{"id":50850,"date":"2025-10-23T14:42:17","date_gmt":"2025-10-23T17:42:17","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/sirat-e-travessia-sadica-rumo-ao-inferno-feita-para-publico-masoquista\/"},"modified":"2025-10-23T14:42:17","modified_gmt":"2025-10-23T17:42:17","slug":"sirat-e-travessia-sadica-rumo-ao-inferno-feita-para-publico-masoquista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/sirat-e-travessia-sadica-rumo-ao-inferno-feita-para-publico-masoquista\/","title":{"rendered":"&#8216;Sir\u0101t&#8217; \u00e9 travessia s\u00e1dica rumo ao inferno feita para p\u00fablico masoquista"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p data-start=\"80\" data-end=\"918\">H\u00e1 diretores que transformam o sofrimento em uma experi\u00eancia sensorial provocante; outros, em mero castigo. <strong data-start=\"172\" data-end=\"187\">Oliver Laxe<\/strong>\u00a0(<em>O Que Arde<\/em>), com <strong><em data-start=\"193\" data-end=\"200\">Sir\u0101t<\/em><\/strong>, parece pertencer ao segundo grupo. O filme \u2014 escolhido pela Espanha para disputar uma vaga no Oscar 2026 e exibido na 49\u00aa Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo \u2014 segue um pai e um filho (vividos por <strong data-start=\"419\" data-end=\"434\">Sergi L\u00f3pez<\/strong> e <strong>Bruno N\u00fa\u00f1ez<\/strong>, respectivamente) em uma travessia pelo deserto marroquino \u00e0 procura da filha e irm\u00e3 desaparecida. Acompanhados pela cachorrinha <strong>Pipa<\/strong> e por um grupo de frequentadores de raves, eles se lan\u00e7am em uma espiral rumo ao inferno, num cinema que aspira a ser transcendental, mas encontra apenas o sadismo na estrada.<\/p>\n<p data-start=\"80\" data-end=\"918\"><strong>Laxe <\/strong>opta pelo estridente: cada plano e efeito sonoro s\u00e3o tentativas de castigar o espectador. H\u00e1 quem veja nisso uma tentativa de se alinhar a uma linhagem ilustre do desconforto cinematogr\u00e1fico, de <strong data-start=\"1028\" data-end=\"1046\">Michael Haneke<\/strong> (<em>A Professora de Piano<\/em>) a\u00a0<strong data-start=\"1048\" data-end=\"1065\">Michel Franco<\/strong> (<em>Depois de L\u00facia<\/em>), passando ainda por <strong data-start=\"1067\" data-end=\"1083\">Gaspar No\u00e9<\/strong> (<em>Irrevers\u00edvel<\/em>) e <strong data-start=\"1085\" data-end=\"1105\">Yorgos Lanthimos<\/strong> (<em>Dente Canino<\/em>), mas enquanto esses diretores constroem suas viol\u00eancias dentro de uma estrutura dramat\u00fargica coerente, <strong>Laxe<\/strong> parece apenas colecionar choques. O resultado \u00e9 uma obra que confunde brutalidade com profundidade. Tudo soa calculado para perturbar \u2014 a <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em> \u00e1rida, o som ensurdecedor, a brutalidade gratuita \u2014, mas o inc\u00f4modo nunca se traduz em reflex\u00e3o. O deserto de <strong><em data-start=\"1594\" data-end=\"1601\">Sir\u0101t<\/em><\/strong> \u00e9 literal e simb\u00f3lico: uma paisagem vazia onde nada floresce, nem mesmo uma ideia.<\/p>\n<p data-start=\"1688\" data-end=\"2380\">Do ponto de vista formal, o filme at\u00e9 come\u00e7a promissor. O pr\u00f3logo, em que a c\u00e2mera se move lentamente entre dunas e raves, sugere o <strong>Laxe<\/strong> contemplativo de outrora \u2014 aquele interessado em captar o atrito entre o mundo material e a transcend\u00eancia, aqui marcada pelas raves. Mas essa camada sensorial logo \u00e9 engolida por uma dramaturgia artificial, que for\u00e7a o espectador a suportar o sofrimento dos personagens sem oferecer densidade a eles. Cada evento s\u00e1dico que se segue \u2014 uma amea\u00e7a, uma morte, um cachorro em perigo \u2014 funciona apenas como repeti\u00e7\u00e3o da prova\u00e7\u00e3o anterior, sem varia\u00e7\u00e3o de intensidade ou sentido. \u00c9 como se o diretor acreditasse que aumentar o volume do desespero bastasse para dar peso \u00e0 narrativa.