h\u00e1 incentivo real para limitar esses mecanismos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Especialistas em \u00e9tica da tecnologia t\u00eam insistido que o problema n\u00e3o est\u00e1 na falta de for\u00e7a de vontade individual, mas no fato de que os sistemas digitais s\u00e3o deliberadamente projetados para minar o autocontrole humano. O ambiente digital, assim configurado, torna-se muito mais prop\u00edcio \u00e0 depend\u00eancia do que qualquer contexto que a humanidade tenha conhecido at\u00e9 hoje!<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<div class=\"postQuote_post-quote-content__wp4c4\">\n<p>A migra\u00e7\u00e3o para o mundo digital foi t\u00e3o radical que transformou o brincar, a conviv\u00eancia e a intera\u00e7\u00e3o social de crian\u00e7as e adolescentes em experi\u00eancias predominantemente mediadas por telas<\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Grande parte dos aplicativos opera com fluxos infinitos de conte\u00fado. N\u00e3o h\u00e1 um ponto natural de encerramento: as redes sociais nunca se esgotam, as plataformas de <em>streaming<\/em> iniciam automaticamente o pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, os aplicativos de relacionamento exploram mecanismos biol\u00f3gicos ligados \u00e0 busca por v\u00ednculo e recompensa. Em teoria, seria poss\u00edvel passar uma vida inteira nessas plataformas sem jamais alcan\u00e7ar um fim. N\u00e3o \u00e9 por acaso que muitos executivos e engenheiros dessas empresas imp\u00f5em limites rigorosos ao uso de tecnologia dentro de suas pr\u00f3prias casas&#8230; Eles conhecem de perto os riscos envolvidos e sabem o impacto que esses mecanismos podem ter sobre crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Ora, diversos estudos indicam que crian\u00e7as e jovens que passam mais tempo diante das telas apresentam maior preval\u00eancia de sintomas de depress\u00e3o, ansiedade e idea\u00e7\u00e3o suicida do que aqueles que dedicam mais tempo a atividades n\u00e3o mediadas por dispositivos digitais. Um dado particularmente revelador \u00e9 que o aumento significativo desses sintomas entre adolescentes coincide, a partir da d\u00e9cada passada, com a populariza\u00e7\u00e3o dos <em>smartphones<\/em> e das redes sociais de uso di\u00e1rio. Jovens que passam v\u00e1rias horas por dia conectados apresentam riscos estat\u00edsticos consideravelmente maiores de sofrimento ps\u00edquico grave quando comparados \u00e0queles cujo uso \u00e9 mais restrito.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">As redes sociais, em particular as plataformas visuais e de consumo r\u00e1pido, v\u00eam substituindo todas as formas de intera\u00e7\u00e3o presencial entre os jovens. A sociabilidade digital, praticamente ilimitada e desvinculada de qualquer lugar f\u00edsico, cria um ambiente em que aspectos centrais da vida adolescente passam a ser expostos e avaliados publicamente. O tamanho do c\u00edrculo social, a apar\u00eancia f\u00edsica, os gostos e at\u00e9 a intimidade emocional ficam submetidos \u00e0 contagem impessoal de curtidas e coment\u00e1rios \u2014 muitas vezes hostis ou depreciativos. Esse mecanismo tende a intensificar tra\u00e7os j\u00e1 delicados do comportamento adolescente, como a busca por aprova\u00e7\u00e3o, a compara\u00e7\u00e3o constante e a instabilidade emocional.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Sa\u00edmos de um modelo baseado principalmente em mensagens trocadas entre amigos para outro centrado na publica\u00e7\u00e3o de imagens cuidadosamente editadas, expostas \u00e0 espera de coment\u00e1rios e de uma contagem p\u00fablica de curtidas. No in\u00edcio, poucos perceberam que essa mudan\u00e7a nos colocava sob um regime permanente de julgamento p\u00fablico, potencialmente devastador. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que uma \u00fanica postagem foi suficiente para submeter uma adolescente a esc\u00e1rnio p\u00fablico \u2014 n\u00e3o apenas no ambiente escolar, mas tamb\u00e9m em escala muito mais ampla, por meio de ataques virtuais de desconhecidos. Essas experi\u00eancias deixam marcas emocionais profundas, que frequentemente perduram por toda a vida. A migra\u00e7\u00e3o para o mundo digital foi t\u00e3o radical que transformou o brincar, a conviv\u00eancia e a intera\u00e7\u00e3o social de crian\u00e7as e adolescentes em experi\u00eancias predominantemente mediadas por telas.