{"id":5903,"date":"2025-03-15T10:29:12","date_gmt":"2025-03-15T13:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mussicom.com\/falta-de-acesso-a-creches-e-escolas-impacta-mulheres-de-favelas\/"},"modified":"2025-03-15T10:29:12","modified_gmt":"2025-03-15T13:29:12","slug":"falta-de-acesso-a-creches-e-escolas-impacta-mulheres-de-favelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/falta-de-acesso-a-creches-e-escolas-impacta-mulheres-de-favelas\/","title":{"rendered":"Falta de acesso a creches e escolas impacta mulheres de favelas"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Dados do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase), levantados entre 2022 e 2023, apontam que 61,8% das mulheres de Jardim Gramacho, bairro da periferia de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, dizem que a localidade n\u00e3o conta com creches e escolas p\u00fablicas em que elas possam deixar seus filhos enquanto trabalham.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1634345&amp;o=node\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>A mesma dificuldade \u00e9\u00a0percebida por moradoras de favelas da\u00a0Grande Tijuca, como Borel (17,7%), Indiana (20,7%) e Ch\u00e1cara do C\u00e9u (28,7%). No Complexo do Alem\u00e3o, zona norte do Rio, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 diferente. O Ibase percorreu 11 favelas\u00a0e levantou que 32% das moradoras n\u00e3o encontram abrigo para seus filhos em creches ou escolas p\u00fablicas no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Munic\u00edpios e regi\u00f5es diferentes, mas os mesmos problemas. <strong>A pesquisa identificou que a falta de vagas causa dificuldade no desenvolvimento das crian\u00e7as, prejudica os direitos das m\u00e3es ao trabalho, e exige que recursos j\u00e1 escassos como os obtidos como programas sociais custeiem cuidadores ou escolas particulares.<\/strong>\u00a0Foram entrevistadas, ao todo, 12.414 pessoas.<\/p>\n<p>Moradora de Jardim Gramacho, a dona de casa Gisely de Aguiar, de 24 anos, \u00e9 m\u00e3e de tr\u00eas filhos: um menino, de 2 anos;\u00a0uma menina, de 4 anos;\u00a0e o mais velho, de 6 anos. Sem conseguir vaga em creche para o menor nem escola para a filha de 4 anos, ela teve que matricul\u00e1-la em uma institui\u00e7\u00e3o\u00a0particular. Gisely conta que essa \u00e9 a realidade de muitas m\u00e3es perto dela.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO mais novo n\u00e3o est\u00e1 em creche porque \u00e9 bem dif\u00edcil de conseguir por causa de sorteio. Nunca \u00e9 chamado.\u00a0A menina tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu col\u00e9gio p\u00fablico, ent\u00e3o, <strong>eu tiro do meu Bolsa Fam\u00edlia para pagar col\u00e9gio<\/strong>, para, ano que vem, tentar coloc\u00e1-la num p\u00fablico. O mais velho, consegui [matricular] este ano na escola p\u00fablica. Eu n\u00e3o trabalho fora porque n\u00e3o tenho uma rede de apoio para me ajudar. Eu gostaria de trabalhar fora\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Procurada para dar posicionamento sobre a pesquisa, a Prefeitura de Duque de Caxias n\u00e3o retornou o contato at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria.<\/p>\n<h2>Defasagem escolar<\/h2>\n<p>Gisely estudou at\u00e9 o sexto ano do Ensino Fundamental e tamb\u00e9m gostaria de voltar aos estudos, mas n\u00e3o consegue encontrar uma pessoa para ficar com os filhos \u00e0 noite. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o comum constatada pela pesquisa, que mostra\u00a0ainda\u00a0que 38,3% das mulheres que vivem no Borel, Indiana, Ch\u00e1cara do C\u00e9u e Casa Branca, na Grande Tijuca, n\u00e3o completaram o ensino fundamental. Em Jardim Gramacho e no Complexo do Alem\u00e3o os \u00edndices tamb\u00e9m s\u00e3o altos: 33% e 34%, respectivamente.<\/p>\n<p>Quando o estudo aborda o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, ele aponta que nos territ\u00f3rios da Tijuca que participaram do levantamento apenas 2% das mulheres conclu\u00edram a gradua\u00e7\u00e3o, percentual pr\u00f3ximo do levantado em Jardim Gramacho (1,7%). O local com melhor desempenho \u00e9 o Complexo do Alem\u00e3o, com 6% das mulheres na universidade. Mesmo assim, o \u00edndice \u00e9 bem abaixo do nacional, apresentado pelo \u00faltimo Censo da Educa\u00e7\u00e3o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em que 20,7% das mulheres do pa\u00eds tinham n\u00edvel superior completo em 2022.