{"id":50363,"date":"2025-10-21T03:43:14","date_gmt":"2025-10-21T06:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/cyclone-e-gesto-politico-de-resgatar-e-reinventar-uma-mulher-apagada-da-historia\/"},"modified":"2025-10-21T03:43:14","modified_gmt":"2025-10-21T06:43:14","slug":"cyclone-e-gesto-politico-de-resgatar-e-reinventar-uma-mulher-apagada-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/cyclone-e-gesto-politico-de-resgatar-e-reinventar-uma-mulher-apagada-da-historia\/","title":{"rendered":"&#8216;Cyclone&#8217; \u00e9 gesto pol\u00edtico de resgatar e reinventar uma mulher apagada da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p data-start=\"256\" data-end=\"758\">Uma das maiores for\u00e7as do cinema est\u00e1 em sua capacidade de resgatar hist\u00f3rias e dar voz a personagens esquecidos ou invisibilizados pelo tempo. <em><strong>Cyclone<\/strong><\/em>, novo longa de <strong>Flavia Castro<\/strong> (<em>Deslembro<\/em>), a partir do roteiro de <strong>Rita Piffer<\/strong>, que chega \u00e0 49\u00aa Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo, faz exatamente isso. Inspirado na vida de <strong>Maria de Lourdes Castro Pontes<\/strong> \u2014 aqui <strong>Daisy Castro<\/strong>, ou <strong>Cyclone<\/strong>, como ela mesma se autodenomina \u2014, o filme converte a tela em um espa\u00e7o de mem\u00f3ria e, mais do que isso, de reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na trama, <strong>Daisy<\/strong> (<strong data-start=\"821\" data-end=\"838\">Luiza Mariani<\/strong>, <em>Todas As Can\u00e7\u00f5es de Amor<\/em>) \u00e9 uma oper\u00e1ria que divide seu tempo entre o trabalho em uma gr\u00e1fica e a paix\u00e3o pelo teatro, escrevendo pe\u00e7as que s\u00e3o assinadas por <strong>Heitor Gamba<\/strong> (<strong>Eduardo Moscovis<\/strong>, <em>Ela e Eu<\/em>). Ao conquistar uma bolsa de estudos em Paris, ela se depara com diversos obst\u00e1culos, incluindo o de viver em um mundo em que as mulheres n\u00e3o s\u00e3o donas do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Em <strong><em>Cyclone<\/em><\/strong>, a diretora <strong>Flavia Castro<\/strong> coloca a protagonista no centro desse gesto pol\u00edtico de retratar uma mulher que ousa reivindicar sua pr\u00f3pria identidade numa \u00e9poca em que as mulheres ainda precisavam de autoriza\u00e7\u00e3o do pai ou do marido para viajar.<\/p>\n<p>Ao redor da protagonista, as mulheres se reconhecem, se apoiam e se salvam quando podem. Essa sororidade n\u00e3o \u00e9 apenas conceito ou panfletagem, \u00e9 pr\u00e1tica \u2014 algo vivido, sentido e registrado na tela: as personagens de <strong>Karine Teles<\/strong> (<em data-start=\"524\" data-end=\"541\">A Vil\u00e3 das Nove<\/em>) e <strong>Magali Biff<\/strong> (<em data-start=\"558\" data-end=\"583\">A Felicidade das Coisas<\/em>) d\u00e3o corpo a essa rede de afetos e resist\u00eancia, mostrando que, mesmo quando o mundo lhes nega o palco, as mulheres seguem lutando por sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e por espa\u00e7os de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse entrela\u00e7ar de vidas, <strong><em data-start=\"207\" data-end=\"216\">Cyclone<\/em><\/strong> refor\u00e7a que a emancipa\u00e7\u00e3o individual est\u00e1 sempre ligada \u00e0 coletividade \u2014 aqui, predominantemente feminina, enquanto os homens aparecem apenas como representantes de um poder que lhes nega qualquer tipo de liberdade.<\/p>\n<p>Por exemplo, ao contr\u00e1rio do destino tr\u00e1gico da mulher real, coagida a abortar e morta dias depois, a <strong>Cyclone<\/strong> de <strong>Flavia Castro<\/strong> e <strong>Luiza Mariani<\/strong> escolhe seu pr\u00f3prio caminho. A decis\u00e3o de interromper a gravidez indesejada parte dela \u2014 um gesto de autonomia e coragem que n\u00e3o apenas reescreve o passado sob a \u00f3tica do presente, mas tamb\u00e9m reafirma a pot\u00eancia de seu corpo e de sua voz como territ\u00f3rio de liberdade. \u00c9 o cinema como repara\u00e7\u00e3o: a arte devolvendo a uma mulher o direito de narrar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, de assumir suas escolhas e de resistir \u00e0s amarras que tentaram silenci\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong><em>Cyclone<\/em>\u00a0<\/strong>\u00e9 ambientado em uma S\u00e3o Paulo dos anos 1919 e, para retrat\u00e1-la,\u00a0<strong>Flavia<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>evita a pompa das grandes produ\u00e7\u00f5es de \u00e9poca, substituindo cen\u00e1rios e figurinos suntuosos por um realismo sensorial, em que ru\u00eddos, texturas e pulsa\u00e7\u00f5es \u2014 das obras da cidade em constru\u00e7\u00e3o e das ru\u00ednas \u2014 se confundem com o turbilh\u00e3o interno da protagonista.