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">N\u00e3o surpreende, portanto, que muitos transtornos psicol\u00f3gicos estejam associados \u00e0 baixa autoestima. Ela aparece ligada a transtornos alimentares, ansiedade, depress\u00e3o, comportamentos obsessivo-compulsivos, abuso de subst\u00e2ncias e dificuldades de relacionamento. Entre meninas adolescentes, a liga\u00e7\u00e3o entre redes sociais visuais e imagem corporal \u00e9 particularmente intensa, o que ajuda a explicar o aumento expressivo de dist\u00farbios alimentares nesse grupo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Outro ponto a se notar, talvez aparentemente menos grave, \u00e9 que uma das consequ\u00eancias mais diretas do uso excessivo e persistente de celulares, <em>tablets<\/em> e outros dispositivos emissores de luz \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica do sono. Trata-se de um problema global que afeta uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o adulta e, de forma ainda mais preocupante, crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Entre os efeitos da falta de sono est\u00e3o dificuldades cognitivas, maior propens\u00e3o a doen\u00e7as, altera\u00e7\u00f5es de humor, enfraquecimento do sistema imunol\u00f3gico, problemas cardiovasculares, dist\u00farbios metab\u00f3licos, depress\u00e3o, obesidade, diabetes e maior risco de determinadas enfermidades graves. Diversos autores t\u00eam apontado que vivemos uma verdadeira crise de priva\u00e7\u00e3o de sono, com impactos profundos na sa\u00fade, no trabalho, nas rela\u00e7\u00f5es familiares e na estabilidade emocional. Muitos adolescentes dormem significativamente menos do que o necess\u00e1rio, em grande parte devido ao tempo prolongado diante do celular.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">H\u00e1 ainda uma explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica clara para o problema. A luz azul emitida pelas telas, embora n\u00e3o seja prejudicial aos olhos em si, interfere diretamente no ciclo circadiano. Esse tipo de luz sinaliza ao c\u00e9rebro que \u00e9 hora de despertar, inibindo a produ\u00e7\u00e3o de melatonina, o horm\u00f4nio respons\u00e1vel pelo sono. Quando a exposi\u00e7\u00e3o ocorre nas horas que antecedem o repouso, o rel\u00f3gio biol\u00f3gico se desregula, dificultando o adormecer e comprometendo a qualidade do descanso. Dormir pouco, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma consequ\u00eancia colateral do uso de tecnologia, mas parte integrante de um ciclo que afeta profundamente o equil\u00edbrio f\u00edsico, emocional e mental.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">E a rela\u00e7\u00e3o entre depress\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o de sono \u00e9 bidirecional: quem dorme mal tende a desenvolver sintomas depressivos, e quem est\u00e1 deprimido frequentemente apresenta dist\u00farbios do sono. Jovens que dormem menos do que o recomendado apresentam maior probabilidade de desenvolver sintomas depressivos e riscos associados ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Uma revis\u00e3o dos estudos mais relevantes sobre a sa\u00fade mental de adolescentes nas \u00faltimas d\u00e9cadas revela um panorama alarmante. A partir de 2010, observou-se um crescimento acentuado nos \u00edndices de depress\u00e3o, ansiedade, automutila\u00e7\u00e3o e suic\u00eddio, especialmente entre meninas. Uma vari\u00e1vel chama particularmente a aten\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo: a migra\u00e7\u00e3o massiva da popula\u00e7\u00e3o adolescente para o mundo digital a partir de 2010. \u00c9 dif\u00edcil ignorar o paralelo entre o aumento do uso do celular, a migra\u00e7\u00e3o massiva para o mundo digital \u2014 especialmente para as redes sociais \u2014 e a escalada de problemas psicol\u00f3gicos graves entre adolescentes. Desde 2010, o uso do celular e das redes sociais foi a \u00fanica atividade que cresceu de maneira realmente significativa entre adolescentes. Diante disso, torna-se dif\u00edcil atribuir o aumento da priva\u00e7\u00e3o de sono, da depress\u00e3o, da ansiedade, dos problemas de autoestima e dos dist\u00farbios alimentares a outro fator principal.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O mais inquietante \u00e9 que ainda n\u00e3o conhecemos plenamente a extens\u00e3o dos danos causados por esse h\u00e1bito. Os membros mais jovens da chamada gera\u00e7\u00e3o do <em>smartphone<\/em> ainda est\u00e3o alcan\u00e7ando a idade adulta, e somente nos pr\u00f3ximos anos ser\u00e1 poss\u00edvel dimensionar com maior clareza as consequ\u00eancias dessa exposi\u00e7\u00e3o precoce e cont\u00ednua \u00e0 tecnologia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Como eu quisera demonstrar, estamos todos inalando um g\u00e1s mortal, que nos vem deprimindo, confundindo, isolando, machucando \u2014 e quando nos daremos conta? Que futuro est\u00e1 preparado para um mundo de viciados assim?<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Diz o personagem Brutus, na pe\u00e7a <em>J\u00falio C\u00e9sar<\/em>, de Shakespeare:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>&#8230; portanto pensemos nele como um ovo de serpente,<\/em><\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>Que, chocado, crescer\u00e1 maligno segundo a sua natureza;<\/em><\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>Mate-mo-lo ainda dentro da casca.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/samia-marsili\/o-ovo-da-serpente\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu filme de 1977, O ovo da serpente, Ingmar Bergman retratava a paulatina degrada\u00e7\u00e3o de um casal na Berlim do ano de 1923. 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