<\/p>\n<p data-start=\"2382\" data-end=\"3137\">A compara\u00e7\u00e3o com <strong><em data-start=\"2399\" data-end=\"2418\">O Comboio do Medo<\/em><\/strong> (1977) ou <strong><em data-start=\"2422\" data-end=\"2431\">Mad Max: Estrada da F\u00faria<\/em><\/strong> (2014) \u00e9 inevit\u00e1vel, mas trai o verdadeiro problema do filme: <strong data-start=\"2487\" data-end=\"2576\">Laxe<\/strong> n\u00e3o est\u00e1 interessado na travessia em si, mas no desconforto como fim em si mesmo. A jornada f\u00edsica e emocional de pai e filho se dissolve em um desfile de prova\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, de uma crueldade que se torna vazia pela insist\u00eancia. No meio disso, surge um pano de fundo dist\u00f3pico \u2014 militares e rumores de uma \u201cTerceira Guerra Mundial\u201d \u2014 que parece colado \u00e0 trama apenas para justificar o caos e a contemporaneidade da hist\u00f3ria. Nada disso, por\u00e9m, \u00e9 explorado de forma convincente. O suposto colapso do mundo exterior nunca dialoga com o drama \u00edntimo dos personagens; \u00e9 apenas ru\u00eddo, uma moldura pregui\u00e7osa para o inferno particular que o filme quer exibir.<\/p>\n<p data-start=\"3139\" data-end=\"3780\">Essa desconex\u00e3o se torna mais gritante na segunda metade, quando <strong>Laxe<\/strong> abandona o minimalismo atmosf\u00e9rico inicial e cede \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o total \u2014 dos corpos, da l\u00f3gica, do pr\u00f3prio interesse. Os personagens deixam de existir como pessoas e se tornam instrumentos de tortura emocional. H\u00e1 quem leia nisso uma alegoria sobre a humanidade contempor\u00e2nea, sobre o niilismo e a barb\u00e1rie, mas o filme n\u00e3o tem a densidade filos\u00f3fica para sustentar tal ambi\u00e7\u00e3o. Seu existencialismo soa de bar de beira de estrada: \u201c<em>as coisas acontecem assim porque o mundo caminha para isso<\/em>\u201d, parece dizer o roteiro, enquanto o espectador \u00e9 submetido a mais uma tortura.<\/p>\n<p data-start=\"180\" data-end=\"931\">No fim, <strong><em data-start=\"188\" data-end=\"195\">Sir\u0101t<\/em><\/strong> \u00e9 uma travessia rumo ao nada \u2014 um exerc\u00edcio de estilo que, ao tentar representar a dor, acaba apenas oferecendo sadismo. O deserto, que parece ser uma esp\u00e9cie de met\u00e1fora de purga\u00e7\u00e3o ou renascimento, torna-se espelho do pr\u00f3prio filme a partir das escolhas do diretor: vazio. <strong>Laxe<\/strong> filma o sofrimento com devo\u00e7\u00e3o, mas sem prop\u00f3sito. Ao espectador resta decidir se abandona a viagem \u2014 e h\u00e1 quem realmente o fa\u00e7a \u2014 ou se se deixa a\u00e7oitar por essa prova\u00e7\u00e3o emocional e masoquista.<\/p>\n<p><iframe title=\"Sira\u0302t | Teaser Trailer Oficial Legendado\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/URLP-VqkYu8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong> 49\u00aa Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo: Acompanhe a cobertura de Rolling Stone Brasil<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"author-box clearfix mb-4\">\n<div class=\"d-flex align-items-center\">\n<div class=\"author-avatar\">\n        &#13;<br \/>\n          \n      <\/div>\n<div class=\"author-info ms-3\">\n<p><strong>Angelo Cordeiro<\/strong> \u00e9 rep\u00f3rter do n\u00facleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade S\u00e3o Judas, escreve sobre filmes desde 2014. Paulistano do bairro de Interlagos e fan\u00e1tico por F\u00f3rmula 1. Pisciano, mas n\u00e3o acredita em astrologia. S\u00e3o-paulino, pai de pet e cin\u00e9filo obcecado por listas\u00a0e\u00a0rankings.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/sirat-critica\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 diretores que transformam o sofrimento em uma experi\u00eancia sensorial provocante; outros, em mero castigo. Oliver Laxe\u00a0(O Que Arde), com Sir\u0101t, parece pertencer ao segundo grupo. 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