{"id":50530,"date":"2025-10-22T00:04:17","date_gmt":"2025-10-22T03:04:17","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/tyler-the-creator-esta-preso-em-um-vortice-de-debates-online\/"},"modified":"2025-10-22T00:04:17","modified_gmt":"2025-10-22T03:04:17","slug":"tyler-the-creator-esta-preso-em-um-vortice-de-debates-online","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/tyler-the-creator-esta-preso-em-um-vortice-de-debates-online\/","title":{"rendered":"Tyler, the Creator est\u00e1 preso em um v\u00f3rtice de debates online"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Em 2015, com o lan\u00e7amento de seu quarto \u00e1lbum, <em><strong>Cherry Bomb<\/strong><\/em>, <strong>Tyler, the Creator<\/strong> lan\u00e7ou uma revista de edi\u00e7\u00e3o limitada como parte de seu projeto <strong>Golf Media<\/strong>, com entrevistas com pessoas como <strong>Seth Rogen<\/strong>, al\u00e9m de materiais relacionados ao \u00e1lbum, como um escaneamento do caderno Moleskine, no qual ele anotava suas ideias. Ele dedicou algumas p\u00e1ginas do livro para destacar os discos que mais o influenciaram: <em><strong>Hell Hath No Fury<\/strong><\/em>, do <strong>Clipse<\/strong>; <em><strong>In My Mind<\/strong><\/em>, de <strong>Pharrell<\/strong>; e, de forma significativa, <em><strong>Voodoo<\/strong><\/em>, obra-prima de <strong>D\u2019Angelo<\/strong> lan\u00e7ada em 2000. Em seu texto sobre o saudoso astro do R&amp;B, <strong>Tyler<\/strong> recordou ter ganhado 30 d\u00f3lares da av\u00f3 em seu nono anivers\u00e1rio e usado o dinheiro para comprar o CD. \u201cMeus v\u00eddeos favoritos na <strong>BET<\/strong> eram \u2018<strong>Get Up<\/strong>\u2019, de <strong>Amel Larrieux<\/strong>, e \u2018<strong>Left Right<\/strong>\u2019, de <strong>D\u2019Angelo<\/strong>\u201d, ele escreveu. \u201cComprei os dois \u00e1lbuns, e nunca me arrependerei disso.\u201d<\/p>\n<p>Na semana passada, ap\u00f3s a tr\u00e1gica morte de <strong>D\u2019Angelo<\/strong>, <strong>Tyler<\/strong> foi ao Instagram prestar tributo ao artista que tanto influenciou sua m\u00fasica \u2014 mas as coisas rapidamente sa\u00edram dos trilhos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um post sincero, no qual repetiu muito do que havia escrito dez anos antes, os coment\u00e1rios come\u00e7aram a aparecer em massa \u2014 alguns pedindo por novas m\u00fasicas, outros desdenhando a homenagem ou at\u00e9 questionando quem era <strong>D\u2019Angelo<\/strong>. Como costuma fazer, <strong>Tyler<\/strong> foi ao Twitter e criticou um segmento de sua base de f\u00e3s que ele chamou pejorativamente de \u201c<strong>Sun Seekers<\/strong>\u201d \u2014 isto \u00e9, f\u00e3s brancos que desconheciam o legado de <strong>D\u2019Angelo<\/strong>. Um post do agregador de not\u00edcias de hip hop <em>Kurcco<\/em> destacou que o pr\u00f3prio <strong>Tyler<\/strong> curtiu um tu\u00edte que dizia: \u201cO cara tem colabora\u00e7\u00f5es com <strong>Charlie Wilson<\/strong>, <strong>Erykah Badu<\/strong>, <strong>DJ Drama<\/strong> etc., e eles ainda se recusam a se engajar com a arte negra de forma significativa. Muito canibal\u00edstico.