{"id":49449,"date":"2025-10-15T11:26:16","date_gmt":"2025-10-15T14:26:16","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/a-ascensao-recuo-e-ressurreicao-de-dangelo\/"},"modified":"2025-10-15T11:26:16","modified_gmt":"2025-10-15T14:26:16","slug":"a-ascensao-recuo-e-ressurreicao-de-dangelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-ascensao-recuo-e-ressurreicao-de-dangelo\/","title":{"rendered":"A ascens\u00e3o, recuo e ressurrei\u00e7\u00e3o de D&#8217;Angelo"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p><strong>D\u2019Angelo<\/strong> e <strong>Questlove <\/strong>estavam sentados no sof\u00e1 de um hotel luxuoso assistindo, ou melhor, analisando o v\u00eddeo de uma performance de <strong>James Brown<\/strong> em 1964. <strong>D<\/strong> e <strong>Quest<\/strong> observavam cada gesto, cada passo de dan\u00e7a e sinal de luz, e cada vez que o \u201cChef\u00e3o da Soul Music\u201d sutilmente sinalizava para a banda fazer alguma coisa.<\/p>\n<p>Esta cena aconteceu h\u00e1 25 anos. Eu estava na sala, cobrindo <strong>D\u2019Angelo<\/strong> para a <strong><em>Rolling Stone<\/em><\/strong>. Ele era, naquele momento, um dos artistas mais badalados do mundo. Seu segundo \u00e1lbum, <em><strong>Voodoo<\/strong><\/em>, o havia consolidado como um g\u00eanio musical ineg\u00e1vel. Ele era o apogeu do g\u00eanero soul moderno \u2014 profundo, poderoso, sexual, sensual e intimista. Era exatamente o que atra\u00eda tantos ouvintes para a m\u00fasica soul: um \u00e1lbum de grooves longos, serenatas em falsete e graves de fazer c\u00f3cegas no est\u00f4mago. E o disco n\u00e3o era apenas um compilado de m\u00fasicas, era a declara\u00e7\u00e3o de guerra de <strong>D\u2019Angelo<\/strong> pelo futuro da m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>D\u2019Angelo<\/strong> me contou que ele via a situa\u00e7\u00e3o da seguinte forma: a m\u00fasica estava se tornando excessivamente comercial, e <em><strong>Voodoo<\/strong> <\/em>foi uma tentativa de afastar os artistas disso, incentivando-os a seguir a sua voz interior \u2014 aonde quer que ela os levasse. <em><strong>Voodoo<\/strong> <\/em>tamb\u00e9m tinha como objetivo chamar a aten\u00e7\u00e3o de <strong>Prince<\/strong>, na esperan\u00e7a de convencer o \u201cThe Purple One\u201d (apelido de <strong>Prince<\/strong>, ou \u201cO Roxo\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre) a colaborar com <strong>D<\/strong> e <strong>Quest<\/strong> em um \u00e1lbum \u2014 essencialmente, para servir como uma audi\u00e7\u00e3o para <strong>Prince<\/strong> \u2014, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>D<\/strong> estava no topo do mundo \u2014 genuinamente uma estrela da m\u00fasica \u2014 e mesmo assim, ele estava sentado ali, estudando os grandes nomes como um aluno esperan\u00e7oso. N\u00e3o apenas <strong>Brown<\/strong>, mas tamb\u00e9m <strong>Stevie Wonder<\/strong>, <strong>Prince<\/strong>, <strong>Al Green<\/strong>, <strong>Aretha Franklin<\/strong>, <strong>Marvin Gaye<\/strong> \u2014 o c\u00e2none da soul music, em certo sentido. Eles chamavam esses antecessores de \u201cYodas\u201d, e os v\u00eddeos eram chamados de \u201cguloseimas\u201d. Naquele dia, <strong>Questlove<\/strong> perguntou a <strong>D<\/strong>: \u201cComo seria sua vida se voc\u00ea n\u00e3o tivesse visto aquela guloseima do <strong>George Clinton<\/strong>?\u201d <strong>D<\/strong> respondeu: \u201cTotalmente diferente.\u201d<\/p>\n<p>Observ\u00e1-lo analisar minuciosamente m\u00fasicos mais antigos me ajudou a entender um pouco de onde vinha a sua genialidade. <strong>D<\/strong> era um estudante dedicado de seu of\u00edcio e um trabalhador esfor\u00e7ado, mesmo sendo incrivelmente talentoso. Na verdade, ele tinha um dom natural desde t\u00e3o cedo que seu irm\u00e3o mais velho me disse que nunca imaginara que <strong>D<\/strong> seria outra coisa sen\u00e3o m\u00fasico.<\/p>\n<p><strong>D<\/strong> cresceu tocando em uma igreja pentecostal na Virg\u00ednia e foi para Nova York, ainda adolescente, em busca de um contrato com uma gravadora, como parte de um trio. A gravadora disse: \u201cN\u00f3s s\u00f3 queremos ele\u201d. Seu \u00e1lbum de estreia, <em><strong>Brown Sugar<\/strong><\/em>, deixou todos em alerta: havia um novo gigante do soul na cidade. O single hom\u00f4nimo \u2014 um di\u00e1logo provocante sobre seu amor pela maconha \u2014 esteve entre as m\u00fasicas mais tocadas do ver\u00e3o de 1995. Mas alguns sentiram que o projeto parecia inacabado, como se as faixas fossem mais esbo\u00e7os do que composi\u00e7\u00f5es completas. Cinco anos depois, <strong>D<\/strong> apagou qualquer d\u00favida com seu segundo \u00e1lbum, <em><strong>Voodoo<\/strong><\/em>. Foi uma conquista monumental que deixou claro que ele n\u00e3o era apenas um disc\u00edpulo das lendas do soul, era tamb\u00e9m seu igual.