<\/p>\n<p>A diretora executiva do Ibase, Rita Corr\u00eaa Brand\u00e3o, lembra que <strong>a\u00a0educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 um direito b\u00e1sico garantido na Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/strong>, na Lei de Diretrizes B\u00e1sicas da Educa\u00e7\u00e3o, no Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, e \u00e9 um dever do Estado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO que a gente percebe \u00e9 que as mulheres pesquisadas t\u00eam uma inser\u00e7\u00e3o mais precarizada no mercado de trabalho, ou seja, recebem sal\u00e1rios m\u00ednimos. N\u00e3o tendo creche p\u00fablica, as que trabalham precisam dispor de um dinheiro para pagar as creches particulares. A gente n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o garante um direito que a crian\u00e7a tem quando essas mulheres precisam deix\u00e1-las\u00a0com parentes, que na maioria das vezes s\u00e3o crian\u00e7as e jovens que tomam conta dos filhos menores. <strong>Tem um \u00edndice grande de mulheres que n\u00e3o trabalham e tamb\u00e9m t\u00eam o direito ao trabalho violado. \u00c9 uma dupla viola\u00e7\u00e3o de direitos<\/strong>\u201d, disse Rita.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Problema pode ser ainda maior<\/h2>\n<p>A coordenadora geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro (Sepe), Samantha Guedes, destaca que os n\u00fameros de d\u00e9ficit de vagas nas creches e na educa\u00e7\u00e3o infantil s\u00e3o subnotificados.<\/p>\n<p>\u201cEm n\u00edvel nacional, muitos respons\u00e1veis sequer ficam na lista de espera porque j\u00e1 sabem que n\u00e3o v\u00e3o conseguir. <strong>Os n\u00fameros de d\u00e9ficit s\u00e3o muito maiores do que a gente sequer possa imaginar<\/strong>\u201d, diz.<\/p>\n<p>Segundo ela, a educa\u00e7\u00e3o infantil que vai de 0 a 5 anos e 11 meses \u00e9 respons\u00e1vel pelo pleno desenvolvimento da crian\u00e7a. Na educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 que os profissionais de educa\u00e7\u00e3o observam se a crian\u00e7a tem algum tipo de transtorno, e,\u00a0quanto mais cedo for feito um\u00a0tratamento, menos defasagem a crian\u00e7a vai ter. A\u00a0coordenadora do Sepe acrescenta que\u00a0os munic\u00edpios n\u00e3o atendem \u00e0\u00a0mulher trabalhadora.<\/p>\n<p>\u201cAs creches deveriam ter hor\u00e1rio de funcionamento das 7h \u00e0s 17h. No Rio, a maioria das creches vai das 8h \u00e0s 15h30. A m\u00e3e vai ter que pegar uma parte do dinheiro do trabalho para pagar algu\u00e9m para buscar o filho na escola e ficar com ele at\u00e9 chegar do trabalho. Ou, ent\u00e3o, o irm\u00e3o mais velho ou a av\u00f3 tomam conta da crian\u00e7a\u201d, afirma Samantha.<\/p>\n<p>Em 2024, a prefeitura do Rio de Janeiro foi condenada a pagar multa de mais de R$2 bilh\u00f5es\u00a0por n\u00e3o ter conseguido zerar a fila de espera em creches e pr\u00e9-escolas do munic\u00edpio. De acordo com dados da prefeitura, no final do ano letivo de 2023, ainda havia 12.394 crian\u00e7as de at\u00e9 6 anos esperando vaga no turno integral, e 2.911 no turno parcial.<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o do Rio para saber sobre o pagamento da multa e atualizar o d\u00e9ficit de vagas, mas n\u00e3o recebeu resposta at\u00e9 o fechamento da mat\u00e9ria.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=404996:cheio_8colunas --><br \/>\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/dOHxOiCnIcY1n4xyX_IBJj63obM=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/11\/11\/52900113672_bec97787d3_o.jpg?itok=K4tiAUzb\" alt=\"Crato (CE), 12\/05\/2023 - Inaugura\u00e7\u00e3o da creche em Crato\/CE. Foto: Angelo Miguel\/MEC\" title=\"Angelo Miguel\/MEC\"\/><br \/>\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/dOHxOiCnIcY1n4xyX_IBJj63obM=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/11\/11\/52900113672_bec97787d3_o.jpg?itok=K4tiAUzb\" alt=\"Crato (CE), 12\/05\/2023 - Inaugura\u00e7\u00e3o da creche em Crato\/CE. Foto: Angelo Miguel\/MEC\" title=\"Angelo Miguel\/MEC\"\/><br \/>\n    <!-- END scald=404996 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>Inaugura\u00e7\u00e3o da creche em Crato\/CE. Foto: Angelo Miguel\/MEC<!