\u201d<\/p>\n<p>O debate que surgiu sugeria que <strong>Tyler, the Creator<\/strong>, com o trabalho inicial e altamente ofensivo do <strong>Odd Future<\/strong>, teria cultivado uma base de f\u00e3s de incels brancos hostis \u00e0 m\u00fasica negra. O refr\u00e3o era que ele deveria esperar essas rea\u00e7\u00f5es \u00e0 sua homenagem a <strong>D\u2019Angelo<\/strong> \u2014 e que s\u00f3 tinha a si para culpar. As \u201cprovas\u201d apresentadas eram tu\u00edtes e prints de sua carreira inicial, nos quais <strong>Tyler<\/strong> fazia de tudo: desde criticar os protestos por <strong>George Floyd<\/strong> at\u00e9 realizar \u201cprovoca\u00e7\u00f5es\u201d como vestir um manto da <strong>Klan<\/strong> e vender produtos com imagens inspiradas na figura racista <strong>Sambo<\/strong>. Mais do que provoca\u00e7\u00f5es de um artista expressando uma forma (equivocada) de ang\u00fastia p\u00f3s-moderna racializada, esses fatos passaram a ser usados como evid\u00eancia de que <strong>Tyler<\/strong> odiava a si e \u00e0 sua negritude. \u00c9 o tipo de conversa feita sob medida para a internet.<\/p>\n<p>A ideia de que <strong>Tyler<\/strong> cultivou uma audi\u00eancia de incels brancos ignora o fato de que <strong>Odd Future<\/strong> j\u00e1 tinha muitos f\u00e3s negros desde o come\u00e7o. Era um grupo de adolescentes negros fazendo m\u00fasica ousada e experimental que, na verdade, conquistou uma grande quantidade de ouvintes jovens e negros. Isso sem falar na evolu\u00e7\u00e3o da base de f\u00e3s de <strong>Tyler<\/strong> nos \u00faltimos 15 anos. Mesmo levando esse argumento ao p\u00e9 da letra, ele n\u00e3o explica o p\u00fablico atual do artista \u2014 que, numericamente, j\u00e1 superou aquele dos primeiros anos. Al\u00e9m disso, \u00e9 uma leitura revisionista. Nas mesmas redes em que <strong>Tyler<\/strong> publicava coment\u00e1rios ofensivos no in\u00edcio dos anos 2010, ele tamb\u00e9m expressava admira\u00e7\u00e3o por nomes como <strong>Erykah Badu<\/strong> e <strong>D\u2019Angelo<\/strong>. O ponto, naquela \u00e9poca, era que <strong>Tyler<\/strong> era cheio de contradi\u00e7\u00f5es. A raiva expressa em sua m\u00fasica n\u00e3o era diferente da de <strong>Eminem<\/strong>, cujas frustra\u00e7\u00f5es internas com a masculinidade alimentaram as obras mais brilhantes e, ao mesmo tempo, violentas, mis\u00f3ginas e homof\u00f3bicas de sua carreira. Nunca era para levar aquilo ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p>A falta de l\u00f3gica desse argumento se estende \u00e0 conclus\u00e3o: a ideia de que a \u00faltima d\u00e9cada da obra de <strong>Tyler<\/strong> \u2014 com seu abra\u00e7o aberto tanto a formas cl\u00e1ssicas da m\u00fasica negra quanto a um rap mais tradicionalista (vide \u201c<strong>That Guy<\/strong>\u201d, sua vibrante releitura de \u201c<strong>Hey Now<\/strong>\u201d, de <strong>Kendrick Lamar<\/strong>) \u2014 seria apenas uma tentativa de atrair novos f\u00e3s negros para continuar relevante. Para acreditar nisso, seria preciso ignorar tudo o que aconteceu de fato na trajet\u00f3ria de <strong>Tyler<\/strong> e do <strong>Odd Future<\/strong>. Seria necess\u00e1rio confiar em uma releitura curada da hist\u00f3ria, e n\u00e3o em experi\u00eancias vividas \u2014 exatamente o terreno em que a internet habita: o espa\u00e7o entre o conte\u00fado e o contexto.