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por planos mais contidos e pr\u00f3ximos aos atores \u2014 evitando planos abertos \u2014 poderia soar como limita\u00e7\u00e3o de recursos; ainda que o seja, essa prov\u00e1vel escassez fortalece a hist\u00f3ria e intensifica a veracidade das imagens. A decis\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtica: <em><strong>Cyclone<\/strong><\/em> n\u00e3o recria o passado, mas revela como ele reverbera no presente. A liberdade formal da diretora ecoa o esp\u00edrito da personagem, traduzindo, em forma e ess\u00eancia, o vendaval que foi <strong>Cyclone<\/strong>.<\/p>\n<p data-start=\"2208\" data-end=\"2791\">Com uma equipe majoritariamente feminina \u2014 fotografia de <strong data-start=\"2425\" data-end=\"2443\">Helo\u00edsa Passos<\/strong>, montagem de <strong data-start=\"2457\" data-end=\"2474\">Joana Collier<\/strong> e da pr\u00f3pria <strong>Castro<\/strong>, dire\u00e7\u00e3o de arte de <strong data-start=\"2515\" data-end=\"2536\">Ana Paula Cardoso<\/strong>, figurinos de <strong data-start=\"2551\" data-end=\"2569\">Gabriela Marra<\/strong> e caracteriza\u00e7\u00e3o de <strong data-start=\"2590\" data-end=\"2611\">Mariah de Freitas<\/strong>, produ\u00e7\u00e3o de <strong data-start=\"2625\" data-end=\"2642\">Luiza Mariani<\/strong>, <strong data-start=\"2644\" data-end=\"2661\">Joana Mariani<\/strong> e <strong data-start=\"2664\" data-end=\"2683\">Eliane Ferreira<\/strong> \u2014 <em><strong>Cyclone<\/strong><\/em> refor\u00e7a, tamb\u00e9m nos bastidores, o gesto coletivo de dar visibilidade a uma hist\u00f3ria silenciada.<\/p>\n<p data-start=\"2208\" data-end=\"2791\">Essa presen\u00e7a feminina n\u00e3o \u00e9 apenas simb\u00f3lica: \u00e9 uma extens\u00e3o do tema do filme, traduzindo na pr\u00e1tica a sororidade e o cuidado com as hist\u00f3rias de mulheres que, como <strong>Cyclone<\/strong>, foram invisibilizadas. Cada presen\u00e7a carrega o olhar sens\u00edvel de quem conhece de perto os desafios de existir e criar num mundo que ainda tenta limitar o protagonismo feminino.<\/p>\n<p data-start=\"3158\" data-end=\"3763\"><strong><em data-start=\"3158\" data-end=\"3167\">Cyclone<\/em><\/strong> \u00e9, enfim, um filme consciente de que muitas das batalhas da protagonista vividas h\u00e1 mais de cem anos ainda ecoam nos tempos atuais. Corajosa, a <strong>Cyclone<\/strong> de <strong>Flavia Castro<\/strong> e <strong>Luiza Mariani<\/strong> \u00e9 resist\u00eancia: a dramaturga apagada finalmente ganha o palco, com o barulho e a f\u00faria que sempre lhe foram negados. Ao reinvent\u00e1-la, o longa n\u00e3o apenas lembra quem foi essa mulher, mas imagina quem ela poderia ter sido se o mundo tivesse permitido. E, ao faz\u00ea-lo, reafirma o poder do cinema como espa\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe title=\"Cyclone | 2025 | Teaser\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tGMRwyJCsRY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong> 49\u00aa Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo: Acompanhe a cobertura de Rolling Stone Brasil<\/p>\n<div class=\"author-box clearfix mb-4\">\n<div class=\"d-flex align-items-center\">\n<div class=\"author-avatar\">\n        &#13;<br \/>\n          \n      <\/div>\n<div class=\"author-info ms-3\">\n<p><strong>Angelo Cordeiro<\/strong> \u00e9 rep\u00f3rter do n\u00facleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade S\u00e3o Judas, escreve sobre filmes desde 2014. Paulistano do bairro de Interlagos e fan\u00e1tico por F\u00f3rmula 1. Pisciano, mas n\u00e3o acredita em astrologia. S\u00e3o-paulino, pai de pet e cin\u00e9filo obcecado por listas\u00a0e\u00a0rankings.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/cyclone-critica\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores for\u00e7as do cinema est\u00e1 em sua capacidade de resgatar hist\u00f3rias e dar voz a personagens esquecidos ou invisibilizados pelo tempo. Cyclone, novo longa de Flavia Castro (Deslembro), a partir do roteiro de Rita Piffer, que chega \u00e0 49\u00aa Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo, faz exatamente isso. 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