<\/p>\n<p>Mas <em><strong>Voodoo<\/strong> <\/em>causou um problema.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u201c<strong>Untitled (How Does It Feel)<\/strong>\u201d foi a obra-prima de <strong>D\u2019Angelo<\/strong>: um groove rodopiante de funk er\u00f3tico, t\u00e3o intenso que parecia poss\u00edvel engravidar s\u00f3 de ouvi-la. Seu empres\u00e1rio,<strong> Dominique Trenier<\/strong>, idealizou um clipe em que <strong>D<\/strong> apareceria sozinho em um palco, com a c\u00e2mera oferecendo closes de seu corpo \u2014 das tran\u00e7as at\u00e9 logo abaixo do umbigo. Seria algo simples, sensual e poderoso.<\/p>\n<p><iframe title=\"D&#039;Angelo - Untitled (How Does It Feel) (Official Music Video)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SxVNOnPyvIU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Este seria o \u00e1pice de anos de trabalho em seu corpo. Quando <strong>D<\/strong> largou <em><strong>Brown Sugar<\/strong><\/em>, ele estava acima do peso. Nos cinco anos seguintes, enquanto trabalhava em <em><strong>Voodoo<\/strong><\/em>, ele mudou sua alimenta\u00e7\u00e3o e treinou de forma obsessiva. Quando chegou a hora de gravar o clipe de \u201c<strong>Untitled<\/strong>\u201d, <strong>D<\/strong> estava em uma forma f\u00edsica quase sobre-humana. Mas ele n\u00e3o queria fazer o v\u00eddeo. Sua limusine parou em frente ao est\u00fadio, e ele se recusou a sair. Estava nervoso. <strong>Trenier<\/strong> saiu e ficou sentado com ele at\u00e9 que, finalmente, <strong>D<\/strong> se sentisse pronto.<\/p>\n<p>Eles entraram em cena e criaram um dos videoclipes mais ic\u00f4nicos de todos os tempos. O v\u00eddeo atingiu a cultura como uma bomba de n\u00eautrons e excitou o p\u00fablico. Seria aquele o homem mais bonito do mundo? Talvez. O visual por si s\u00f3 j\u00e1 dava a <strong>D\u2019Angelo<\/strong> uma proje\u00e7\u00e3o ainda maior. Mas a\u00ed veio o problema: depois de \u201c<strong>Untitled<\/strong>\u201d, as pessoas come\u00e7aram a enxergar o cantor de outra forma. Em seus shows, os f\u00e3s gritavam para que ele tirasse a camisa. Isso era at\u00e9 aceit\u00e1vel, mas ele queria ser visto como m\u00fasico.<\/p>\n<p><strong>D<\/strong> estudou m\u00fasica como um aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e depois passou cinco anos trabalhando em <em><strong>Voodoo<\/strong><\/em>. Ele queria que tudo girasse em torno de can\u00e7\u00f5es \u2014 para transmitir que ele era um grande m\u00fasico \u2014, mas os f\u00e3s gritavam t\u00e3o alto para ver seu abd\u00f4men que era imposs\u00edvel ouvir a m\u00fasica. Ele se sentia rebaixado de g\u00eanio a s\u00edmbolo sexual. Ent\u00e3o ele se rebelou, desaparecendo. Passamos anos sentindo sua falta. Seu terceiro e \u00faltimo \u00e1lbum, <em><strong>Black Messiah<\/strong><\/em>, foi lan\u00e7ado em 2014, mais de uma d\u00e9cada depois.<\/p>\n<p><em><strong>Voodoo<\/strong> <\/em>continua sendo uma conquista poderosa. O \u00e1lbum ser\u00e1 lembrado como uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para muitos, provando que ele talvez tenha perseverado na guerra que travou com tanta coragem. <strong>D\u2019Angelo<\/strong> lembrou ao mundo que \u00e9 poss\u00edvel ter sucesso ouvindo sua pr\u00f3pria musa, ignorando as tend\u00eancias da ind\u00fastria e oferecendo ao p\u00fablico um som verdadeiramente inovador.<\/p>\n<p>Agora, <strong>D\u2019Angelo<\/strong> se foi, e quando ou\u00e7o seus descendentes musicais \u2014 artistas como <strong>Frank Ocean<\/strong>, <strong>H.E.R.<\/strong> e <strong>SZA<\/strong> \u2014 \u00e9 como ver lindas flores desabrochando a partir das sementes musicais que ele plantou. Em outras palavras, a longo prazo, ele venceu.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: D\u2019Angelo, vision\u00e1rio do soul moderno, morre aos 51 anos<\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/noticia\/a-ascensao-recuo-e-ressurreicao-de-dangelo\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u2019Angelo e Questlove estavam sentados no sof\u00e1 de um hotel luxuoso assistindo, ou melhor, analisando o v\u00eddeo de uma performance de James Brown em 1964. 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