<\/p>\n<p>O amor de <strong>Tyler<\/strong> pelo hip hop como forma de arte, no sentido mais puro da palavra, \u00e9 quase irritantemente bem documentado. Foi apenas no ano passado que ele se desentendeu com o \u201crapper branco do m\u00eas\u201d da internet, <strong>Ian<\/strong>, chamando seu estilo e postura de ofensivos em uma entrevista com <strong>Maverick Carter<\/strong>. \u201cTem esse garoto branco, um cara caucasiano comum, que fica imitando o <strong>Future<\/strong> e o <strong>Gucci Mane<\/strong> \u2014 o rap \u2014 e as pessoas dizem: \u2018Yo, isso \u00e9 demais!\u2019\u2026 mas, mano, \u00e9 par\u00f3dia. Ele nem est\u00e1 tentando melhorar o rap\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Tyler<\/strong> levou <strong>Roy Ayers<\/strong> para o festival <strong>Camp Flog Gnaw<\/strong> em 2017 e, em mar\u00e7o passado, ap\u00f3s a morte de <strong>Ayers<\/strong>, compartilhou uma homenagem comovente ao pioneiro do neo-soul, chamando-o de \u201ca base do meu som\u201d. Tudo isso para dizer que, se existe um tipo m\u00e9dio de f\u00e3 de <strong>Tyler, the Creator<\/strong>, ele provavelmente \u00e9 mais um entusiasta obcecado por artistas como <strong>D\u2019Angelo<\/strong> do que um garoto branco que simplesmente odeia m\u00fasica negra.<\/p>\n<p>O que claramente frustrou <strong>Tyler<\/strong> foi o fato de que os comentaristas estavam mais focados em cobrar novas m\u00fasicas do que no que ele realmente estava postando. Esse \u00e9, sem d\u00favida, o problema mais comum enfrentado por celebridades na era digital \u2014 f\u00e3s t\u00e3o obcecados que perdem completamente o contexto. Tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda o fato de que <strong>Tyler<\/strong>, como praticamente todo rapper popular das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, tem uma grande audi\u00eancia branca \u2014 um fen\u00f4meno que antecede sua gera\u00e7\u00e3o em pelo menos vinte anos. Ainda assim, \u00e9 um exagero cham\u00e1-los de \u201cincels\u201d, e n\u00e3o est\u00e1 claro o que esse r\u00f3tulo \u2014 centrado em homens solit\u00e1rios e misoginia \u2014 significaria nesse contexto. Al\u00e9m disso, os chamados \u201cincels brancos\u201d de hoje \u2014 alimentados por um fluxo constante de streamers pol\u00eamicos como <strong>Adin Ross<\/strong> e <strong>N3ON<\/strong> \u2014 certamente n\u00e3o est\u00e3o ouvindo <strong>Tyler, the Creator<\/strong>, o artista que lan\u00e7ou um \u00e1lbum chamado <strong>Flower Boy<\/strong>.<\/p>\n<p>E essa nem \u00e9 a primeira vez, no \u00faltimo ano, que o material antigo de <strong>Tyler<\/strong> voltou \u00e0 tona na internet, gerando o mesmo ciclo familiar de debates online \u2014 um verdadeiro ouroboros de discursos envoltos na linguagem da \u201cresponsabiliza\u00e7\u00e3o\u201d e de uma pol\u00edtica bem-intencionada, mas que, na pr\u00e1tica, serve apenas para alimentar a m\u00e1quina do engajamento digital. No ano passado, depois que <strong>Tyler<\/strong> ultrapassou brevemente <strong>Taylor Swift<\/strong> no ranking \u201c<strong>Top Artists \u2014 Global<\/strong>\u201d do <strong>Spotify<\/strong>, os swifties come\u00e7aram a compartilhar capturas de tela com letras antigas dele, reacendendo uma discuss\u00e3o que durou dias sobre sua misoginia passada. Tyler respondeu \u00e0 pol\u00eamica do seu pr\u00f3prio jeito: durante um show em Boston, declarou, \u201cDeixei as <strong>Swifties<\/strong> todas bravas com o racismo delas\u2026 vadia, vai ouvir \u2018<strong>Tron Cat<\/strong>\u2019. Eu n\u00e3o dou a m\u00ednima, porra. Eles v\u00e3o acabar trazendo o velho eu de volta.