--END copyright=404996--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2>Desigualdade entre pobres e ricos<\/h2>\n<p>De acordo com a gerente de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Funda\u00e7\u00e3o Maria Cecilia Souto Vidigal, Beatriz Abuchaim, o mais preocupante desse contexto \u00e9 que os dados brasileiros mostram que as crian\u00e7as mais pobres t\u00eam menos oferta de educa\u00e7\u00e3o infantil que as crian\u00e7as mais ricas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cMuitas vezes, essas fam\u00edlias em vulnerabilidade social n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ter livros em casa ou de ter brinquedos que s\u00e3o materiais importantes para o desenvolvimento infantil. Se a crian\u00e7a est\u00e1 indo a uma creche de boa qualidade, ela pode ter acesso a esses est\u00edmulos. O acesso \u00e0 creche no Brasil n\u00e3o \u00e9 uma etapa obrigat\u00f3ria de matr\u00edcula, mas a pr\u00e9-escola \u00e9, a partir dos 4 anos. O poder p\u00fablico tem obriga\u00e7\u00e3o de oferecer vagas para todas as fam\u00edlias que demandarem\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Beatriz Abuchaim destaca que uma educa\u00e7\u00e3o infantil de qualidade pode quebrar o ciclo intergeracional de pobreza. \u201c<strong>A falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o nos seis primeiros anos de vida tem impacto de longo prazo<\/strong>. Temos v\u00e1rios estudos que comparam crian\u00e7as que tiveram oportunidades de frequentar escolas de qualidade com crian\u00e7as que n\u00e3o tiveram essa oportunidade. E fica muito marcado o impacto disso. S\u00e3o crian\u00e7as que tendem a ter melhores resultados de aprendizagem e menos chance de se evadir da escola com mais anos de escolariza\u00e7\u00e3o. Esses grupos na fase adulta t\u00eam menos chance de se envolver com o crime, de serem usu\u00e1rios de droga, de terem problemas de sa\u00fade f\u00edsica e mental e t\u00eam uma maior chance de ter uma melhor inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, com sal\u00e1rios mais altos\u201d, acrescenta Beatriz.<\/p>\n<p>O Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE) vigente foi prorrogado at\u00e9 dezembro deste ano. Ele tem uma meta de oferta de educa\u00e7\u00e3o infantil de creche de no m\u00ednimo 50% para as crian\u00e7as at\u00e9 3 anos. Segundo dados do Censo Demogr\u00e1fico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), 33,9% das crian\u00e7as brasileiras frequentam a creche. A meta era universalizar no Brasil em 2016 a pr\u00e9-escola das crian\u00e7as de 4 e 5 anos. Segundo o Censo, atualmente 86,7% das crian\u00e7as frequentam a pr\u00e9-escola.<\/p>\n<p>No Brasil, 2,3 milh\u00f5es de crian\u00e7as de at\u00e9 3 anos de idade n\u00e3o frequentam creches por alguma dificuldade de acesso ao servi\u00e7o. Isso significa que as fam\u00edlias dessas crian\u00e7as gostariam de matricul\u00e1-las, mas encontram dificuldades como a localiza\u00e7\u00e3o das escolas, distantes de casa, ou mesmo a falta de vagas. O percentual das fam\u00edlias mais pobres que n\u00e3o conseguem vagas \u00e9 quatro vezes maior do que o das fam\u00edlias mais ricas, segundo o IBGE.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=94200:cheio_8colunas --><br \/>\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/yfRF31WoBi8C4kvIQsb_ZUbR8GQ=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/atoms\/image\/1063336-27.01.2017_rvrs-2022.jpg?itok=e439dF9H\" alt=\"S\u00e3o Paulo - Alunos, funcion\u00e1rios e pais fazem ato contra o fechamento da Creche Oeste da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) (Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil)\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><br \/>\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/yfRF31WoBi8C4kvIQsb_ZUbR8GQ=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/atoms\/image\/1063336-27.01.2017_rvrs-2022.jpg?itok=e439dF9H\" alt=\"S\u00e3o Paulo - Alunos, funcion\u00e1rios e pais fazem ato contra o fechamento da Creche Oeste da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) (Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil)\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><br \/>\n    <!-- END scald=94200 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>Alunos, funcion\u00e1rios e pais fazem ato contra o fechamento da Creche Oeste da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) \/\u00a0<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=94200--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>      <!-- Relacionada --><\/p>\n<p>            <!-- Relacionada -->\n    <\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2025-03\/falta-de-acesso-creches-e-escolas-impacta-mulheres-de-favelas\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase), levantados entre 2022 e 2023, apontam que 61,8% das mulheres de Jardim Gramacho, bairro da periferia de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, dizem que a localidade n\u00e3o conta com creches e escolas p\u00fablicas em que elas possam deixar seus filhos enquanto trabalham. 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