\u201d<\/p>\n<p>Nessa nova controv\u00e9rsia, por\u00e9m, o veneno \u00e9 mais forte. A rela\u00e7\u00e3o de <strong>Tyler<\/strong> com sua negritude \u2014 desde as acusa\u00e7\u00f5es de que ele incentivava f\u00e3s brancos a dizer a palavra com N (a cita\u00e7\u00e3o real foi est\u00fapida, mas muito menos sombria), at\u00e9 coment\u00e1rios depreciativos sobre mulheres negras \u2014 oferece, de fato, terreno mais f\u00e9rtil para cr\u00edticas. Dito isso, criadores de conte\u00fado no TikTok come\u00e7aram a compartilhar relatos sobre o suposto \u201cantinegritude\u201d de <strong>Tyler<\/strong>, que, como de costume, acabam se entrela\u00e7ando a hist\u00f3rias pessoais.<\/p>\n<p>Com alguma justi\u00e7a, muitos comentaristas online reconhecem que <strong>Tyler<\/strong> evoluiu, mas afirmam que, por n\u00e3o ter se desculpado publicamente e de forma expl\u00edcita por seus comportamentos passados, ele n\u00e3o teria pagado o suficiente por suas a\u00e7\u00f5es. Essa mais recente \u201ccrise\u201d tem sido amplamente descrita como o momento em que <strong>Tyler<\/strong> est\u00e1 \u201clevando suas chibatadas\u201d. E \u00e9 justamente nessa linguagem que se revela o que realmente est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o h\u00e1 desculpa para as postagens e coment\u00e1rios pelos quais <strong>Tyler<\/strong> ficou conhecido no in\u00edcio da carreira \u2014 mas a internet \u00e9 movida por sede de sangue, n\u00e3o por justi\u00e7a. A ponto de uma homenagem a <strong>D\u2019Angelo<\/strong> ter se transformado em quase uma semana de discuss\u00f5es sobre tu\u00edtes de mais de dez anos atr\u00e1s. Enquanto isso, <strong>Chris Brown<\/strong> est\u00e1 em turn\u00ea mundial por est\u00e1dios.<\/p>\n<p>O tipo de debate cada vez mais comum nos espa\u00e7os digitais \u2014 onde reduzimos indiv\u00edduos a dados diger\u00edveis \u2014 \u00e9 in\u00fatil para conversas realmente produtivas sobre antinegritude, arte ou misoginia. \u00c9 tudo conte\u00fado feito para cutucar e explorar as quest\u00f5es complexas que comp\u00f5em nossa identidade, gerando emo\u00e7\u00f5es intensas que alimentam infinitas publica\u00e7\u00f5es. Quanto mais unidimensional voc\u00ea conseguir retratar algu\u00e9m, melhor. <strong>Tyler, the Creator<\/strong> pode at\u00e9 ter surgido impulsionado por um otimismo sobre a internet como ferramenta para dar voz aos incompreendidos, mas ela se transformou em uma for\u00e7a que destr\u00f3i justamente a nuance e o contexto que nos tornam humanos.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Tyler, the Creator merece ser mencionado entre os maiores do hip hop<\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/tyler-the-creator-esta-preso-em-um-vortice-de-debates-online\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2015, com o lan\u00e7amento de seu quarto \u00e1lbum, Cherry Bomb, Tyler, the Creator lan\u00e7ou uma revista de edi\u00e7\u00e3o limitada como parte de seu projeto Golf Media, com entrevistas com pessoas como Seth Rogen, al\u00e9m de materiais relacionados ao \u00e1lbum, como um escaneamento do caderno Moleskine, no qual ele anotava suas ideias. 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